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Como treinar a mente para lidar melhor com a própria imagem

Quanto tempo e energia você gasta se julgando em frente ao espelho? - iStock
Quanto tempo e energia você gasta se julgando em frente ao espelho? - iStock

Redação Publicado em 01/09/2026, às 10h00

Entre canetas para emagrecer, filtros de "rosto de Instagram" e um feed infinito de corpos retocados, ficou mais difícil se sentir bem com a própria aparência. Mas existe um caminho que não depende de gostar do que se vê no espelho: mudar a forma como a mente reage a esse incômodo.

É essa a proposta da psicóloga norte-americana Diana Hill, especialista em terapia de aceitação e compromisso (ACT, na sigla em inglês) e coautora do livro ACT Daily Journal: Get Unstuck and Live Fully with Acceptance and Commitment Therapy("Desbloqueie-se e Viva Plenamente com a Terapia de Aceitação e Compromisso", em português livre).

Hill trabalha com pacientes um conceito conhecido como "flexibilidade da imagem corporal": a capacidade de conviver com pensamentos desconfortáveis sobre o próprio corpo sem deixar que eles tomem conta da vida.

A ideia não é passar a amar cada parte do corpo, nem alcançar uma neutralidade total em relação à aparência. O ponto central é outro: o que a pessoa faz quando um pensamento negativo aparece. Segundo Hill, vale a pena se perguntar quanto tempo e energia está sendo gasto se olhando e se julgando no espelho, em comparação ao tempo dedicado a viver a própria vida e cuidar do que realmente importa.

A seguir, alguns exercícios sugeridos pela psicóloga para lidar com a pressão estética do dia a dia.

1. Direcione a atenção para dentro

Quando o olhar no espelho vai direto para o nariz, a barriga, uma espinha ou uma ruga, uma alternativa é treinar o que Hill chama de atenção flexível: perceber esse pensamento negativo e conscientemente redirecioná-lo.

Uma forma de fazer isso é voltar a atenção para o que está acontecendo dentro do corpo, não para a aparência externa. Vale parar e reparar no que os órgãos estão fazendo naquele momento: há fome ou saciedade? O estômago está tenso ou relaxado? Há nervosismo, animação, calma?

Esse exercício ativa o que a psicologia chama de consciência interoceptiva, a percepção dos próprios sinais internos. De acordo com Hill, essa habilidade está associada a benefícios como maior facilidade para reconhecer fome e saciedade, além de mais empatia e sensibilidade nas relações com outras pessoas.

2. Valorize o que o corpo é capaz de fazer

Outro caminho é olhar para a funcionalidade do corpo, e não para a estética. A pergunta a se fazer é simples: o que o corpo está permitindo fazer agora?

Hill sugere um exercício de observação bem concreto: notar que os olhos estão enxergando algo, que os ouvidos estão captando sons, que os pulmões estão respirando. Depois, reservar um instante para reconhecer essas capacidades físicas como formas de conexão com o mundo, algo que nem sempre vai estar disponível da mesma maneira.

3. Questione suas próprias reações

Quem tem o hábito de contrair a barriga para parecer mais magro, por exemplo, pode usar esse comportamento como ponto de partida para um exercício de autoconhecimento. Hill propõe algumas perguntas:

  • Em que situações esse comportamento aparece mais, e em quais aparece menos? Muitas vezes ele diminui justamente nos momentos em que a pessoa se sente mais segura, como sozinha em casa ou na cama.
  • Esse incômodo vem de uma mensagem absorvida da cultura e da sociedade? E, se vem, essa é realmente uma crença que a pessoa quer deixar guiar sua vida?
  • Como esse desconforto afeta o dia a dia? Ele tira o conforto nas roupas, gera distração, faz alguém evitar falar em público?

Ao responder essas perguntas, segundo Hill, fica mais claro como fatores biológicos, psicológicos e sociais se combinam e levam a pessoa a, na prática, "desligar-se" de uma parte do próprio corpo.

4. Faça uma auditoria de energia

Hill sugere um exercício direto: mapear honestamente quanto tempo e esforço estão sendo direcionados ao corpo, e de onde essa energia está sendo tirada. Isso pode incluir o tempo gasto produzindo selfies para redes sociais ou comprando produtos de beleza.

Em seguida, vale se perguntar o oposto: o que realmente recarrega as energias na relação com o próprio corpo? Pode ser uma caminhada ao ar livre, uma atividade física prazerosa ou momentos simples, como brincar com um animal de estimação.

A partir daí, a proposta é trocar, aos poucos, uma parte do tempo dedicado à preocupação com a aparência por essas outras atividades.

Para Hill, cada minuto gasto tentando esconder uma parte do corpo ou se distraindo com a própria imagem é energia tirada de outros lugares: da criatividade, da capacidade de se conectar com outras pessoas e dos talentos de cada um. No fim das contas, resume ela, o que as pessoas ao redor querem não é um corpo perfeito, e sim a presença de quem elas conhecem.

Fonte: NPR