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Cuidado: a ansiedade pode arruinar seu relacionamento

A ansiedade frequentemente dá origem ao ciúme ou a um medo persistente de abandono - iStock
A ansiedade frequentemente dá origem ao ciúme ou a um medo persistente de abandono - iStock

Redação Publicado em 01/10/2025, às 10h00

A ansiedade pode prejudicar os relacionamentos, alimentando preocupações constantes, insegurança e pensamentos excessivos. Muitas vezes, leva a problemas de confiança, falhas de comunicação ou isolamento emocional, dificultando a segurança e a conexão entre ambos os parceiros. Entender como a ansiedade se manifesta nos relacionamentos é o primeiro passo para a cura e a construção de vínculos mais saudáveis.

Ela remodela sutil, mas profundamente, a forma como interpretamos e respondemos aos nossos parceiros. Em sua essência, a ansiedade distorce a avaliação cognitiva — a interpretação das palavras ou ações de um parceiro — de modo que até mesmo o comportamento neutro pode parecer ameaçador ou de rejeição.

Estado de hipervigilância

Essas percepções distorcidas ativam a hipervigilância: os indivíduos buscam sinais de desaprovação ou abandono, frequentemente interpretando o silêncio ou a ambiguidade como perigo. Esse estado intensificado alimenta a reflexão excessiva e a ruminação — ciclos repetitivos de pensamentos negativos que reproduzem cenários imaginados de rejeição ou conflito. Por exemplo, alguém pode analisar incessantemente a resposta tardia de um parceiro, preocupando-se com "O que eu disse errado?" ou "Ele está chateado comigo?".

Esse ciclo de preocupação e amplificação dos sintomas desencadeia naturalmente respostas comportamentais — busca por segurança ou afastamento, ambos visando restaurar uma sensação de segurança — mas que muitas vezes saem pela culatra, criando distanciamento ou tensão emocional. Indo mais a fundo, o estilo de apego ansioso — marcado por um medo profundo de rejeição e um desejo urgente de proximidade — ajuda a explicar essas reações.

Os indivíduos podem ficar preocupados com as necessidades e o humor do parceiro, o que pode intensificar a reflexão excessiva e a sobrecarga emocional. É importante ressaltar que nada disso reflete fraqueza pessoal. Essas reações são esforços adaptativos comuns para gerenciar a incerteza relacional, enraizados na tentativa do nosso sistema emocional de proteger a conexão. Compreender esse ciclo com compaixão é o primeiro passo para quebrá-lo.

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Sinais de que a ansiedade pode estar prejudicando seu relacionamento

Dificuldades de comunicação

Mal-entendidos frequentes ou a busca constante por segurança podem corroer silenciosamente a conexão. Por exemplo, uma pessoa pensa: "Sinto que estou constantemente querendo me aprofundar mais com meu parceiro para revelar a verdade – ele não gosta de mim. Ele sempre me tranquiliza, mas lá no fundo tenho um pressentimento de que as coisas não vão durar e não consigo me livrar desse sentimento". Isso ilustra como pensamentos ansiosos podem transformar interações simples em ameaças emocionais. Quando a segurança se torna uma solução temporária – "Está tudo bem" – apenas para te levar de volta ao "Tem certeza?" – a comunicação parece insatisfatória e exaustiva.

Problemas de confiança e insegurança

A ansiedade frequentemente dá origem ao ciúme ou a um medo persistente de abandono. Uma pessoa pode falar: "Meu medo de abandono está consumindo minha vida e estou tentando não deixar que isso a afete também, mas estou realmente com dificuldades...". Quando medos internos são projetados para fora, cada atraso, deslize ou mudança parece uma crise. Essa corrente de insegurança mina a confiança — mesmo em parceiros que o apoiam.

Distância emocional

Às vezes, a ansiedade leva ao fechamento completo — à sensação de sobrecarga e ao afastamento. É um padrão frequente: a ansiedade desencadeia o fechamento, a comunicação cessa e o distanciamento emocional aumenta. Outras vezes, a busca por segurança se transforma em afastamento para "proteger" o parceiro — ou a si mesmo — da sobrecarga emocional.

Padrões Comuns em Relacionamentos Ansiosos

Apego e excesso de dependência

Terapeutas ressaltam que o apego ansioso frequentemente se manifesta como busca constante por segurança e medo de abandono — sintomas enraizados na dinâmica inicial do apego. Esse apego é uma estratégia defensiva, uma tentativa de manter a proximidade quando a incerteza emocional parece avassaladora. Embora bem-intencionada, pode aumentar a tensão relacional, amplificando a pressão e diminuindo o senso de autonomia de ambos os parceiros.

Controle e conflito

Para aqueles que lidam com ansiedade relacional, tentar controlar a incerteza pode parecer uma atitude protetora. No entanto, terapeutas alertam que transformar a segurança emocional em microgestão frequentemente desencadeia conflitos. Tão simples quanto buscar segurança, mas exigir previsibilidade, os padrões de controle, paradoxalmente, aprofundam a insegurança — tanto porque decorrem do medo quanto porque prejudicam a autonomia emocional de que ambos os parceiros precisam para respirar e se conectar.

Ciúme e comparação

O ciúme enraizado no apego ansioso não tem a ver com traição — tem a ver com medo da perda. Pesquisas sobre apego mostram que indivíduos com estilos ansiosos-preocupados têm maior probabilidade de perceber rivais como ameaças, mesmo quando não existem. Essa vontade de comparar — seja com ex-parceiros, personas nas redes sociais ou mesmo ideais internos — alimenta a insegurança e destrói a confiança. Esse viés de comparação, uma tendência cognitiva de medir a autoestima em relação aos outros, perpetua o sofrimento e o distanciamento.

Como a ansiedade afeta os parceiros

Morar com alguém que sofre de ansiedade pode parecer um esforço constante para manter o equilíbrio emocional. Um parceiro compartilhou sua experiência em um fórum, admitindo: “Sinceramente, me sinto exausto, os últimos anos têm sido terríveis... Às vezes, sinto que o comportamento dela é tóxico... Sinto que não sei mais como lidar com a situação". Essa admissão franca capta o impacto emocional que a ansiedade pode causar — ​​não por culpa, mas pelo peso da preocupação persistente.

Efeito emocional

Parceiros frequentemente descrevem um estado de constante "pisar em ovos". A imprevisibilidade da ansiedade — suas oscilações de humor, necessidades de segurança ou sobrecarga emocional — pode deixá-los fatigados ou reconsiderando cada interação.  “Estou exausta... e meus amigos comentavam que eu não tinha energia para fazer as coisas... dia após dia, sem paz, A MENOS que eu me afastasse por alguns dias.”

Mudanças na dinâmica (cuidador vs. parceiro)

Quando a ansiedade domina o cenário emocional, o papel de cuidador pode, involuntariamente, substituir a parceria igualitária. Uma pessoa descreveu a tensão:  “Namorar alguém com problemas de ansiedade... parece que a ansiedade é uma terceira pessoa no relacionamento... isso constantemente semeia dúvidas e confusão”. Isso ilustra como os parceiros podem se sentir puxados para o cuidado emocional — apoiando-os, mas sobrecarregados de forma desigual.

Ressentimento e desconexão

Com o tempo, a carga emocional pode gerar ressentimento — não em relação à pessoa, mas em relação à situação. A combinação de exaustão e mudanças de papéis pode criar distanciamento, deixando a conexão desgastada.

Lidando com a ansiedade em relacionamentos

A ansiedade em relacionamentos frequentemente decorre de sistemas emocionais programados para buscar segurança. Abaixo, algumas estratégias baseadas em psicologia que podem ajudar os indivíduos a alcançar maior resiliência e dinâmicas de relacionamento mais saudáveis.

Reconhecendo pensamentos motivados pela ansiedade

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) enfatiza a importância de perceer e reformular pensamentos distorcidos — como catastrofismo ou generalização excessiva — em contextos de relacionamento. A TCC incentiva a substituição de "E se ele me deixar?" por pensamentos mais comedidos, como "Estou me sentindo ansiosa, mas o comportamento dele sugere que se importa". Complementando isso, a Terapia Metacognitiva (TCM) ajuda os indivíduos a observar seus próprios padrões de preocupação — sem se prenderem a eles — para reduzir o poder da ruminação.

Habilidades de comunicação saudáveis

A ansiedade prospera na ambiguidade. A orientação elaborada por terapeutas enfatiza o uso de "declarações na primeira pessoa" — por exemplo, "Eu me sinto preocupado quando..." — para expressar emoções sem culpar. A comunicação aberta, baseada em empatia e clareza, promove um ambiente relacional mais seguro. Especialistas destacam consistentemente como uma expressão clara e não acusatória estabelece as bases para a conexão emocional.

Estratégias individuais de enfrentamento

Autocompaixão e atenção plena são fundamentais. Owen O’Kane é psicoterapeuta, tem mais de 25 anos de experiência em saúde mental, dirige um consultório particular em Londres e é autor de vários livros, incluindo Addicted to Anxiety (Viciado em Ansiedade, em traduçãoi livre, não lançado no Brasil), recomenda reconhecer a ansiedade sem lutar contra ela — respondendo com técnicas de autocontrole, como respiração controlada, exercícios de estabilização e diálogo interno compassivo.

Escrever um diário também oferece uma maneira simples, porém eficaz, de descarregar a ruminação ansiosa, ajudando as pessoas a refletir sobre padrões de pensamento com clareza e a reduzir a preocupação repetitiva.

Quando o apoio profissional ajuda

A orientação externa é valiosa. Os terapeutas podem personalizar estratégias para indivíduos ou casais — seja para estabelecer limites, explorar emoções mais aprofundadamente ou usar ferramentas de comunicação. A terapia pode ajudar a estabelecer e compreender as raízes da ansiedade, enquanto a terapia de casal ajuda a fortalecer a conexão ao discutir ansiedades que parecem avassaladoras.

Relacionamentos podem sobreviver à ansiedade?

Sim, com certeza. A ansiedade não precisa significar o fim da conexão; na verdade, ela pode se tornar um trampolim para o crescimento. Pesquisas ressaltam que a resiliência e o apoio social são poderosos amortecedores contra o impacto da ansiedade nos relacionamentos, ajudando os casais a se adaptarem e a se manterem conectados quando surgem desafios.

Da mesma forma, o apoio social — especialmente de um parceiro próximo — está associado à melhoria do bem-estar emocional e à qualidade do relacionamento. Isso ressalta como a presença emocional compartilhada e a compreensão empática podem reforçar os laços em momentos de ansiedade.

O caminho a seguir muitas vezes reside em cultivar a empatia, estabelecer limites saudáveis ​​e aprofundar a compreensão mútua — não eliminando a ansiedade, mas navegando por ela juntos. Como afirma Allison Raskin, comediante, autora, youtuber e defensora da saúde mental norte-americana: reconhecer que a saúde mental não define você — ou seus relacionamentos — é fundamental para seguir em frente com compaixão e clareza. Em última análise, lutar contra a ansiedade não significa que você não seja digno de amor. Com empatia, comunicação e resiliência, os relacionamentos podem não apenas sobreviver, mas prosperar.

Fonte: SimplyPsychology