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Esqueça o Ponto G, o que vale no orgasmo feminino é o clitóris

O clitóris possui uma estrutura que se assemelha a uma orquídea, cuja glande é rica em nervos
O clitóris possui uma estrutura que se assemelha a uma orquídea, cuja glande é rica em nervos - iStock

Carolina Piscina Publicado em 06/01/2021, às 17h35

Durante muitos anos a principal preocupação das mulheres (e alguns homens) na hora do sexo foi encontrar o tal do Ponto G, um verdadeiro mistério, com localização desconhecida. Entretanto, um recente editorial médico do Jornal de Obstetrícia e Ginecologia da Austrália e Nova Zelândia, divulgado no The Guardian, enfatiza que o clitóris é o grande responsável pelo orgasmo feminino, sendo essa a sua única função, inclusive.

O clitóris não é apenas um acessório. Muito pelo contrário, ele é uma estrutura que se assemelha a uma orquídea, cuja glande é rica em nervos, enquanto o resto do órgão se estende abaixo do osso púbico e envolve a abertura vaginal, com bulbos que incham quando estimulados. Sendo assim, de acordo com o artigo, o famoso “Ponto G” que procuramos nada mais é do que a extensão do clitóris que pode ser estimulado através da parede interna da vagina.

O orgasmo feminino é ainda um mistério para muitas pessoas. Afinal, não é incomum recebermos relatos de mulheres que têm vida sexual ativa há longos anos e que nunca experienciaram um orgasmo. Culturalmente, fomos vendidos à ideia de que o orgasmo feminino acontece de forma “mágica” e que não precisa ser algo recorrente, podendo ou não acontecer durante a relação sexual.

Contatamos, então, a psicóloga clínica Ana Canosa, terapeuta sexual e educadora em sexualidade, para entender ainda melhor por que há tantas informações contraditórias sobre o prazer feminino. “A sexualidade feminina, do ponto de vista cultural, ainda é muito ‘intuitiva’. Os estudos sobre sexualidade da mulher, principalmente os que versam sobre o prazer e não sobre a patologia, são recentes, insuficientes e limitados”, explica Canosa.

A especialista ainda relata que os relatos das próprias mulheres e a observação clínica têm sido as maiores fontes de referências que temos hoje. É dessa forma que os especialistas têm estudado assuntos como o Ponto G, o squirting e também as experiências de orgasmos múltiplos com técnicas de massagem e respiração. 

“Podemos colocar toda essa deficiência na dificuldade em legitimar o prazer sexual feminino como uma questão importantíssima, de saúde e satisfação sexual. Sabemos que nem todos estão dispostos a pagar o preço do fortalecimento da autonomia feminina. Nesse sentido, a iniciativa privada, as ONGs e os veículos de comunicação têm sido mais úteis e eficientes que a própria ciência, em termos de expansão de informações e conhecimento”, conclui Canosa.

Por que quase ninguém sabe disso?

Se já existem pessoas informadas sobre tudo isso, por que passamos tantos anos com uma informação tão equivocada, ignorando a importância do clitóris? Isso porque, de acordo com o artigo, a própria medicina trata a genitália feminina apenas como um “apêndice” do sistema masculino. A urologista-cirurgiã Helen O’Connell foi a primeira pessoa a mapear completamente a anatomia e as vias neurais do clitóris. 

A motivação para o estudo de O’Connell surgiu cedo, já quando ela estava na faculdade de medicina nos anos 80 e percebeu que a atenção dada ao sistema feminino nos livros de anatomia não era a mesma do masculino. “[os livros] Continham extensivos desenhos da anatomia do pênis, enquanto o clitóris era registrado como uma nota de rodapé”, explica o artigo.

Após 20 anos que o estudo de O’Connell foi lançado, a anatomia do clitóris ainda permanece amplamente ausente nas pesquisas e no currículo médico. Para se ter ideia, apenas 11 artigos sobre a anatomia clitoriana foram publicados mundialmente desde 1947. “Vemos ainda literaturas duvidando da importância do orgasmo feminino, reforçando o argumento de que do ponto de vista evolutivo o orgasmo feminino é apenas um subproduto da seleção no orgasmo masculino”, conclui O’Connell.

Com o trabalho dedicado de pesquisadoras como O'Connell e os movimentos de empoderamento feminino, esperamos que em um futuro (não tão distante) possamos derrubar estigmas passados e conquistar maior conhecimento sobre o prazer sexual da mulher, que seja amplamente divulgado. Se isso servir de incentivo para mais estudos que desvendem o orgasmo feminino, o benefício não será só para as mulheres, mas para os homens também. Afinal, saber como dar mais prazer para a parceira é um passo importante para o sucesso de um relacionamento.