Doutor Jairo
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Adolescente brasileiro não lê bem e interpretar mal o mundo digital

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Duas pesquisas divulgadas nas últimas semanas levantam algumas dúvidas incômodas sobre a formação dos jovens no Brasil. Será que estamos preparando bem essa geração para lidar com o mundo em que vivem?

O primeiro alerta vem do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2025. No Brasil, apenas 49% dos estudantes de 15 anos atingiram o nível mínimo de proficiência em leitura, aquele em que o jovem consegue, entre outras habilidades, identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada e localizar informações a partir de critérios explícitos. Na média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), esse percentual chegou a 69%.

Ou seja, mais da metade dos nossos adolescentes ainda não alcança o nível básico de leitura avaliado pelo exame. É um resultado que deveria provocar uma discussão séria sobre educação. Saber ler não é apenas decodificar palavras. É compreender uma ideia, relacionar informações, perceber contradições, reconhecer diferentes pontos de vista e conseguir tirar conclusões a partir do que está escrito.

Sem isso, fica mais difícil aprender matemática, ciências, história ou qualquer outra disciplina. E também fica mais complicado participar de uma sociedade em que somos diariamente convidados a acreditar, compartilhar, comprar, votar, apostar e tomar decisões a partir de informações que chegam até nós em enorme velocidade.

Se o primeiro desafio é melhorar a capacidade de leitura dos adolescentes, o passo seguinte é ensinar a “ler” de forma mais clara o mundo digital e seus riscos. Uma  pesquisa realizada pela Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o Equidade.info mostrou que mais de um quarto dos alunos do ensino médio já fez apostas em bets, embora menores de 18 anos não possam utilizar essas plataformas. O levantamento ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país. Entre os jovens de 17 anos, 32,3% disseram já ter apostado. E o dado chama ainda mais atenção quando se observa que a idade média de início da prática foi de apenas 11 anos.

A lei é clara e a utilização de plataformas de apostas por crianças e adolescentes é proibida. Mas a existência da proibição não resolve, sozinha, o problema. Um  adolescente pode saber que uma bet é proibida para menores e, ainda assim, encontrar uma maneira de entrar em uma plataforma, além de poder receber publicidade ou conteúdo relacionado a apostas nas redes sociais e ver influenciadores falando sobre ganhos. Ele pode acreditar que está diante de uma oportunidade de ganhar dinheiro e não compreender adequadamente conceitos como probabilidade, risco, vantagem da casa e comportamento compulsivo.

É aí que entra a educação digital se torna importante. Durante muito tempo, quando falávamos em educação, imaginávamos principalmente conteúdos como português, matemática, história e ciências. Eles continuam sendo fundamentais. O resultado do PISA mostra, aliás, que não podemos abrir mão deles. Mas o mundo em que esse adolescente vai viver exige outras competências.

É preciso ensinar como funciona um algoritmo, como uma plataforma ganha dinheiro e  como identificar publicidade disfarçada. Ele também deve entender como avaliar uma informação antes de compartilhá-la e como reconhecer manipulação, golpe e desinformação. Deve saber como proteger dados pessoais, como lidar com a pressão das redes sociais e como utilizar inteligência artificial sem simplesmente terceirizar para uma máquina a tarefa de pensar.

O próprio PISA 2025 começa a olhar para esse novo desafio. A avaliação passou a medir também a capacidade dos estudantes de resolver problemas utilizando ferramentas computacionais. O Brasil ficou abaixo da média da OCDE nesse quesito. Mais interessante ainda: 48% dos estudantes brasileiros disseram usar chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para ajudá-los a aprender, quase um terço usa IA para resumir textos que deveria ler e 27% para produzir rascunhos de trabalhos escritos. Isso muda completamente a conversa sobre educação.

Não adianta simplesmente dizer ao adolescente para deixar o celular de lado e voltar ao livro. O livro continua sendo importante, mas o celular, a inteligência artificial, as redes sociais, os vídeos curtos, os jogos e as plataformas digitais já fazem parte do ambiente em que esse jovem aprende, se informa, se relaciona e toma decisões e a escola precisa entrar nesse território. Não apenas para ensinar a usar tecnologia, mas para ensinar a pensar diante da tecnologia.

Um jovem que interpreta bem um texto, mas que não consegue perceber que um conteúdo foi produzido para manipulá-lo, continua vulnerável. Um jovem que sabe fazer uma conta de matemática, mas não entende probabilidade, juros, risco e a lógica econômica de uma aposta também pode tomar decisões ruins. Um jovem que sabe pesquisar no Google, mas não consegue avaliar a credibilidade de uma fonte pode encontrar milhares de respostas e continuar sem saber qual delas merece confiança.

Talvez o grande desafio da educação contemporânea seja justamente esse: formar adolescentes que não sejam apenas bons alunos, mas bons leitores do mundo. Leitores capazes de compreender um texto, interpretar um gráfico, questionar uma informação, reconhecer uma tentativa de manipulação, conversar com uma inteligência artificial sem acreditar cegamente nela e perceber que uma promessa de dinheiro fácil quase nunca vem sem risco.

Assim, formar um adolescente para o século 21 não é apenas focar em conteúdos, e sim, prepará-lo para as escolhas que ele vai fazer quando ninguém estiver aplicando uma prova.

*Jairo Bouer escreve semanalmente neste site

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr