Doutor Jairo
Leia » Comportamento

Por que tantos jovens estão sofrendo com a saúde mental?

Um em cada cinco indivíduos entre 5 e 29 anos convive com algum tipo de transtorno mental - iStock
Um em cada cinco indivíduos entre 5 e 29 anos convive com algum tipo de transtorno mental - iStock

Mais de 15 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos convivem com algum transtorno mental. Isso significa que cerca de um em cada cinco indivíduos nessa faixa etária enfrenta alguma condição desse tipo. Outros 2,5 milhões apresentam transtornos relacionados ao uso de álcool ou outras drogas.

Os números fazem parte de uma análise baseada no Global Burden of Disease (GBD 2023), publicada no The Lancet Regional Health – Americas, e noticiada na última semana no UOL. Ela ajuda a dimensionar um problema sobre o qual temos falado há bastante tempo: a saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos precisa ocupar um lugar muito mais importante nas discussões sobre saúde pública no Brasil.

A prevalência dos transtornos aumenta conforme a idade: parte de pouco mais de 10% entre crianças de 5 a 9 anos e chega a quase 25% entre os jovens adultos de 25 a 29 anos. E um dado chama particularmente a atenção: os transtornos de ansiedade aparecem como a principal causa de incapacidade em todas as faixas etárias estudadas.

É importante lembrar que ansiedade não significa simplesmente estar preocupado antes de uma prova, de uma entrevista de emprego ou diante de uma decisão importante. A ansiedade faz parte da vida. O problema começa quando ela se torna intensa, persistente e passa a interferir no sono, nos estudos, no trabalho, nos relacionamentos e na capacidade de levar a vida cotidiana. Nesses casos, pode ser profundamente incapacitante.

Mas por que tantos jovens estão adoecendo emocionalmente? Não existe uma única resposta. Provavelmente estamos diante de uma combinação de fatores individuais, familiares, sociais e econômicos.

Crianças e jovens passam hoje uma parcela importante do dia diante das telas e das redes sociais, ambientes que podem ampliar comparações, cobranças, exposição, conflitos e a sensação de que a vida dos outros é sempre melhor do que a nossa. Ao mesmo tempo, diferentes estudos vêm chamando a atenção para a solidão e para a fragilização dos vínculos presenciais.

Há também uma sociedade cada vez mais baseada no desempenho. É preciso estudar mais, estar permanentemente atualizado, conseguir um bom emprego, ganhar dinheiro, cuidar do corpo, viajar, ter relacionamentos satisfatórios e, de preferência, exibir nas redes sociais que tudo está dando certo. A sensação de não alcançar essas expectativas pode alimentar frustração, ansiedade e baixa autoestima.

Some-se a isso um futuro que, para muitos jovens, parece menos previsível. Dificuldade de inserção profissional, insegurança financeira, conflitos políticos e sociais, guerras e crise climática fazem parte do horizonte dessa geração. Para muita gente, construir autonomia, comprar uma casa ou simplesmente imaginar onde estará daqui a dez anos tornou-se mais difícil.

Existem ainda novos riscos. O crescimento das apostas esportivas e dos jogos on-line, por exemplo, expõe jovens a mecanismos capazes de provocar perda de controle, endividamento, conflitos familiares e sofrimento psíquico. Álcool e outras drogas continuam sendo outra preocupação importante.

E existe um recorte que merece atenção especial: meninos e homens jovens. Embora vários transtornos mentais, especialmente ansiedade e depressão, sejam mais frequentes entre meninas e mulheres, os desfechos mais graves apresentam outro padrão. O estudo estima cerca de 5.400 mortes anuais por suicídio entre brasileiros de 10 a 29 anos, e aproximadamente 77% delas ocorrem entre rapazes.

Essa diferença não pode ser ignorada. Muitos homens continuam sendo educados para esconder vulnerabilidades, suportar o sofrimento sozinhos e evitar conversas sobre medo, tristeza, insegurança e fracasso. Nesse contexto, pedir ajuda ainda pode ser interpretado como sinal de fraqueza.

O resultado é um paradoxo perigoso: muitas vezes eles aparecem menos nos serviços de saúde mental, mas enfrentam situações mais preocupantes. Precisamos discutir masculinidade também como uma questão de saúde.

Os dados brasileiros, é verdade, têm limitações. As fontes usadas pelo GBD ainda estão concentradas em poucos estados, especialmente São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, e existem grandes vazios de informação em outras regiões do país. Isso reforça a necessidade de produzirmos dados nacionais melhores e mais representativos.

Mas a falta de informações perfeitas não pode servir de desculpa para esperar. Precisamos identificar o sofrimento mais cedo, ampliar o acesso aos serviços de saúde mental e criar portas de entrada que não dependam apenas de alguém chegar a uma emergência em uma situação grave. Família, escola, atenção básica e comunidade podem ajudar a perceber mudanças de comportamento e oferecer apoio antes que uma situação se agrave.

E talvez seja preciso fazer algo ainda mais básico: voltar a perguntar aos jovens como eles estão — e estar realmente disponíveis para ouvir a resposta.

Uma geração que demonstra tanto sofrimento não precisa simplesmente aprender a ser mais resistente. Nós também precisamos olhar com mais atenção, cuidado e empatia para o mundo que estamos oferecendo a ela.

Jairo Bouer escreve semanalmente neste site.

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr