Doutor Jairo
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Estamos vivendo uma recessão de prazer?

Passar o dia conectado gera cansaço, o que também interfere no desejo - iStock
Passar o dia conectado gera cansaço, o que também interfere no desejo - iStock

Jovens iniciam a vida sexual mais tarde, bebem menos, comem menos, enquanto cresce a preocupação com corpo, saúde e autocontrole. Será que ao cuidar melhor de nós mesmos estamos abrindo mão do prazer de viver?

A provocação apareceu recentemente em uma conversa da qual participei no Papo de Segunda, da GNT, a partir de uma reflexão da psicanalista e sexóloga belga Esther Perel. Ela tem chamado a atenção para uma possível mudança na relação das pessoas com o prazer. De alguma maneira, talvez estejamos nos permitindo menos viver experiências que envolvam desejo, espontaneidade e até algum grau de excesso.

A hipótese é interessante justamente porque contém uma contradição. Muitas das mudanças que observamos são positivas do ponto de vista da saúde e da qualidade de vida. Fumar menos é bom. Beber menos, especialmente entre jovens, pode ser bom. Ter uma alimentação mais equilibrada e cuidar melhor do corpo também são atitudes importantes.

Mas será que corremos o risco de que o autocuidado possa se transformar em excesso de controle e aprisionar nossos desejos?

Jovens fazem menos sexo

No Brasil, os adolescentes estão iniciando a vida sexual mais tarde. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do IBGE, 30,4% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram já ter tido relação sexual. Em 2019, eram 35,4%; em 2015, 37,5%.

Isso não significa necessariamente que os jovens tenham menos desejo. Significa que o comportamento sexual está mudando. A mesma pesquisa mostra uma redução importante na experimentação de álcool. Entre adolescentes de 13 a 17 anos, a proporção dos que já haviam experimentado bebida alcoólica caiu de 63,3% em 2019 para 53,6% em 2024.

Um estudo americano publicado no JAMA Network Open encontrou tendência semelhante entre jovens adultos. Entre homens de 18 a 24 anos, por exemplo, a proporção que não havia tido atividade sexual no ano anterior passou de 18,9% para 30,9% entre 2000 e 2018. Entre mulheres da mesma idade, passou de 15,1% para 19,1%.

Esses dados são dos Estados Unidos e vão somente até 2018. Não podemos simplesmente transportá-los para a realidade brasileira atual. Mas eles mostram que a discussão sobre mudanças na atividade sexual dos jovens não é recente nem exclusivamente brasileira.

Cuidar mais ou se controlar mais?

Não dá para simplesmente concluir que “as pessoas estão vivendo menos”. Pegue o cigarro como exemplo. O percentual de fumantes adultos nas capitais brasileiras e no Distrito Federal caiu de 15,7% em 2006 para 11,5% em 2024. Na década de 1980, esse índice se aproximava dos 30%. É uma enorme conquista de saúde pública. Não faz sentido olhar para isso e lamentar que as pessoas estejam fumando menos.

O mesmo vale para o consumo excessivo de álcool ou para hábitos alimentares que aumentam o risco de doenças. Parte do que chamamos de autocontrole é, na verdade, conhecimento acumulado sobre saúde.

O problema aparece quando começamos a transformar toda experiência de prazer em alguma coisa que precisa ser monitorada, calculada ou justificada.

Hoje somos convidados o tempo todo a controlar nosso peso, nosso sono, nossa alimentação, nosso número de passos, nossa aparência e nosso desempenho. O corpo está permanentemente exposto à comparação nas redes sociais. Nesse ambiente, talvez seja mais difícil desfrutar de alguma coisa.

Falta tempo para desejar

Existe ainda um ingrediente importante nessa história: o cansaço. Vivemos conectados, recebemos mensagens o tempo todo, trabalhamos sob pressão e somos expostos a uma quantidade enorme de informação. Muitas pessoas terminam o dia mentalmente exaustas.

Desejo exige disponibilidade. E isso vale especialmente para o desejo sexual. Sexo não acontece apenas no corpo. Ele depende de atenção, fantasia, curiosidade, intimidade e algum espaço mental.

Depois de um dia inteiro de trabalho, trânsito, preocupações, tarefas domésticas, filhos e celular, pode ser muito mais fácil assistir a três episódios de uma série do que iniciar uma relação sexual.

Será que o desejo dos jovens mudou de lugar?

É possível que parte do desejo dos jovens não tenha desaparecido, mas tenha mudado de lugar. Redes sociais, aplicativos, pornografia, jogos, vídeos e outras experiências digitais oferecem estímulos constantes e imediatos. Existe uma quantidade enorme de excitação disponível na tela, sem que seja necessário enfrentar algumas das dificuldades dos encontros presenciais: aproximação, rejeição, vergonha, insegurança, frustração.

Ainda não sabemos se o ambiente digital está simplesmente substituindo experiências presenciais ou se está produzindo uma transformação mais profunda na maneira como as novas gerações desejam e se relacionam.

Precisamos voltar aos excessos?

Essa discussão não é um convite para fumar, beber demais, comer compulsivamente ou abandonar cuidados importantes com a saúde. Também não acho que as gerações anteriores tenham necessariamente descoberto uma fórmula melhor para viver. Muitos dos comportamentos das épocas passadas deixaram como herança doenças, dependência, acidentes, gravidez não planejada, infecções e outros problemas.

Mas existe uma diferença entre evitar comportamentos que fazem mal e ter medo de viver. Para algumas gerações, experimentar fazia parte do processo de crescer. Havia espaço para errar, passar vergonha, se apaixonar pela pessoa que não merecia, ter uma experiência sexual ruim, exagerar uma vez e depois lidar com as consequências.

Não precisamos romantizar essas experiências. Mas talvez também não devêssemos imaginar que uma vida completamente protegida de frustrações, riscos e erros seja necessariamente melhor. Aprender a lidar com desejo, rejeição, vergonha e arrependimento também faz parte do desenvolvimento.

Existe mesmo uma recessão do prazer?

Talvez não estejamos vivendo exatamente uma recessão do prazer e, sim, uma reorganização dos nossos desejos. Algumas formas de prazer perderam espaço e isso pode ser ótimo para a saúde. Outras podem estar surgindo. E algumas experiências talvez estejam simplesmente migrando do mundo físico para o digital.

Cuidar do corpo não precisa significar viver obcecado por ele. Prevenir doenças não deveria transformar todo prazer em culpa. Ter responsabilidade sexual não significa transformar o sexo em uma lista de riscos.

Prazer também pode fazer parte de uma vida saudável. Encontrar amigos, comer algo gostoso, viajar, dançar, se apaixonar, fazer sexo, rir, experimentar coisas novas ou simplesmente aproveitar um momento sem transformá-lo em uma meta de desempenho também são formas de bem-estar.

Talvez o grande desafio da nossa época não seja recuperar excessos anacrônicos do passado, mas recuperar a capacidade de sentir prazer sem precisar justificar isso o tempo todo.

*Jairo Bouer escreve semanalmente neste site

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr