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Carnaval: levar os pets para a folia nem sempre é uma boa ideia

Você pode fantasiar seu pet, mas com moderação; nem todos se sentem à vontade com roupinha - iStock
Você pode fantasiar seu pet, mas com moderação; nem todos se sentem à vontade com roupinha - iStock

E já estamos vivendo mais um Carnaval, com direito a bloquinhos, trios elétricos e muita música pelas ruas do Brasil! E cada vez mais, tutores querem incluir seus animais de estimação na folia. Mas antes de levar cães ou gatos para as ruas, é importante lembrar: o ambiente pode ser estressante e até perigoso para eles.

Calor intenso, barulho, aglomeração e contato com substâncias inadequadas exigem atenção redobrada. Nem todo pet está preparado para esse tipo de programação. Animais idosos, filhotes, braquicefálicos (como pugs e bulldogs) ou mais sensíveis ao som devem ficar em casa. 

Para muitos pets, o Carnaval está longe de ser sinônimo de diversão. Segundo a psicóloga especializada na relação humano-animal Juliana Sato, bloquinhos e desfiles reúnem estímulos intensos e imprevisíveis: barulho, cheiros, calor, toque de desconhecidos e mudança de rotina. “Para muitos animais, isso é sobrecarga. Soma-se a isso o fato de que, na folia, o responsável costuma ficar mais distraído, e o pet perde sua principal referência de segurança”, explica. 

A veterinária Sibele Konno, diretora médica do Grupo Pet Care, explica que nesses momentos os animais podem ter reações inesperadas relacionadas ao medo/estresse/ansiedade que podem variar desde alterações fisiológicas (aumento das frequências respiratória e cardíaca) e rigidez muscular (travar de medo) até mesmo fugas inesperadas. “Além disso, movimentar-se durante o calor intenso pode favorecer quadros de hipertermia (aumento excessivo da temperatura corporal) maligna e a resposta ao estresse tende a exacerbar esses quadros”. 

Riscos de desidratação, queimaduras nas patas, pisoteamento, intoxicações e crises respiratórias estão entre as emergências mais comuns. No campo emocional, o animal pode entrar em pânico ou reagir com agressividade defensiva. “Uma experiência ruim pode aumentar a sensibilidade a barulhos e aglomerações depois”, alerta Juliana. 

Sinais de que o animal não está bem:

  • Ofegância fora do normal.
  • Tremores.
  • Cauda baixa. 
  • Orelhas para trás.  
  • Pupilas dilatadas. 
  • Tentativa de se esconder ou de ir embora indicam que o limite foi ultrapassado. 

“Quando o animal muda completamente sua forma habitual de se comunicar, o limite já foi ultrapassado”, afirma Juiana.  Se o animal demonstra medo de ruídos altos ou multidões, o ideal é poupá-lo da experiência.  

Avalie se seu pet realmente vai gostar 

Mas existem exceções. É o caso de ambientes muito controlados, pouco cheios, sem som alto, com temperatura amena, permanência curta e rota de saída fácil e apenas para animais já bem adaptados. “Mesmo assim, o responsável precisa estar disposto a ir embora no primeiro sinal de desconforto”, afirma Juliana.  

Entre as alternativas responsáveis estão passeios em horários tranquilos, enriquecimento ambiental em casa e o apoio de pet sitters quando o responsável vai passar muitas horas fora.

“Separar espaços não é abandono. É cuidado”, afirma Juliana.  

Para quem opta por levar o animal, os cuidados básicos incluem:

  • Leve água fresca e ofereça com frequência 
  • Evite horários de sol forte (prefira manhã cedo ou fim de tarde) 
  • Faça pausas em locais sombreados 
  • Observe sinais de superaquecimento, como língua muito vermelha ou azulada, respiração muito ofegante, apatia ou salivação excessiva  

Fantasia pode, desde que seja confortável  

Sim, pode fantasiar, mas com moderação. Nem todo pet se sente à vontade com roupinha. O “figurino” deve:  

  • Ser leve e respirável 
  • Não apertar o corpo ou pescoço 
  • Não limitar movimentos 
  • Não cobrir olhos, focinho ou orelhas 
  • Se o pet tentar tirar a fantasia ou parecer incomodado, retire imediatamente. Atenção, alguns pets podem tentar “comer” os adereços, usem com cautela! 

Glitter em pets? Melhor evitar  

O glitter tradicional não é indicado para animais. Além de conter microplásticos, pode causar irritações na pele, olhos e vias respiratórias e ainda há risco de ingestão ao se lamberem. Caso queira dar um toque carnavalesco, existem produtos específicos “pet safe”, formulados para animais. Mesmo assim, o uso deve ser mínimo e nunca próximo aos olhos ou boca.   

Guia curta e identificação são essenciais  

Use coleira com plaquinha de identificação atualizada e prefira guia curta para manter o controle em ambientes cheios. Peitorais costumam ser mais seguros do que coleiras de pescoço.  

Atenção a alimentos e bebidas 

Nada de compartilhar bebidas alcoólicas ou petiscos humanos. Muitos alimentos comuns no Carnaval, como os ultraprocessados, podem conter muito sódio. Além disto, lembre-se que chocolates (de qualquer tipo), algumas frutas, inclusive os sucos, como uvas, carambolas, abacates e alimentos muito condimentados com cebola, alho ou pimenta, são tóxicos para pets.  

Respeitar os limites também é amor 

Se o bloquinho estiver cheio demais ou o animal demonstrar cansaço, o melhor é voltar para casa. Curtir o Carnaval com responsabilidade é garantir que a experiência seja positiva para todos, inclusive para quem tem quatro patas. “Nem sempre os animais irão gostar das mesmas festas que a gente e respeitar os limites de cada espécie é importante não só pela convivência, mas também pela como forma de zelar pela saúde do seu pet. Se for o caso, vá curtir o bloquinho com os amigos e deixe o seu melhor amigo curtindo o conforto do sofá”, finaliza Sibele. 

Gatos, um capítulo à parte 

Com audição até quatro vezes mais sensível que a dos humanos, os felinos percebem sons em frequências que vão de 65 mil até 1 milhão de hertz (Hz). Isso significa que o som das baterias e trios elétricos, que podem ultrapassar 110 decibéis, é extremamente agressivo para eles. “Sons intensos como os dos blocos de Carnaval podem causar estresse severo nos gatos, com impactos físicos e comportamentais importantes”, alerta a doutora Karin Botteon, médica-veterinária e gerente técnica da Boehringer Ingelheim.  

Para garantir o bem-estar do seu gato durante o feriado, a recomendação é criar um ambiente tranquilo. Feche portas e janelas, reduza os ruídos externos e mantenha a rotina de alimentação e brincadeiras. “O ideal é oferecer um espaço seguro, com brinquedos e locais para se esconder. Isso ajuda a reduzir o estresse”, orienta especialista.  

Mas e outros riscos, existem? Sim, mesmo os gatos que vivem exclusivamente dentro de casa não estão completamente protegidos de todos os perigos. Pulgas e até vermes (em suas formas jovens – ovos e larvas) podem ser trazidos por roupas, calçados e objetos que entram em casa após passeios em áreas com vegetação ou aglomerações. “Esses parasitas se aproveitam de qualquer brecha. Basta um para iniciar uma infestação”, explica Karin. 

A especialista reforça que a prevenção é a melhor estratégia. “Produtos como o NexGard Combo oferecem proteção mensal contra pulgas, sarna de ouvido e vermes redondos e achatados. Mesmo os gatos que não saem de casa precisam estar protegidos”, afirma. O antiparasitário é de uso tópico e seguro para felinos a partir de 0,8 kilos de pesos e dois meses de idade. 

Por fim, além de som e parasitas, é preciso cuidado com exageros comuns nessa época. Alguns foliões bem-intencionados querem incluir os pets na brincadeira, mas é importante lembrar que certas “modas” de Carnaval fazem mal aos animais. Confira algumas dicas: 

Não pinte seu gato nem use glitter: tintas, sprays e purpurinas contêm substâncias químicas que podem causar alergias graves na pele. Como os gatos se limpam com a língua, esses produtos podem ser ingeridos, levando à intoxicação. 

Evite fantasias quentes ou desconfortáveis: antes de fantasiar seu gato, é importante verificar se ele realmente tolera esse tipo de brincadeira. Respeitar o animal e seus limites é essencial para garantir seu bem‑estar físico e emocional. Caso ele esteja habituado a roupinhas, escolha aquelasmais leves, folgadas e por pouco tempo. Em dias quentes, o ideal é não usar fantasias. O calor excessivo pode causar estresse, desidratação e até hipertermia. 

Prepare um refúgio silencioso: separe um cômodo tranquilo, com janelas e cortinas fechadas, onde o gato possa se esconder. Deixe ali a caminha, água, comida e a caixa de areia. Isso ajuda a reduzir o impacto dos ruídos e visitas. Se o gatinho for muito sensível, ofereça petiscos apropriados e promova brincadeiras para distraí‑lo e deixá‑lo mais confortável. 

Redobre a atenção com portas e janelas: durante festas ou visitas, mantenha portas e janelas fechadas ou com telas de proteção. Gatos assustados podem tentar fugir, aumentando o risco de acidentes. 

Evite viagens com o gato, se possível: felinos são territoriais e se estressam com mudanças de ambiente. Se for viajar, o ideal é deixá-lo em casa com alguém de confiança. Caso precise levá-lo, use caixa de transporte adequada e mantenha a rotina, lembrando que treinamento antecipado é essencial para reduzir o estresse destas situações. 

Garanta hidratação e conforto térmico: deixe água fresca sempre disponível e evite ambientes abafados. O calor do verão e da folia pode afetar a saúde do seu gato. 

Evite objetos pequenos e brilhantes: confetes, serpentinas e adereços carnavalescos podem ser ingeridos pelos gatos, causando intoxicação e até obstruções intestinais. Mantenha esses itens fora do alcance. 

“A saúde do pet não tira férias. Planejamento e prevenção são essenciais para que todos aproveitem o Carnaval com tranquilidade”, conclui a veterinária. 

Cármen Guaresemin

Cármen Guaresemin

Filha da PUC de SP. Há anos faz matérias sobre saúde, beleza, bem-estar e alimentação. Adora música, cinema e a natureza. Tem o blog Se Meu Pet Falasse, no qual escreve sobre animais, outra grande paixão.  @Carmen_Gua