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Mulheres trans e prevenção do câncer de próstata; médico explica as recomendações

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Jairo Bouer Publicado em 23/11/2020, às 18h59 - Atualizado às 19h55

Neste Novembro Azul, todos os homens têm sido estimulados a procurar o urologista para realizar seus exames de rotina, inclusive o rastreio do câncer de próstata, indicado a partir dos 50 anos de idade, ou antes, para aqueles com antecedente familiar.

Mas é importante lembrar que as recomendações também valem para travestis e mulheres trans, inclusive aquelas que passaram pela cirurgia de redesignação, como explica o médico Vinicius Lacerda, cirurgião do aparelho digestivo, neste vídeo gravado especialmente para a gente.

Desafios da população LGBTQIA+

Desde o início do mês, a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais) tem divulgado uma campanha para “tocar neste assunto”, um mote criativo em referência ao exame de toque retal.

Quem é leigo costuma achar que médicos são profissionais que se despem de qualquer preconceito ao atender um paciente. Mas a realidade é diferente, e a população LGBTQIA+ ainda enfrenta muitos desafios ao tentar acessar os serviços de saúde. Isso faz com que muita gente deixe de se cuidar como deveria.

Graças ao esforço de ativistas e profissionais de saúde, como Lacerda, esse assunto importante tem vindo à tona nas redes sociais. Na entrevista a seguir, ele nos explica quais as recomendações para a população transexual no que se refere à prevenção do câncer de próstata e também de mama:

Dr. Jairo: Quando falamos nas pessoas trans, temos uma série de situações bem diferentes. Poderia explicar um pouco? Existem recomendações que valem para todos?

Dr. Vinicius Lacerda: Existem recomendações que valem para qualquer pessoa independente da sua identidade de gênero e outras que são específicas para a população trans.

Todas esssas recomendações variam de acordo com o grau de transformação ao qual seus corpos são submetidos: alguns não fazem nenhum tipo de modificação a não ser a forma de se comportarem e de se vestirem, outros passam por processos de hormonização e outros são submetidos a tratamento cirúrgicos.

No caso dos homens trans que ainda possuem a vagina e o colo de útero é necessário realizar os exames de prevenção como o papanicolau. Aqueles que ainda possuem as mamas também precisam realizar o rastreio do câncer de mama.

Porém, alguns homens trans são operados para retirada das mamas e dos órgãos genitais internos, como o colo do útero. Por isso não haveria a necessidade e nem como realizar esse rastreio. Quando um homem trans que está sendo submetido a tratamento hormonal deseja engravidar, é uma gestação com diversas peculiaridades que precisa ser acompanhada por um profissional especializado.

Dr. Jairo: Como deve ser o rastreio do câncer de próstata nas mulheres trans? As terapias hormonais que bloqueiam a testosterona (hormônio masculino) de alguma forma protegem essas pessoas do risco desse tipo de câncer?

Dr. Vinicius Lacerda: A próstata é um órgão interno que tem seu desenvolvimento dependente da testosterona, um hormônio produzido pelos testículos e pelas glândulas adrenais, sendo que a maioria dos casos de câncer de próstata se desenvolve também por causa do  estímulo da testosterona.

De acordo com o médico urologista Leonardo Lins, a recomendação para iniciar o rastreio do câncer na população que possui próstata é de se iniciar aos 50 anos consultas para que se dose o antígeno prostático especifico (PSA) e se realize o toque retal para se palpar a próstata. Em pessoas com antecedente familiar esse rastreio começa aos 45 anos.

As mulheres trans nascem com próstata. Aquelas que não realizam o bloqueio hormonal da testosterona precisam realizar o rastreio assim como os homens cis, de acordo com a rotina exemplificada acima, pois o risco de desenvolvimento do câncer é o mesmo.

Aquelas que realizam o bloqueio hormonal da testosterona ou realizam a orquiectomia (retirada dos testículos) têm um risco bem menor de desenvolver o câncer de próstata, devido ao bloqueio da ação da testosterona no tecido prostático. Porém, ainda não há estudos conclusivos que nos autorize a não realizar esse rastreio, visto que elas ainda podem desenvolver o câncer de próstata ainda mais agressivo, que são aqueles indiferenciados (não tão dependentes da ação da testosterona).

Portanto a recomendação é que mulheres trans ainda realizem os exames de toque e PSA assim como os homens cis.

Mulheres trans submetidas a procedimentos para modificação da genitália, como a confecção da neovagina, possuem alguma peculiaridades no rastreio, como por exemplo o toque retal: a vagina confeccionada muitas vezes se interpõe entre o reto e a próstata. Por isso a importância de dosar o PSA e o toque ser realizado através da neovagina e não pelo reto.

Dr. Jairo: Mulheres trans também devem fazer o rastreio de câncer de mama?

Dr. Vinicius Lacerda: Alguns estudos já mostraram que não há aumento do risco de câncer de mama pelo uso dos hormônios femininos pelas mulheres trans, como o estrogênio. Por isso não há indicação formal de rastreio de câncer de mama nessa população.

Crédito: iStock

Dr. Jairo: Quais as dificuldades que a população LGBTQIA+ costuma enfrentar ao procurar os serviços de saúde? Existe preconceito entre os médicos? Como você acha que isso poderia ser resolvido?

Dr. Vinicius Lacerda: As dificuldades da população LGBTQIA+ no acesso aos serviços de saúde se dividem principalmente em três pilares:

– Os profissionais de saúde, que muitas vezes não são capacitados em sua formação a atender a essa população e ainda carregam seus preconceitos, que se expressam por meio de julgamentos, piadas e falta de sensibilidade.

Grande parte do preconceito vem do desconhecimento, então acredito que ao se atualizar os currículos de graduação e especialização, como a residência médica, para abordar tópicos relacionados à saúde da população LGBTQIAA+, já haveria uma formação mais humanizada desses profissionais. Aqueles já formados poderiam ser submetidos a oficinas e cursos nas instituições nas quais trabalham para poder qualificá-los a atender essa população adequadamente.

– As políticas públicas de saúde: o Sistema Único de Saúde já dispõe de uma Política de Saúde Integral da população LGBT, desde 2011. Porém ainda falta muito para poder ser aplicada integralmente. A interiorização dos métodos de prevenção combinada às ISTs, a atenção integral ao processo de transição da população trans, e visibilidade da saúde da mulher lésbica e bissexual, entre tantos outros tópicos, ainda precisam sair do papel. E não é os que temos observado nos últimos 2 anos com as ações do governo federal.

– O próprio paciente ou usuário, que sofre um medo constante de sofrer preconceito, conceito também chamado de estresse de minoria, o que dificulta a procura pelo atendimento médico devido a experiências desgradáveis em consultas prévias, ou que não assume sua orientação sexual ou identidade de gênero no atendimento devido ao medo de sofrer preconceito. A partir do momento em que os profisssionais estiverem mais capacitdos ou as políticas públicas focarem mais nessa população, talvez esse comportamento defensivo dos pacientes possa mudar, e eles se sintam mais à vontade para procurar atendimento nos serviços de saúde.

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