
Duas notícias publicadas nesta semana ajudam a discutir um tema complexo, urgente e que exige cada vez mais atenção: o sofrimento emocional de adolescentes e o risco de suicídio.
A primeira delas, produzida pela Agência Einstein e publicada pela Folha de S.Paulo, traz resultados de uma pesquisa realizada por pesquisadores da Unifesp e da Universidade Federal de Sergipe com adolescentes atendidos em Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij), em São Paulo, após tentativas de suicídio. O estudo reforça algo que a literatura científica vem mostrando há anos: dificilmente existe um único motivo capaz de explicar uma tentativa de suicídio.
Em vez disso, o que aparece é uma combinação de fatores que vão se acumulando ao longo da vida. Experiências de violência, conflitos familiares, negligência emocional, bullying, discriminação, isolamento social, dificuldades para lidar com emoções intensas, além de sintomas de ansiedade e depressão, criam um cenário de vulnerabilidades acumuladas. Sentimentos como abandono, rejeição e falta de pertencimento atravessam muitos desses relatos.
Esse talvez seja o principal recado do estudo: uma tentativa de suicídio não costuma nascer de um único episódio, mas da sobreposição de diferentes formas de sofrimento. Isso também significa que não existe uma resposta simples para um problema que tem tantas camadas.
A segunda notícia, publicada pelo UOL, vem da área da tecnologia. A Meta anunciou que passará a avisar pais e responsáveis quando sua inteligência artificial identificar, nas conversas de adolescentes com a Meta AI, sinais de possível risco de suicídio ou automutilação. Antes do envio do alerta, as conversas sinalizadas passarão por revisão humana, e o recurso estará disponível para contas que utilizam a supervisão parental, com expansão global prevista até o final do ano.
A novidade chama atenção porque representa uma mudança importante: as próprias plataformas digitais parecem reconhecer que podem fazer parte tanto do problema quanto da solução.
Não há dúvida de que as redes sociais podem amplificar vulnerabilidades já existentes. O cyberbullying, a exposição constante à comparação social, a busca por validação, o medo da exclusão e a sensação de inadequação encontram, muitas vezes, um ambiente fértil nas plataformas digitais. Para adolescentes que já vivem conflitos familiares, dificuldades emocionais ou transtornos mentais, esses elementos podem aumentar ainda mais o sofrimento.
Ao mesmo tempo, seria um erro atribuir às redes sociais a responsabilidade exclusiva pelo aumento dos casos de sofrimento psíquico entre jovens. Elas são apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior. O mesmo ambiente digital que pode intensificar dores também pode oferecer informação de qualidade, comunidades de apoio, acesso a serviços de saúde e, agora, até ferramentas capazes de identificar sinais de alerta.
Nenhuma inteligência artificial será capaz de substituir aquilo que continua sendo o maior fator de proteção para adolescentes: relações humanas significativas. Jovens precisam sentir que pertencem, que podem falar sobre suas angústias sem medo de julgamento e que encontrarão adultos dispostos a escutar, acolher e buscar ajuda quando necessário.
Pais, escolas, profissionais de saúde, amigos e, cada vez mais, também as plataformas digitais compartilham essa responsabilidade. Quanto mais cedo o sofrimento é percebido, maiores são as possibilidades de intervenção.
Prevenir o suicídio não significa procurar uma única causa ou esperar uma única solução. Significa construir uma rede de proteção capaz de reconhecer que o sofrimento emocional é complexo — e que o cuidado também precisa ser.
Onde buscar ajuda:
Se você ou alguém próximo estiver enfrentando sofrimento emocional intenso, procure ajuda o quanto antes.
O apoio pode ser encontrado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou em serviços de urgência, quando necessário.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br.
O Instituto Vita Alere (vitaalere.com.br) disponibiliza materiais informativos e grupos de apoio para familiares e pessoas enlutadas.
E o Mapa da Saúde Mental (mapasaudemental.com.br) reúne serviços de atendimento psicológico e psiquiátrico em diferentes regiões do país.
*Jairo Bouer escreve semanalmente neste site.
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr