
Redação Publicado em 28/07/2026, às 10h00
Assistir a um vídeo curto atrás do outro, sem parar, pode causar um tipo específico de cansaço mental conhecido como "brain rot" (algo como "apodrecimento cerebral"). Um novo estudo mostra que esse esgotamento digital não causa depressão diretamente, mas dispara uma reação em cadeia previsível no funcionamento psicológico das pessoas.
De acordo com a pesquisa, rolar a tela sem parar drena a energia mental e provoca esgotamento, o que aumenta o estresse e a ansiedade até desembocar em sintomas de depressão. O estudo foi publicado na revista científica Psychological Reports.
Nos últimos anos, o jeito de usar redes sociais mudou. Antes, a interação era mais ativa, com comentários e trocas de mensagens. Hoje, o comportamento predominante é o de observação passiva. As plataformas, guiadas por algoritmos, entregam um fluxo constante de vídeos curtos e altamente estimulantes. Essa mudança estrutural alterou a forma como os jovens processam informações no dia a dia.
Uma equipe liderada pelo professor de psicologia Hasan Batmaz, com Cemile Büşra Özsağır e Halise Arslan Şekkeli, da Universidade de Karabük, na Turquia, quis entender o impacto psicológico dessa nova rotina digital. O termo "brain rot" (ou "cérebro estragado") ficou tão popular que a Oxford University Press o elegeu a palavra do ano em 2024.
Os pesquisadores definem o fenômeno como um estado de neblina mental, atenção fragmentada e sobrecarga mental causado pela exposição contínua a conteúdo digital de baixa qualidade. Ele é diferente do estresse tecnológico tradicional, que geralmente vem de uma carga de trabalho pesada ou da pressão para aprender a usar novos programas.
O "brain rot" também é diferente da dependência por videogames, segundo os estudiosos. Quem joga costuma ter altos níveis de estímulo e engajamento ativo ao explorar mundos virtuais. Já quem entra em loops de rolagem de conteúdo fica em um estado passivo, quase "zumbi", com o autocontrole reduzido.
Para explicar esse processo, os pesquisadores usaram a teoria da carga cognitiva. Segundo ela, a mente humana tem uma capacidade de memória de trabalho bem limitada. Os vídeos curtos obrigam o cérebro a trocar de contexto rapidamente a cada deslizar de dedo.
Em menos de 30 segundos, uma pessoa pode passar de um vídeo de humor para uma notícia trágica e, na sequência, para uma receita culinária. O cérebro nunca tem tempo de descansar, processar as informações ou formar memórias de longo prazo. Esse bombardeio constante se torna uma carga extra que sobrecarrega todo o sistema mental.
Para tentar economizar energia, o cérebro desacelera e passa a "amortecer" as respostas emocionais. Mesmo assim, as recompensas imprevisíveis dos algoritmos das redes sociais mantêm os circuitos de dopamina ativados. Assim, a pessoa continua presa ao ciclo de rolagem mesmo depois que seus recursos cognitivos já se esgotaram.
Para entender esse efeito na saúde mental, os pesquisadores entrevistaram 439 jovens adultos. Mais da metade dos participantes disse usar redes sociais por cinco horas ou mais todos os dias. Cerca de um quarto do grupo passava pelo menos sete horas rolando o feed.
Os participantes responderam a uma escala recém-criada para medir o nível de fadiga cognitiva causada pelo uso digital. Também preencheram questionários validados cientificamente para avaliar burnout, estresse, ansiedade e depressão.
Como cada pessoa lida de um jeito diferente com as próprias emoções, os pesquisadores também levaram em conta a chamada desregulação emocional, ou seja, a dificuldade de identificar e controlar os próprios sentimentos. Isso ajudou a equipe a isolar melhor o efeito específico do esgotamento digital sobre a saúde mental.
Os dados revelaram uma sequência clara de etapas entre o consumo digital excessivo e o sofrimento psicológico:
Essa sequência progressiva é conhecida em círculos da psicologia como "espiral de perda": uma perda inicial de energia tende a gerar novas perdas, cada vez mais rápidas. Nesse cenário, a rolagem infinita funciona como o gatilho original de toda a sequência.
O estudo também identificou diferenças notáveis de gênero na forma como esse processo se desenrola. As mulheres relataram níveis mais altos de fadiga cognitiva e burnout do que os homens, além de mais estresse e ansiedade relacionados aos hábitos digitais.
Apesar dessas diferenças nas etapas iniciais, homens e mulheres relataram níveis semelhantes de depressão no fim das contas. Segundo a equipe, isso acontece porque a depressão é uma condição multifatorial, moldada por diversos aspectos da vida além da rotina digital. A capacidade natural de cada pessoa de lidar com as próprias emoções teve um papel importante na intensidade dos sintomas em todos os casos.
Participantes com mais dificuldade de regular as emoções apresentaram níveis mais altos de burnout, estresse e ansiedade. Isso sugere que desenvolver flexibilidade emocional pode funcionar como uma espécie de proteção natural contra o bombardeio de conteúdo digital. Quem consegue processar melhor a própria frustração e o tédio tem menos chances de cair nos pontos mais profundos dessa espiral.
Essas descobertas podem ajudar a moldar futuros tratamentos clínicos para o esgotamento digital. Simplesmente pedir para os jovens largarem o celular costuma não funcionar como intervenção isolada. Terapias focadas em recuperar os recursos emocionais esgotados e administrar o burnout podem ser bem mais eficazes para impedir a evolução até a depressão.
Os próprios pesquisadores reconhecem algumas limitações no trabalho. Em primeiro lugar, a pesquisa entrevistou os participantes em um único momento no tempo, então os dados não conseguem provar, de forma definitiva, uma sequência de longo prazo. Embora os resultados se encaixem bem em modelos psicológicos já estabelecidos, acompanhar as mesmas pessoas por vários anos traria evidências mais concretas sobre a relação de causa e efeito.
O estudo também dependeu de questionários subjetivos. É possível que os participantes subestimem o próprio tempo de uso das redes ou não percebam corretamente o próprio prejuízo cognitivo. Incluir dados objetivos, como o tempo de tela medido por aplicativos de monitoramento, deixaria pesquisas futuras ainda mais robustas.
Os participantes eram majoritariamente universitários, o que representa uma fatia bem específica da população. Adultos mais velhos ou crianças pequenas podem processar a mídia digital de um jeito bem diferente. Ampliar a faixa etária em estudos futuros ajudaria a entender se essa "espiral de perda" é uma resposta universal ao consumo de mídia guiada por algoritmos.
Os cientistas também fazem um alerta importante: é preciso evitar tratar hábitos comuns entre as novas gerações como comportamentos inerentemente doentios ou quebrados. Embora o consumo digital extremo tenha consequências reais para a saúde mental, os pesquisadores querem evitar criar um pânico moral em torno de novas tecnologias. Segundo eles, o foco deveria estar em avaliar os recursos de design viciante das próprias plataformas.