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Metabolismo lento é real ou só "desculpa"? Saiba o que é verdade ou mito

Metabolismo é destino ou adaptação? A resposta está na fisiologia - iStock
Metabolismo é destino ou adaptação? A resposta está na fisiologia - iStock
Fausto Fagioli Fonseca

por Fausto Fagioli Fonseca

faustoffonseca@gmail.com

Publicado em 26/02/2026, às 09h00

“Eu tenho metabolismo lento.” Poucas frases são tão repetidas quando o assunto é ganho de peso. Ao mesmo tempo, quando alguém mantém baixo percentual de gordura, surge o comentário oposto: “essa pessoa tem metabolismo rápido, é sorte”.

A ciência, porém, mostra que essa divisão simplista entre metabolismo lento e rápido não explica a maioria dos casos. O funcionamento metabólico é mais complexo — e menos confortável — do que parece.

O que é metabolismo, afinal?

Metabolismo é o conjunto de reações químicas que mantêm o organismo vivo. Quando falamos de peso corporal, estamos nos referindo principalmente ao gasto energético total diário. Esse gasto não é um número mágico fixo, mas a soma de diferentes componentes fisiológicos que variam conforme o tamanho corporal, a composição de massa magra, o nível de atividade e o contexto hormonal.

O que realmente determina o metabolismo

A maior parte do gasto energético diário vem da taxa metabólica de repouso, que é a energia utilizada para manter funções vitais como respiração, circulação e atividade cerebral. Esse valor é fortemente influenciado pela quantidade de massa magra, especialmente músculos e órgãos metabolicamente ativos.

Além disso, o gasto total também depende do movimento ao longo do dia e do efeito térmico dos alimentos. Em termos científicos, os principais determinantes do metabolismo incluem:

  • Quantidade de massa muscular
  • Tamanho corporal total
  • Nível de atividade física estruturada
  • Movimento espontâneo no dia a dia
  • Idade e estado hormonal

Quando se comapra o metabolismo das pessoas levando em conta fatores como quantidade de músculo, tamanho do corpo, idade e nível de atividade física, a maioria apresenta um gasto energético compatível com essas características. Em outras palavras, o corpo costuma gastar o que é esperado para o tipo físico que a pessoa tem.

Diferenças muito grandes, realmente fora do padrão, são raras e geralmente estão associadas a alguma condição médica específica, como alterações hormonais.

Metabolismo lento é comum?

Estudos que medem o gasto energético por calorimetria indireta mostram que a variação individual existe, mas não costuma ser tão dramática quanto se imagina. Na prática, o metabolismo “dramaticamente lento” sem doença associada é incomum.

O que frequentemente acontece é que o gasto energético reflete o estilo de vida acumulado ao longo do tempo. Baixa massa muscular, sedentarismo crônico e redução do movimento diário tendem a diminuir o gasto total. Isso não é um defeito biológico isolado, mas uma adaptação fisiológica ao padrão de comportamento.

Distúrbios hormonais, especialmente da tireoide, podem alterar o metabolismo. No entanto, esses quadros costumam vir acompanhados de sintomas claros e exigem avaliação médica. Eles representam exceção, não regra.

A adaptação metabólica é real

Um fenômeno frequentemente confundido com “metabolismo travado” é a adaptação metabólica. Quando ocorre perda de peso, principalmente por meio de dietas muito restritivas, o organismo reduz o gasto energético de forma proporcional à diminuição do tamanho corporal. Em alguns casos, essa redução pode ser ligeiramente maior do que o previsto.

Esse mecanismo é uma resposta biológica de proteção. O corpo interpreta restrição prolongada como ameaça e passa a economizar energia. Isso pode tornar a continuidade do emagrecimento mais difícil e facilitar o reganho de peso se não houver estratégia adequada.

As situações mais associadas a essa adaptação incluem:

  • Dietas muito restritivas e prolongadas
  • Perda rápida de peso
  • Redução importante de massa muscular
  • Longos períodos com ingestão calórica muito baixa

Isso não significa que o metabolismo esteja permanentemente danificado. Significa que o organismo responde às condições impostas.

O mito do metabolismo rápido

Da mesma forma, o chamado metabolismo rápido costuma ser superestimado. Pessoas treinadas com menor percentual de gordura geralmente apresentam características que aumentam o gasto energético ao longo do tempo, como maior massa magra e níveis mais altos de atividade física.

O metabolismo é adaptável. Ele responde à composição corporal e ao padrão de movimento mantido de forma consistente. Um corpo que preserva músculo e se mantém ativo tende a gastar mais energia do que um corpo sedentário com menor massa magra.

Realidade ou mito?

Metabolismo lento existe, mas é menos frequente do que o imaginário popular sugere. Na maioria das vezes, o que se interpreta como lentidão metabólica é resultado de fatores comportamentais acumulados, composição corporal desfavorável ou estratégias inadequadas de emagrecimento.

A ciência é clara ao mostrar que o metabolismo não é uma sentença fixa. Ele se adapta às condições impostas ao organismo. Entender isso é mais útil do que rotular o próprio corpo como defeituoso.

Antes de concluir que o metabolismo é o vilão da balança, vale investigar hábitos, nível de atividade e histórico de dietas. Em muitos casos, a resposta não está em um metabolismo quebrado, mas na forma como ele vem sendo moldado ao longo do tempo.

Fausto Fagioli Fonseca

Fausto Fagioli Fonseca

Formado em jornalismo e pós-graduado em jornalismo esportivo, atua na área de esportes e saúde desde 2008. @faustoffonseca