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É preciso falar sobre câncer com os mais jovens, diz oncologista

Mudar comportamento na idade adulta é difícil, por isso é preciso estimular as crianças a terem bons hábitos - iStock
Mudar comportamento na idade adulta é difícil, por isso é preciso estimular as crianças a terem bons hábitos - iStock

Tatiana Pronin Publicado em 08/04/2022, às 11h00

Neste Dia Mundial de Combate ao Câncer (8), vale a pena lembrar que 70% das mortes pela doença no mundo ocorrem em países de baixa e média renda. Além disso, um terço das mortes por câncer se deve a cinco principais fatores ligados ao estilo de vida: sobrepeso ou obesidade; baixo consumo de frutas e vegetais; falta de atividade física; uso de álcool e de tabaco.

Evitar o câncer, portanto, significa mudar hábitos de uma população, o que pode ser muito difícil quando se trata de um comportamento arraigado. Qual seria a saída? Começar cedo, ou seja, convencer crianças e adolescentes a levar uma vida mais saudável, ainda que os benefícios dessas medidas para a prevenção do câncer apareçam somente no futuro.

"Comigo não vai acontecer"

Como diz o oncologista pediátrico Sidnei Epelman, presidente da Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer, é difícil modificar a crença do “comigo não vai acontecer”, que até os adultos têm. O primeiro passo para ajudar os jovens a se prevenirem contra o câncer, segundo ele, é os pais darem o exemplo em casa.

Pediatras também têm um papel fundamental nesse aspecto. “Quem os adolescentes ouvem? Segundo um estudo norte-americano famoso, eles ouvem o médico”, comenta Epelman, que também é diretor do departamento de oncologia pediátrica do Hospital Santa Marcelina-Itaquera, em São Paulo. Mas não é comum que esse tipo de conversa ocorra nas consultas de rotina.

Todo mundo sabe que não fumar diminui o risco de ter um câncer no futuro. Mas outros conselhos importantes para a prevenção da doença – como não exagerar no álcool, ter uma dieta saudável, fazer exercícios e até se vacinar contra hepatite B e HPV – nem sempre são reforçados para os pacientes jovens. Para o especialista, muitos profissionais de saúde que lidam com eles não dão a devida importância ao tema, em parte porque nem toda faculdade de medicina ensina oncologia de forma consistente.

Por outro lado, não basta apenas o esforço de pais, educadores e médicos. Políticas públicas são uma camada importante para reduzir casos de câncer e promover o diagnóstico precoce, vital para a cura e qualidade de vida dos pacientes.

Confira:

Câncer infantil é outra história

Cabe fazer uma distinção importante: ter hábitos saudáveis na infância e adolescência aumenta, e muito, as chances de um indivíduo manter esses comportamentos na vida adulta, e, também por isso, a evitar diversos tipos de tumores mais tarde. Mas há exceções: os cânceres infantis e juvenis, que são um universo à parte na oncologia. “Para câncer na infância e no jovem não há prevenção – é quase uma fatalidade”, diz Epelman, lembrando que esses casos representam apenas 3% de todos os cânceres.

O que é possível, isso sim, é promover campanhas para ajudar os pais a prestar atenção em determinados sinais de alerta que podem ajudar no diagnóstico precoce de certos tipos de câncer. É o caso, por exemplo, do reflexo branco nos olhos que indica o retinoblastoma, tumor que ganhou destaque recentemente depois que os jornalistas Daiana Garbin e Tiago Leifert divulgaram a doença da filha nas redes sociais. 

Outro ponto importante é diferenciar “genético” de “hereditário”. Os casos em que a criança herda dos pais uma alteração nos genes que dá origem ao câncer são a minoria, ao contrário do que muita gente imagina. E mesmo quando há predisposição genética, isso não significa que a pessoa vai, com certeza, ter um câncer.

Como o jovem pode se proteger 

Para os outros 97% dos cânceres, a prevenção envolve estilo de vida saudável e alguns cuidados extras, como visitar o médico com regularidade e se vacinar. Conheça, a seguir, os principais fatores de risco e de proteção contra o câncer:

- Tabagismo: a cada 100 pessoas que têm câncer, cerca de 30 são fumantes, e a maioria inicia o hábito antes dos 20 anos de idade. O de pulmão é o mais frequente, mas não o único – o fumo também é associado aos tumores de cavidade oral, laringe, faringe, esôfago, estômago, pâncreas, fígado, rim, bexiga, colo de útero e às leucemias. Além disso, é responsável por cerca de 30% das mortes por câncer, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). E lembre-se: a exposição à fumaça do cigarro também aumenta o risco. 

- Alimentação: verduras, legumes, grãos e frutas contêm elementos que podem ajudar na prevenção de certos tipos de câncer mais tarde. É o caso das fibras, do licopeno do tomate e do betacaroteno da cenoura e da manga, entre muitos outros. Por outro lado, carne vermelha e carne processada (como bacon, presunto e salame) devem ser consumidos com moderação, pois elevam o risco de câncer colorretal. Outros itens de risco são a aflotoxina (fungo do amendoim), que aumenta a propensão ao câncer de fígado, e compostos do arsênio que podem contaminar a água de subsolo, por isso crianças e adultos só devem consumir água potável ou mineral.

- Controle do peso: a obesidade infantil é um problema que sério no Brasil e no mundo. O Ministério da Saúde estima que 6,4 milhões de crianças têm sobrepeso e 3,1 milhões já evoluíram para a obesidade. Há evidências de que o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) e uma dieta pobre em fibras durante a infância aumentam o risco de câncer de mama, por exemplo.

- Atividade física: o sedentarismo pode aumentar o risco de pelo menos 10 tipos de câncer, além de interferir em hormônios e no sistema imunológico. A recomendação é que, desde a infância, as pessoas pratiquem atividade física regular, de intensidade moderada a forte, por 30 a 60 minutos, no mínimo 2 vezes por semana, mas de preferência 5 vezes.

- Álcool: a ingestão exagerada, que em geral começa na adolescência, tem relação com tumores de fígado, rim, mama, cabeça e pescoço. E mesmo doses baixas e frequentes podem aumentar o risco de câncer de mama, segundo estudos.

- Infecções: o HPV (papilomavírus humano) aumenta o risco de câncer de colo de útero, além de alguns tumores de boca, garganta, pênis, vulva, vagina e ânus. A hepatite B e C podem causar cirrose e alguns casos podem evoluir para câncer de fígado. E a bactéria Helycobacter pylori está associada ao câncer de estômago. Vale lembrar que existe vacina para os principais tipos de HPV e para a hepatite B. O uso de preservativo também ajuda a prevenir essas infecções, mas muito pouca gente usa de forma consistente ou no sexo oral. 

- Raios solares: a exposição aos raios ultravioleta aumenta o risco de um indivíduo ter câncer de pele. Esse efeito é cumulativo, ou seja, é preciso que a proteção comece na infância, com uso de filtro solar, chapéu e sombra entre 10 e 16 horas. É importante que esse cuidado todo não seja abandonado quando os pais não estão mais por perto. 

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