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Medo de passar vergonha e solidão andam juntos na adolescência

Medo de ser julgado ou passar vergonha leva muitos jovens a evitar interações sociais - iStock
Medo de ser julgado ou passar vergonha leva muitos jovens a evitar interações sociais - iStock

Redação Publicado em 07/03/2026, às 10h00

Uma pesquisa da Universidade Sunshine Coast, na Austrália, identificou um ciclo preocupante que pode alimentar a solidão entre adolescentes, um problema que tem impacto direto na saúde mental e que tem chamado a atenção de especialistas no mundo todo.

O estudo, realizado com mais de 170 indivíduos de 13 a 15 anos daquele país, sugere que o medo de passar vergonha ou ser julgado pelos colegas pode levar muitos deles a evitar interações sociais. A consequência? Isso aumenta ainda mais a sensação de isolamento.

Segundo os pesquisadores, adolescentes que tentam “passar despercebidos” em ambientes sociais para evitar críticas relatam níveis maiores de solidão. Eles também apresentam menor confiança nos outros, menor sensação de conexão e menor engajamento em amizades.

Os resultados foram publicados na revista científica Child & Youth Care Forum.

Ciclo difícil de ser interrompido

A pesquisa foi liderada pela psicóloga Helen Hall, professora de psicologia e pesquisadora da Universidade Sunshine Coast. Ela explica que muitos jovens acabam entrando em um ciclo difícil de ser interrompido.

Eles se afastam do convívio social para evitar serem julgados, o que os impede de aprender habilidades de confiança, integração e reciprocidade; consequentemente, sentem-se solitários e evitam ainda mais os colegas."

De forma simples, funciona assim:

1. O adolescente evita interações para não ser julgado
2. Com menos convivência, ele deixa de desenvolver habilidades sociais
3. Isso dificulta criar vínculos e confiança
4. Como consequência, a solidão aumenta
5. Sentindo-se solitários, a tendência a evitar os colegas fica ainda maior

Essas habilidades sociais incluem comportamentos como iniciar conversas, demonstrar empatia (capacidade de compreender sentimentos de outras pessoas) e lidar com trocas naturais das amizades, como ouvir e ser ouvido.

Empatia pode aumentar vulnerabilidade

Um ponto curioso do estudo é que alguns adolescentes podem sofrer justamente por terem mais sensibilidade social.

“Infelizmente, alguns adolescentes sofrem porque têm empatia e conseguem perceber diferentes perspectivas, que são habilidades maravilhosas e que estão diminuindo nessa faixa etária”, explicou Hall.

Isso significa que jovens mais atentos às opiniões dos outros podem ficar mais preocupados com julgamentos. Dessa forma, por medo de constrangimento, acabam se retraindo.

Popularidade nem sempre é ruim

Outro resultado inesperado foi que adolescentes que buscavam popularidade ou status social relataram menos solidão.

Isso pode parecer contraditório, já que estudos anteriores sugerem que ter muitos amigos ou buscar popularidade nem sempre melhora o bem-estar emocional.

Mas, segundo Hall, nesse caso esses fatores podem funcionar como proteção, desde que estejam ligados a relações saudáveis.

“Pesquisas anteriores mostraram que redes grandes de amigos ou objetivos de status nem sempre levam a maior bem-estar ou a comportamentos sociais mais saudáveis. No entanto, neste caso, eles parecem ser fatores de proteção contra a solidão quando são canalizados para relações de confiança e apoio mútuo.”

O que pais e educadores podem fazer

Para a pesquisadora, a chamada “epidemia global de solidão” entre adolescentes exige atenção de adultos próximos.

Ela acredita que pais e educadores precisam ajudar os jovens a encontrar maneiras seguras e sem pressão para se conectar com outras pessoas.

“Pais e professores precisam ajudar nossos adolescentes a encontrar formas seguras e de baixa pressão para participar e se conectar com seus colegas”, disse.

A especialista também alerta para um conselho muito comum que não ajuda: dizer para o adolescente não se importar com a opinião dos outros.

Segundo ela, interações presenciais costumam ser mais importantes para o desenvolvimento social do que contatos apenas pelas redes sociais.

“Em geral, nossos adolescentes desenvolvem habilidades mais ricas quando participam de atividades presenciais com outras pessoas.”

Outro ponto fundamental é ouvir o jovem com atenção. “Escute e valide o que eles estão sentindo e ajude-os a dar pequenos passos”, aconselha.

5 atitudes que podem ajudar o jovem

Especialistas sugerem algumas estratégias simples para apoiar adolescentes que estão enfrentando solidão:

1. Fortalecer relações de confiança

Ajude o jovem a identificar um colega com quem ele se sinta mais confortável e um adulto com quem possa conversar. Depois, pensem juntos em formas de fortalecer esses vínculos.

2. Ensinar a troca nas amizades

Criar pequenos “roteiros sociais” pode ajudar. Exemplos: perguntar como o outro está, convidar alguém para sentar junto com ele(a) ou demonstrar empatia.

3. Estimular coragem social

Incentive um pequeno desafio social por semana, como iniciar uma conversa curta ou participar de uma atividade em grupo.

4. Cuidar do sono e do autocuidado

Noites bem dormidas e hábitos saudáveis ajudam a regular emoções e melhorar o bem-estar.

5. Fazer uma pausa para organizar pensamentos

Uma técnica sugerida é escrever por cerca de 10 minutos todas as preocupações do momento e, em seguida, fazer uma atividade de relaxamento, como tomar banho, ouvir música ou alongar o corpo.

Importância do feedback social

A pesquisa também chamou a atenção da autora e palestrante australiana Michelle Mitchell, que tem feito palestras sobre educação e parentalidade na Austrália.

Ela acredita que os resultados trazem insights valiosos para famílias que tentam entender melhor as necessidades emocionais dos adolescentes.

Segundo Mitchell, um ponto importante é repensar a ideia de que jovens deveriam simplesmente ignorar o que os outros pensam.

“Espero que todos os pais tirem essa frase do seu vocabulário e percebam que nossos filhos precisam prestar atenção no que os outros pensam.”

Para ela, o chamado feedback social — ou seja, as reações e opiniões das pessoas ao redor — é essencial para o desenvolvimento.

“O feedback social é importante. É assim que eles entendem o ambiente e compreendem a si mesmos dentro de um contexto, para poder contribuir de forma significativa.”

Pesquisas futuras ainda vão investigar como esse comportamento de evitar interações sociais pode afetar o engajamento escolar e a confiança dos alunos em suas próprias capacidades acadêmicas.