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Imposto Seletivo: a conta começa na adolescência

A adolescência é a fase da vida em que muitos hábitos começam a se consolidar - iStock
A adolescência é a fase da vida em que muitos hábitos começam a se consolidar - iStock

Nesta semana alguns conteúdos publicados na página do Estadão reacenderam o debate sobre o Imposto Seletivo e destacaram um ponto central: é na adolescência que muitos hábitos se consolidam, e é justamente por isso que o Congresso deve olhar para esse aspecto.

As apostas esportivas online são um exemplo atual. Mesmo sem substância química envolvida, elas ativam circuitos cerebrais de recompensa ligados à dependência, com liberação de dopamina e potencial de comportamento compulsivo. Em jovens, isso pode significar endividamento, ansiedade, prejuízo acadêmico e impacto na construção da vida profissional. Quando o lazer começa a comprometer o essencial, estamos falando de saúde mental.

O mesmo raciocínio vale para o álcool. Dados do Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) mostram que a cerveja é a bebida alcoólica mais consumida por adolescentes de 14 a 17 anos, citada por 40,5% deles, e se consolida como a principal porta de entrada para o consumo de álcool ainda na fase de desenvolvimento cerebral. Quanto mais precoce a exposição, maior o risco de dependência na vida adulta e maior a associação com acidentes, violência, evasão escolar e transtornos como ansiedade e depressão.

Outros produtos seguem a mesma lógica, como cigarros e bebidas açucaradas. Têm forte apelo entre jovens, são sensíveis a preço e carregam riscos conhecidos à saúde. Quanto mais cedo o início, maior a chance de consolidação do hábito e de consequências futuras.

Do ponto de vista médico, a questão é clara: o cérebro do adolescente ainda está em maturação, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle de impulsos e pela tomada de decisão. A exposição precoce a estímulos aditivos, sejam químicos ou comportamentais, pode gerar alterações duradouras nesses circuitos.

Prevenir o início é reduzir dependência, transtornos mentais, doenças crônicas e sobrecarga futura do sistema de saúde. Proteger adolescentes não é moralismo. É saúde pública baseada em evidência.

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr