
Nesta semana alguns conteúdos publicados na página do Estadão reacenderam o debate sobre o Imposto Seletivo e destacaram um ponto central: é na adolescência que muitos hábitos se consolidam, e é justamente por isso que o Congresso deve olhar para esse aspecto.
As apostas esportivas online são um exemplo atual. Mesmo sem substância química envolvida, elas ativam circuitos cerebrais de recompensa ligados à dependência, com liberação de dopamina e potencial de comportamento compulsivo. Em jovens, isso pode significar endividamento, ansiedade, prejuízo acadêmico e impacto na construção da vida profissional. Quando o lazer começa a comprometer o essencial, estamos falando de saúde mental.
O mesmo raciocínio vale para o álcool. Dados do Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) mostram que a cerveja é a bebida alcoólica mais consumida por adolescentes de 14 a 17 anos, citada por 40,5% deles, e se consolida como a principal porta de entrada para o consumo de álcool ainda na fase de desenvolvimento cerebral. Quanto mais precoce a exposição, maior o risco de dependência na vida adulta e maior a associação com acidentes, violência, evasão escolar e transtornos como ansiedade e depressão.
Outros produtos seguem a mesma lógica, como cigarros e bebidas açucaradas. Têm forte apelo entre jovens, são sensíveis a preço e carregam riscos conhecidos à saúde. Quanto mais cedo o início, maior a chance de consolidação do hábito e de consequências futuras.
Do ponto de vista médico, a questão é clara: o cérebro do adolescente ainda está em maturação, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle de impulsos e pela tomada de decisão. A exposição precoce a estímulos aditivos, sejam químicos ou comportamentais, pode gerar alterações duradouras nesses circuitos.
Prevenir o início é reduzir dependência, transtornos mentais, doenças crônicas e sobrecarga futura do sistema de saúde. Proteger adolescentes não é moralismo. É saúde pública baseada em evidência.
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr