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“Já apanhei por ter HIV”: como o estigma afeta quem vive com o vírus

Lucas Raniel, do Canal Falo Memo, conversou com Jairo Bouer e Drauzio Varella
Lucas Raniel, do Canal Falo Memo, conversou com Jairo Bouer e Drauzio Varella - Reprodução/YouTube

Jairo Bouer Publicado em 01/12/2020, às 20h17

Desde que descobriu que tem o HIV, em 2013, o influenciador digital e comunicador Lucas Raniel, do Canal Falo Memo, conta ter enfrentado muitas situações delicadas por causa do estigma e do preconceito. Para começar pelo dia em que recebeu o resultado do teste, como “uma bomba”, de um profissional de saúde que não tinha o menor preparo para aquela tarefa.

Lucas chegou até a apanhar ao contar para um parceiro sobre o vírus. “Ele tinha acabado de sair do dentista, e a gente só se beijou; quando eu contei que tinha HIV, ele surtou, ficou branco e me deu três murros”, descreveu Lucas, numa live com os médicos Jairo Bouer e Drauzio Varella, realizada nesta terça-feira (1º), Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

Como contar?

Ao longo do seu trabalho ele vem ouvido inúmeras histórias parecidas, ou de gente que perdeu o emprego ou até foi expulso de casa por ser LGBTQIA+, ou por ter o vírus da Aids. E a questão do “contar” ainda é muito delicada, e muito presente nas perguntas que Lucas recebe e responde nas suas redes sociais. Sua dica? Primeiro é preciso saber como a pessoa lida com a temática, para ir preparando o terreno: “Eu sempre venho trazendo um pouco da minha vivência para poder aliviar essa barra, que é falar para alguém que tem HIV”.

Como Jairo Bouer comentou, muitas vezes o preconceito chega a ser introjetado. “A vida da pessoa fica carregada de culpa: elas se sentem culpadas por terem se infectado”, disse. E ainda tem a culpa associada à ideia de transmitir o vírus para outra pessoa. O próprio Lucas admitiu que, após descobrir o vírus, passou muito tempo sem se relacionar sexualmente. Ele admite que fazer terapia teria sido útil para ele na época.

Avanços e lacunas

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, cerca de 920 mil brasileiros vivem com o HIV. A mortalidade vem diminuindo a cada ano, e hoje quem segue o tratamento tem uma expectativa de vida semelhante a de pessoas que não têm o vírus.

Dráuzio Varella lembra que, no início da epidemia de Aids, só o tratamento com antirretrovirais envolvia 18 comprimidos por dia. “Fora as drogas para a profilaxia de outras infecções”, recorda o médico. Hoje, com uma tomada diária a pessoa está protegida. E já existem tecnologias capazes de simplificar o esquema para doses semanais.

Com a adesão correta ao tratamento, a pessoa fica com a carga viral indetectável, o que significa proteção para ela e para os outros, já que o risco de transmitir o HIV nessa condição é praticamente zero (indetectável = intransmissível).

Covid e HIV

Mas Lucas reforça que a falta de informação e o preconceito ainda são obstáculos para o tratamento, além de questões socioeconômicas. Se o próprio profissional de saúde não acolhe direito a pessoa no momento de entregar o resultado de um teste, é difícil convencê-la de ir ao médico, de se cuidar. “Muitas pessoas reclamam para mim que não tiveram acolhimento, principalmente trans e travestis, elas são muitas vezes excluídas do sistema de saúde”, lamenta.

O influenciador digital diz que a realidade para quem vive numa cidade como São Paulo, que possui centros de referência para o HIV e outras ISTs, é muito diferente da situação enfrentada por quem mora em cidades pequenas. Muita gente, nesses locais, ficou sem conseguir adquirir os medicamentos nesta pandemia de Covid-19, por exemplo.

Teste de HIV é para todo mundo

Além de dificultar o acesso ao tratamento, o preconceito muitas vezes impede o diagnóstico. Lucas comenta que ainda ouve de muitos amigos hétero que testagem de HIV “é coisa de viado” – esse tipo de visão, segundo ele, também faz com que mais de 100 mil brasileiros tenham o HIV sem saber disso. “Toda pessoa que transa, independente se gosta de pera ou de maçã, pode se infectar”, enfatiza.

Até mesmo certas nomenclaturas, como “soropositivo”, ou “portador do HIV” podem reforçar estigmas e precisam mudar com o passar do tempo. Depois de se desculpar com Lucas pelo uso de “termos antigos”, como “sorodiscordante”, Drauzio até brincou com o tema: "Será que alguém diria, hoje, que é 'coronavírus positivo'?"

Informação muda tudo

Outro desafio destacado na live é facilitar o acesso da população às estratégias mais recentes de prevenção. A camisinha é o meio mais simples e acessível para se evitar esta e todas as outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), mas também existem recursos como a PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV) e a PEP (profilaxia pós-exposição), que trazem uma camada a mais de proteção para as pessoas (sem diminuir a importância dos preservativos).

“É camisinha, lubrificante, PrEP, uma carteira de vacinação atualizada…tudo isso faz parte da prevenção combinada”, comenta. “Lá em 2013 já existia a PEP, mas infelizmente eu não tinha acesso. Se eu soubesse disso lá atrás, quando me expus a risco, talvez eu não vivesse com HIV hoje”.