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Falta de paz no Brasil traz risco importante para a saúde mental

Nosso cérebro foi programado para identificar riscos e reagir a eles - iStock
Nosso cérebro foi programado para identificar riscos e reagir a eles - iStock

No Brasil viver em alerta virou rotina e isso pode representar um grande risco para nossa saúde mental. O país subiu apenas uma posição no Índice Global da Paz de 2026, elaborado pelo Institute for Economics and Peace (IEP). Passou do 125º para o 124º lugar entre 163 países avaliados. A melhora é discreta e insuficiente para alterar um quadro preocupante: o país continua atrás da maior parte dos vizinhos sul-americanos, à frente apenas de Venezuela, Equador e Colômbia. No outro extremo da lista está a Islândia, que ocupa a primeira colocação pelo 19º ano consecutivo, seguida por Nova Zelândia, Suíça, Eslovênia, Irlanda, Áustria, Portugal, Singapura, Finlândia e Japão.

À primeira vista, o ranking pode parecer apenas mais uma estatística internacional. Mas ele ajuda a responder uma questão que afeta diretamente a vida cotidiana de milhões de pessoas: como é viver em um lugar onde a sensação de insegurança está sempre à espreita?

É importante lembrar que o Índice Global da Paz não mede felicidade nem qualidade de vida de forma ampla. Tampouco avalia desenvolvimento econômico, democracia ou satisfação pessoal. Seu foco é outro: estimar o quanto um país oferece condições para que seus habitantes vivam com segurança e estabilidade. Para isso, o levantamento considera 23 indicadores distribuídos em três grandes dimensões: segurança e proteção da população, conflitos internos e externos e grau de militarização.

Embora esses aspectos possam parecer distantes da vida das pessoas, seus efeitos são bastante concretos. Afinal, paz não é apenas a ausência de guerra. Ela também se manifesta na possibilidade de caminhar pelas ruas sem medo, utilizar espaços públicos, confiar nas instituições, deixar os filhos brincarem ao ar livre e fazer planos para o futuro sem a sensação permanente de ameaça.

Aí que entra a saúde mental. Nosso cérebro foi programado para identificar riscos e reagir a eles. Em situações de perigo, esse mecanismo é essencial para a sobrevivência. O problema surge quando o estado de alerta deixa de ser uma resposta momentânea e passa a funcionar como condição permanente.

Quando a violência, a insegurança ou o medo se tornam elementos constantes da vida cotidiana, o organismo permanece mais tempo em vigilância. Aos poucos, esse processo pode aumentar os níveis de estresse, favorecer quadros de ansiedade, prejudicar o sono e comprometer a sensação de bem-estar.

Nem sempre é necessário ter sido vítima direta de um crime para experimentar esses efeitos. Muitas vezes, basta conviver diariamente com a expectativa de que algo ruim possa acontecer. É o receio de circular por determinados locais, de voltar para casa em certos horários ou de permitir que os filhos tenham a autonomia que gerações anteriores experimentaram com mais liberdade.

O impacto também aparece nas escolhas que fazemos. Pessoas que vivem em ambientes percebidos como inseguros tendem a frequentar menos espaços públicos, caminhar menos, reduzir atividades de lazer ao ar livre e limitar interações sociais. Aos poucos, o medo passa a moldar hábitos, restringir experiências e diminuir oportunidades de convivência.

Existe ainda uma consequência coletiva. Em sociedades onde a insegurança é elevada, a confiança entre as pessoas costuma diminuir. Vizinhos se conhecem menos, a participação comunitária enfraquece e as relações sociais tornam-se mais frágeis. E sabemos que apoio social, senso de pertencimento e vínculos interpessoais são alguns dos fatores mais importantes para a proteção da saúde mental.

Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes por trás do Índice Global da Paz. O levantamento não trata apenas de violência, conflitos ou segurança pública. Ele também oferece pistas sobre as condições necessárias para que as pessoas possam viver com tranquilidade, desenvolver relações saudáveis e construir projetos de vida.

Costumamos associar saúde mental ao consultório, aos medicamentos ou à psicoterapia. Tudo isso tem sua importância. Mas a saúde mental também depende do ambiente em que vivemos.

Dormir tranquilo, confiar nas pessoas, ocupar os espaços públicos sem medo, deixar uma criança brincar em uma praça e planejar o futuro com alguma serenidade são experiências que fazem parte do bem-estar psicológico.

No fim das contas, paz não é apenas um indicador internacional. É uma condição fundamental para que as pessoas consigam viver plenamente — e não apenas sobreviver.

*Jairo Bouer escreve semanalmente neste site

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr