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Covid-19 pode levar ao aumento dos casos de puberdade precoce

Ganho de peso por causa do isolamento pode ter acelerado desenvolvimento puberal das meninas
Ganho de peso por causa do isolamento pode ter acelerado desenvolvimento puberal das meninas - iStock

Tatiana Pronin Publicado em 06/02/2021, às 13h36

Um estudo publicado recentemente sugere que as medidas de isolamento impostas pela Covid-19 podem resultar num aumento na incidência de puberdade precoce, especialmente entre as meninas.

De acordo com pesquisadores da Universidade de Florença, na Itália, o lockdown naquele país fez os diagnósticos da condição aumentarem de maneira significativa.

Eles compararam o número médio de casos de puberdade precoce identificados entre outubro a março de 2020 com o dos cinco anos no departamento de pediatria do hospital universitário e descobriram um salto expressivo, de cerca de 17 para 49 casos.

“O estudo foi bem criterioso porque excluiu todas as causas orgânicas de puberdade precoce, como tumores ou lesões no sistema nervoso central”, avalia o endocrinologista Vinicius Nahime Brito, professor livre-docente de endocrinologia da Faculdade de Medicina Universidade de São Paulo (FMUSP).

Para ele, ainda que o número de pacientes envolvidos seja pequeno, ele mostra um incremento importante no número de diagnósticos, além de demonstrar uma aceleração nos casos que vinham sendo acompanhados no hospital.

Sobrepeso e obesidade

Um dos fatores apontados como responsáveis por esse salto na puberdade precoce é o sobrepeso e a obesidade. “Existem claras evidências de que isso está associado ao desenvolvimento puberal precoce nas meninas e no adiantamento da idade da menarca (primeira menstruação)”, explica Brito.

Nos meninos, essa relação é diferente. Há indícios de que o sobrepeso pode adiantar a puberdade também para eles; já a obesidade tende a atrasar o desenvolvimento puberal dos garotos.

Como o excesso de peso interfere na puberdade? O endocrinologista conta que o tecido gorduroso produz um hormônio chamado leptina, que tem relação com o apetite e também atua na ativação do eixo endócrino responsável pela puberdade.

Mudanças na dieta e sedentarismo

A pandemia trouxe uma inevitável queda no nível de atividade física das crianças no mundo inteiro, sem contar nos impactos observados nos hábitos alimentares. Um estudo feito em cinco países, inclusive no Brasil, por exemplo, mostrou que a ingestão de doces e frituras aumentou entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos. Os dados saíram no periódico científico Nutrients.

Outro trabalho, batizado de Convid Adolescentes – Pesquisa de Comportamentos e conduzido por várias universidades brasileiras, mostrou que o sedentarismo também aumentou consideravelmente por causa da pandemia.

Mais de 43% dos jovens afirmaram não ter praticado atividade física por 60 minutos em nenhum dia da semana, sendo que antes da pandemia essa proporção era de 20,9%. Quem fazia uma hora de exercício cinco ou mais vezes na semana também não conseguiu manter a frequência (a proporção caiu de 28,7% para 15,7%).

Mais tempo de tela

A redução nos níveis de atividade física dos jovens durante o isolamento ocorre em paralelo com o aumento do tempo gasto em frente às telas. Segundo o estudo italiano, houve um incremento de 100% no tempo médio gasto em aparelhos eletrônicos, como tablets, computadores e smartphones. A média observada durante a pandemia foi de quatro horas diárias.

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Os pesquisadores também teorizam que, além da influência sobre o peso, o uso excessivo de eletrônicos pode ter uma outra consequência capaz de acelerar a puberdade: a redução da melatonina. Esse hormônio, produzido pela glândula pineal, é fundamental para a qualidade do sono, e sua liberação pode ser afetada se as pessoas se expõem à luz emitida pelos aparelhos antes de ir para a cama.

O endocrinologista da FMUSP afirma que os níveis de melatonina também costumam cair no início da puberdade. Uma vez que existe um fator ambiental capaz de reduzir os níveis do hormônio, é possível especular que o eixo hormonal responsável por deflagrar o desenvolvimento puberal também pode ficar vulnerável a uma ativação precoce.

E o estresse, será que tem impacto? Brito afirma que isso sem dúvida tem impacto no sistema endócrino. Mas ele esclarece que não há uma teoria para explicar se o estresse pode adiantar o desenvolvimento puberal. “A puberdade precoce é que é um fator estressante”, comenta.

 O médico diz que, entre seus pacientes de consultório, notou um ganho de peso em 70 a 80% das crianças. Ele ainda não observou aumento de casos de puberdade precoce, mas acredita que os médicos devem ficar atentos à possibilidade.

Para os pais que já perceberam um aumento do peso e do sedentarismo entre os filhos, ele diz que “sempre é tempo de mudança”. É importante estimular as crianças a ter uma vida mais ativa e, se necessário, buscar o auxílio de psicólogos, nutricionistas ou endocrinologistas, que podem ajudar na missão.

Mais sobre a puberdade precoce

O natural é que a puberdade aconteça entre os 8 e 13 anos de idade para as meninas, e entre 9 e 14 anos para os meninos. Assim, os sinais de alerta para a puberdade precoce são:

- para as meninas: aparecimento de mamas e/ou de pelos pubianos com menos de 8 anos de idadee/ou primeira menstruação antes dos 9 anos de idade

- para os meninos: aumento dos testículos e/ou aparecimento de pelos pubianos com menos de 9 anos

Sempre que houver suspeita de puberdade precoce, é importante consultar um endocrinologista. Em certos casos, as manifestações podem ser consequência de algum tumor, malformação ou doença que precisam de intervenção.

Quando não há uma causa que explique os sinais, a puberdade precoce é considerada “idiopática”. Nesse caso, o fato pode ter relação com genética, com a exposição a cremes, medicamentos, ou, como já dito, pode ser consequência do excesso de peso. Outro fator que pode ter relação com a puberdade precoce é a exposição a agrotóxicos e produtos químicos.

Atenção aos meninos!

O médico Vinicius Brito chama atenção para o fato de que a puberdade precoce demora mais para ser diagnosticada nos meninos, já que é mais difícil para os pais e cuidadores reconhecerem o sintoma inicial mais comum, que é o aumento dos testículos. O problema é que, para eles, é mais comum que a causa seja alguma malformação ou doença.

Impactos físicos e psicológicos

Ver o próprio corpo mudar antes que o dos colegas costuma ser fonte de estresse e angústia para as crianças. Estudos indicam que mulheres que tiveram puberdade precoce ou menstruaram cedo demais têm maiores taxas de depressão e ansiedade, além de menores níveis de escolaridade.

Além de ter impacto na aparência e na altura dos adolescentes, a puberdade precoce ainda tem sido associada ao risco aumentado, mais tarde, de doenças metabólicas e cardiovasculares, como obesidade e diabetes, e de certos tipos de câncer, já que esses indivíduos passam a ser expostos ao estrogênio e à testosterona por mais tempo ao longo da vida.

Nem toda criança com sinais de puberdade precoce terá que ser submetida ao tratamento com os chamados “análogos de GnRH”, que colocam um freio no desenvolvimento. Mas é fundamental consultar o especialista, já que a opção pode evitar todas essas consequências desagradáveis para os jovens.

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