Doutor Jairo
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Os filhos estão nas telas. E os pais?

Filhos percebem quando a atenção do adulto está em outro lugar - iStock
Filhos percebem quando a atenção do adulto está em outro lugar - iStock

Um novo estudo sugere que o problema da hiperconectividade pode não estar apenas no uso que crianças e adolescentes fazem das tecnologias, mas também na forma como elas afetam a disponibilidade emocional dos adultos.

Há alguns anos, uma das principais preocupações de pais, educadores e especialistas em saúde mental é entender como o excesso de telas influencia o desenvolvimento emocional das novas gerações.

A lista de preocupações é extensa. Diversos estudos associam o uso intenso de dispositivos digitais e redes sociais a dificuldades de atenção e concentração, alterações do sono, maior impulsividade, menor tolerância à frustração e problemas relacionados à saúde mental. Em meio a tantas discussões, a pergunta costuma ser sempre a mesma: o que as telas estão fazendo com nossos filhos?

Talvez esteja na hora de acrescentar outra questão ao debate: o que as telas estão fazendo conosco, os adultos?

Um estudo publicado recentemente na revista científica Frontiers in Psychology lança luz sobre esse outro lado da relação. Os pesquisadores analisaram cerca de 600 adolescentes entre 12 e 17 anos e observaram uma associação entre a percepção de que seus pais frequentemente desviam a atenção para o celular durante interações familiares e maiores índices de sofrimento emocional dos filhos.

O fenômeno recebeu um nome em inglês: parental phubbing. A expressão combina as palavras phone (telefone) e snubbing (ignorar alguém) e descreve uma situação cada vez mais comum no cotidiano. É quando uma conversa é interrompida por uma notificação, quando uma refeição é compartilhada com os olhos voltados para a tela ou quando um momento de convivência acaba competindo com mensagens, vídeos e redes sociais.

Os autores não afirmam que o uso do celular pelos pais provoque diretamente insegurança emocional nos filhos. Trata-se de um estudo observacional, capaz de identificar associações, mas não relações de causa e efeito. Ainda assim, os resultados dialogam com um conjunto robusto de evidências produzidas ao longo de décadas sobre a importância dos vínculos afetivos para o desenvolvimento emocional.

Crianças e adolescentes precisam sentir que as pessoas que cuidam deles estão disponíveis, interessadas e acessíveis. Não apenas fisicamente, mas emocionalmente presentes.

Vivemos uma época em que a conectividade se tornou praticamente permanente. O trabalho invade os horários de descanso. As notificações não respeitam finais de semana. As redes sociais disputam cada minuto livre. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreveu esse cenário como a “sociedade do cansaço”, marcada por excesso de demandas, desempenho contínuo e dificuldade de desconexão.

Não é difícil compreender por que tantos pais chegam ao final do dia exaustos, tendo menos tempo livre para compartilhar com filhos, e pior ainda, acabam recorrendo ao celular quase automaticamente, tornando esses momentos de convívio com qualidade emocional ainda mais escassos.

O problema é que os filhos sentem isso. Eles percebem quando precisam repetir uma pergunta porque a atenção do adulto está em outro lugar. Percebem quando uma conversa é interrompida por uma mensagem. Percebem quando disputam espaço com a tela por alguns segundos de atenção.

Isoladamente, nenhum desses episódios parece particularmente preocupante. Mas a repetição diária dessas pequenas interrupções pode acabar transmitindo mensagens sutis sobre disponibilidade, interesse e prioridade.

Durante muito tempo, o debate sobre tecnologia e infância concentrou-se em estabelecer limites para o uso de telas por crianças e adolescentes. Essa discussão continua importante. Mas ela parece insuficiente quando ignora o papel dos adultos como modelos de comportamento.

Os filhos observam muito mais do que escutam. Aprendem sobre relacionamentos, atenção e convivência observando como os adultos se relacionam entre si e com os dispositivos que carregam no bolso.

A questão, portanto, não é demonizar a tecnologia nem transformar pais e mães em culpados por um problema complexo. Afinal, eles também são vítimas de um ambiente que exige disponibilidade constante e conexão permanente.

Talvez o desafio seja criar espaços em que a tecnologia deixe de ser protagonista por alguns instantes. Jogar bola juntos, ler uma estória, dar uma volta no parque, planejar viagens em conjunto, tudo isso com o celular esquecido em algum lugar distante, nem que seja por uma fração de minutos.

Em um mundo cada vez mais conectado, a habilidade que pode se tornar mais valiosa não é a de estar online o tempo todo. É a capacidade de oferecer algo que nenhuma tela consegue substituir: atenção genuína, um artigo cada vez mais raro nos dias atuais.

Para uma criança ou adolescente, poucas experiências são tão importantes quanto sentir que alguém realmente está ali.

Jairo Bouer escreve semanalmente neste site.

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr