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Estudo busca descobrir por que há tantos supercentenários no Brasil

Brasil abriga três dos dez supercentenários do sexo masculino mais longevos do mundo - iStock
Brasil abriga três dos dez supercentenários do sexo masculino mais longevos do mundo - iStock

Redação Publicado em 21/01/2026, às 10h00

O campo da longevidade está em plena expansão. É impossível navegar pelas redes sociais sem encontrar alguém que afirma que quer viver mais de 100 anos. Na maioria das vezes, essas pessoas acreditam que podem alcançar essa idade gastando fortunas em "truques" de bem-estar, tratamentos não testados e suplementos.  

Só o tempo dirá se seus protocolos caros e personalizados realmente prolongarão suas vidas. Enquanto isso, aqui no Brasil, muitas pessoas — sem acesso a clínicas de bem-estar que custam US$ 1.000 por noite ou câmaras de crioterapia — vivem rotineiramente até os 100 anos ou mais. Apesar do acesso limitado à saúde, muitos desses centenários permanecem saudáveis até o fim de suas vidas.  

Um artigo recente da revista Genomic Press,  que tem entre outros autores a geneticista brasileira e professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo Mayana Zatz, descreve estudos genômicos e celulares em andamento com algumas dessas pessoas. Essa pesquisa visa identificar as assinaturas biológicas associadas à sobrevivência até idades avançadas. No estudo são usados alguns termos como: 

  • Centenários — pessoas com 100 anos ou mais.
  • Semissupercentenários — pessoas com idade entre 105 e 109 anos.
  • Supercentenários — pessoas com 110 anos ou mais. 

Por que focar no envelhecimento no Brasil? 

Como os autores iniciam seu artigo, “A longevidade saudável é uma meta global”; não se trata de as pessoas quererem viver vidas longas; trata-se mais de viver vidas saudáveis por mais tempo. Além disso, indivíduos que chegam a uma idade avançada e saudável devem, por definição, ter evitado as muitas doenças do envelhecimento que estão entre as principais causas de morte, incluindo demência, doenças cardíacas e câncer.  

Estudar a fisiologia e a genética desses indivíduos longevos pode ajudar a desenvolver tratamentos mais eficazes ou abordagens preventivas. No artigo, os pesquisadores citam pesquisas recentes sobre indivíduos longevos e exploram alguns dos mecanismos biológicos que ajudam a manter essas pessoas jovens por mais tempo.  

O primeiro deles é a manutenção de proteínas. À medida que envelhecemos, a capacidade do nosso corpo de manter e renovar as milhares de proteínas necessárias para uma boa saúde diminui gradualmente. Os supercentenários, no entanto, conseguem eliminar proteínas defeituosas com a mesma eficiência que adultos muito mais jovens. 

Outro mecanismo pode estar ligado à proteção imunológica. Em geral, o sistema imunológico de adultos mais velhos declina lentamente, aumentando o risco de inflamação crônica de baixo grau e infecções. Em supercentenários, no entanto, em vez de um declínio, o sistema imunológico se adapta, tornando-se mais resiliente.  

Por fim, algumas pessoas podem simplesmente ter genes "bons": evidências sugerem que indivíduos longevos podem ter certas vantagens genéticas, abrigando variantes genéticas relativamente raras que sustentam um sistema imunológico robusto, estabilidade genômica e função mitocondrial.  

Longevidade está ligada apenas a "ganhar na loteria genética"?  

O site norte-americano Medical News Today conversou com Daniel Ghiyam, médico especialista em medicina antienvelhecimento, longevidade e bem-estar, que não participou desta pesquisa. Ele declarou "Parece que a resiliência biológica em camadas, e não apenas um 'gene da longevidade', é o que faz as pessoas viverem mais. Pessoas que vivem vidas muito longas parecem ter sistemas de manutenção celular robustos, como reparo de DNA, eficiência mitocondrial e controle de qualidade de proteínas, e não apresentam sobrecarga inflamatória crônica", explicou ele.  

Jamie Bovay, doutor em fisioterapia e fundador de uma clínica voltada ao bem-estar, que também não participou do estudo, resumiu a questão da seguinte forma: “Pense nas suas células como uma cozinha de alta classe. Se você nunca joga o lixo fora ou limpa as bancadas, a cozinha eventualmente se torna inutilizável, não importa quão bons sejam os ingredientes. Os supercentenários parecem ter um sistema de gestão de resíduos de nível industrial.”  

Por que o Brasil é tão especial?  

Embora as mulheres tendam a viver mais do que os homens, o Brasil abriga muitos dos homens mais longevos do mundo. Segundo os autores, três dos dez homens mais longevos do mundo são brasileiros. Isso inclui o mais velho ainda vivo: João Marinho Neto, um cearense nascido em 5 de outubro de 1912, reconhecido pelo Guiness World Records após a morte do britânico John Tinniswood em novembro de 2024, sendo ele o último homem vivo nascido em 1912 e celebrado seus 113 anos em outubro de 2025.

Isso, explicam eles, “proporciona uma rara oportunidade científica” para estudar esses indivíduos incomuns. A pesquisa em andamento dos autores inclui amostras biológicas de mais de 100 centenários. É importante ressaltar que muitas dessas pessoas vivem em regiões onde o atendimento médico é extremamente limitado.  

Isso permite que os pesquisadores compreendam os fatores associados a vidas mais longas além do alcance da medicina moderna. O artigo explica como um dos fatores que podem desempenhar um papel na longevidade extrema de certos brasileiros é sua origem singular. De acordo com os autores, o Brasil possui a maior diversidade genética de qualquer país, devido às ondas de imigração de toda a Europa, Japão e África.  

“Essa complexa tapeçaria de ancestralidades”, escrevem os pesquisadores, “resultou em uma população altamente miscigenada, com padrões genômicos únicos que podem influenciar características multifatoriais como resiliência biológica e longevidade”. Os cientistas esperam que esta pesquisa forneça informações biológicas e genéticas que os ajudem a entender como todos nós podemos envelhecer de forma mais saudável. 

Fonte: MedicalNewsToday