
Redação Publicado em 21/04/2026, às 10h00
O azeite de oliva extravirgem tem sido há muito tempo um pilar da dieta mediterrânea, conhecido por favorecer a saúde do coração e do metabolismo. Agora, novas pesquisas sugerem que ele também pode ajudar a proteger o cérebro.
Cientistas descobriram que o óleo favorece o microbioma intestinal, ou seja, os micro-organismos que habitam nosso intestino, e esse mecanismo de ação favorece a função cognitiva (aprendizado e memória).
O estudo, liderado por pesquisadores da Unidade de Nutrição Humana da Universitat Rovira i Virgili (URV), do Instituto de Pesquisa em Saúde Pere Virgili (IISPV) e do CIBERobn, na Espanha, descreve uma ligação significativa entre o consumo de azeite de oliva extravirgem, as bactérias intestinais e a saúde do cérebro.
Pesquisadores do consórcio PREDIMED-Plus também participaram do trabalho, juntamente com colaboradores de instituições internacionais, incluindo Wageningen (Países Baixos) e Harvard (Estados Unidos). Os resultados foram publicados no periódico Microbiome.
“Este é o primeiro estudo prospectivo em humanos a analisar especificamente o papel do azeite de oliva na interação entre a microbiota intestinal e a função cognitiva”, explica Jiaqi Ni, principal autora do artigo e pesquisadora do Departamento de Bioquímica e Biotecnologia da URV.
A pesquisa acompanhou 656 adultos entre 55 e 75 anos que estavam com sobrepeso ou obesidade e apresentavam síndrome metabólica — um conjunto de fatores de risco que aumenta a probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares.
Ao longo de dois anos, como parte do projeto PREDIMED-Plus, os cientistas monitoraram as dietas dos participantes, incluindo o consumo de azeite de oliva virgem e refinado, juntamente com análises detalhadas de sua microbiota intestinal. Eles também acompanharam as mudanças no desempenho cognitivo ao longo do tempo.
Os resultados mostraram diferenças claras dependendo do tipo de azeite consumido. Participantes que usavam regularmente azeite de oliva extravirgem apresentaram melhorias na função cognitiva e possuíam uma microbiota intestinal mais diversa, o que é amplamente considerado um sinal de melhor saúde intestinal e metabólica.
Em contraste, aqueles que consumiam azeite de oliva refinado tendiam a apresentar uma diminuição na diversidade da microbiota ao longo do tempo.
Os pesquisadores também identificaram um grupo específico de bactérias intestinais, conhecido como Adlercreutzia, que pode estar associado a esses benefícios. Sua presença pode servir como um indicador da relação positiva entre o consumo de azeite de oliva extravirgem e a preservação da função cognitiva.
Os resultados sugerem que parte do efeito benéfico do azeite no cérebro pode vir da forma como ele remodela o microbioma intestinal.
A diferença entre o azeite extravirgem e o refinado está, em grande parte, na forma como são produzidos. O azeite extravirgem é obtido por métodos mecânicos, o que ajuda a preservar seus compostos naturais. Já o azeite refinado passa por processamento industrial para remover impurezas.
Embora esse processo de refino melhore a vida útil e a consistência do sabor, ele também reduz componentes benéficos, como antioxidantes, polifenóis, vitaminas e outras substâncias bioativas. Segundo Jiaqi Ni, “nem todos os azeites de oliva trazem benefícios para a função cognitiva”, daí a importância de escolher variedades extravirgens.
Essas descobertas se somam a evidências crescentes de que a dieta desempenha um papel fundamental tanto na saúde cardiovascular quanto na cognitiva, por meio de sua influência na microbiota intestinal.
Jordi Salas-Salvadó, que também participou do estudo, enfatiza a importância de escolher gorduras de alta qualidade:
Esta pesquisa reforça a ideia de que a qualidade da gordura que consumimos é tão importante quanto a quantidade; o azeite de oliva extravirgem não apenas protege o coração, mas também pode ajudar a preservar o cérebro durante o envelhecimento.”
Ele também observa que a identificação de um perfil microbiano específico associado a esses benefícios “abre caminho para novas estratégias de prevenção baseadas em nutrição para preservar as funções cognitivas.”
Os pesquisadores destacam as implicações mais amplas das descobertas à medida que as populações envelhecem. Em um momento em que os casos de declínio cognitivo e demência estão aumentando, os resultados reforçam a importância de melhorar a qualidade da dieta e, em particular, priorizar o azeite de oliva extravirgem em relação a outras versões refinadas como uma estratégia eficaz, simples e acessível para proteger a saúde do cérebro.