
Não são só os humanos que sofrem com o calor extremo, os pets também podem ter sérios problemas de saúde. E com a previsão de um verão de temperaturas elevadas no Brasil, os cuidados com os animais de estimação devem ser intensificados. Diferente do desconforto passageiro sentido pela maioria dos humanos, o calor intenso pode representar um risco real para cães e gatos, favorecendo quadros de hipertermia (golpe de calor), desidratação e descompensação de doenças cardíacas, respiratórias e metabólicas.
“Os animais tendem a sofrer um pouco mais em dias mais quentes, por isso é importante prestar atenção ao comportamento deles e tomar medidas que refresquem e ajudem o bichinho a passar por esses períodos de forma saudável”, comenta Juliana Valença, veterinária do Nouvet, centro veterinário de nível hospitalar em São Paulo. “Principalmente durante as férias de verão, em que tutores levam seus amigos de quatro patas para as viagens, essa vigilância faz uma grande diferença”, complementa.
De acordo com a WeVets, grupo de saúde veterinária, os atendimentos de urgência costumam aumentar significativamente durante o verão, especialmente por quadros relacionados ao superaquecimento do organismo.
“Diferente dos humanos, cães e gatos não suam para regular a temperatura corporal que, em cães e gatos varia, em média, entre 38°C e 39°C. Quando a temperatura externa se aproxima ou ultrapassa esses valores, os mecanismos naturais de resfriamento deixam de funcionar adequadamente, e o organismo do pet não consegue mais dissipar o calor, favorecendo a instalação da hipertermia, também conhecida como golpe de calor”, explica a médica-veterinária e líder de unidade na WeVets, Letícia Bevilacqua.
Essa limitação fisiológica faz com que a hipertermia possa se instalar de forma rápida e silenciosa. Em poucos minutos, o aumento excessivo da temperatura corporal pode levar a alterações neurológicas, falência de órgãos e quadros graves que exigem intervenção imediata. Por isso, se trata de uma emergência tempo-dependente, na qual cada minuto faz diferença para o prognóstico.
O risco não se restringe a animais com doenças pré-existentes. Filhotes e raças braquicefálicas (cães buldogues, pugs e shih-tzus e gatos persas) e até aqueles aparentemente saudáveis podem evoluir rapidamente para exaustão térmica, especialmente quando expostos a gatilhos comuns do dia a dia, como passeios em horários inadequados, ambientes pouco ventilados ou situações de estresse.
O estresse, aliás, é um fator frequentemente subestimado, enfatiza Letícia. Situações de ansiedade, contenção física ou agitação emocional aumentam a produção de calor pelo organismo e podem acelerar a instalação do quadro, mesmo sem exercício intenso.
Juliana frisa que tutores devem lembrar que não são apenas os cães que precisam de atenção no calor, os gatos também requerem cuidados especiais. Mesmo que fiquem dentro de casa e sejam mais adaptados ao calor, uma opção é oferecer uma toalha molhada e observar se o felino se deita em cima dela naturalmente, sem forçá-lo.
“É importante manter os gatinhos em um ambiente confortável, ventilado, com sombra e com água à disposição. Seja em formato líquido ou em petiscos congelados, a água precisa ser ofertada de forma recorrente, pois gatos costumam ingerir pouco líquido e podem precisar de incentivos dos tutores para se manterem hidratados”, acrescenta.
A médica-veterinária supervisora de auditoria Andressa Alves, lista os principais sinais de que o pet está sofrendo com o calor:
Outro ponto de atenção no verão envolve procedimentos de rotina. Durante períodos de calor, atividades como banho e tosa também exigem cuidado redobrado. Andressa explica que banhos podem ajudar no alívio térmico, desde que feitos corretamente. “O banho refresca, remove suor, sujeira, oleosidade e alérgenos, aumentando o conforto e o bem-estar. No entanto, o excesso ou o uso de produtos inadequados pode remover a proteção natural da pele, causando ressecamento, coceira, descamação e dermatites”, alerta.
Letícia acrescenta que ambientes sem climatização adequada, uso prolongado de secadores e o próprio estresse da manipulação podem aumentar significativamente o risco de hipertermia, principalmente em pets mais sensíveis.
-Manter água fresca e limpa disponível o tempo todo, estimulando a hidratação ao longo do dia. No caso dos gatos, ter fontes espalhadas pelos ambientes é uma forma de encorajar o consumo;
-Evitar passeios entre 10 e 17 horas, quando o asfalto pode atingir temperaturas capazes de causar queimaduras nos coxins, as almofadinhas das patas. Um ponto importante é sempre testar a temperatura do piso antes de expor o pet à área externa, seja areia ou cimento, pois pode ser incômodo e há o risco de queimaduras sérias. Lugares arborizados e com sombra são preferíveis para o passeio e para os momentos de descanso.
-Redobrar a atenção com animais de raças braquicefálicas, que têm maior dificuldade respiratória;
-Jamais deixar pets em carros fechados, mesmo por curtos períodos;
-Ajustar rotina, alimentação e atividades físicas conforme a orientação do médico-veterinário.
-Pets também devem usar protetor solar específico para eles, principalmente nas regiões com menor cobertura de pelos, como no focinho, orelhas e barriga.
-Apostar em atividades de enriquecimento ambiental utilizando gelo também é uma alternativa divertida e refrescante. Isso pode ser feito com brinquedos recheáveis congelados com sachês, caldo do cozimento de carne ou legumes ou frutas congeladas. Além disso, cubos de gelo e alimentos úmidos são bem-vindos também.
Atenção maior com os mais velhos
Andressa diz que é preciso atenção especial para cães e gatos idosos no verão, pois eles têm mais dificuldade para regular a temperatura corporal. É importante observar atentamente qualquer alteração, como respiração muito ofegante, língua arroxeada, apatia ou vômitos.
Já Letícia lembra que, em muitos casos, o tutor percebe uma melhora inicial após o resfriamento do animal, mas isso não significa que o risco passou. Algumas complicações podem surgir horas ou até dias depois, como alterações renais, hepáticas e de coagulação, o que faz com que diversos quadros exijam monitorização hospitalar.
Nos casos mais graves, o tratamento pode demandar internação, suporte intensivo e acompanhamento contínuo em UTI veterinária. A prevenção, aliada à informação e ao acompanhamento contínuo, é a principal estratégia para atravessar o verão com mais segurança e proteger a saúde dos nossos amigos de quatro patas.
Cármen Guaresemin
Filha da PUC de SP. Há anos faz matérias sobre saúde, beleza, bem-estar e alimentação. Adora música, cinema e a natureza. Tem o blog Se Meu Pet Falasse, no qual escreve sobre animais, outra grande paixão. @Carmen_Gua