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Agradecer é ótimo, mas não cura ansiedade e depressão

Jairo Bouer

9 de março


Cultivar a gratidão é uma forma de estimular emoções positivas. Há inúmeros livros sobre os benefícios dessa prática, difundida por pesquisadores, psicólogos, coaches, religiosos ou mesmo pessoas comuns. Mas, infelizmente, o conselho tem benefício limitado para quem sofre de ansiedade ou depressão.

Uma equipe de psicólogos da Universidade do Estado de Ohio, nos EUA, analisou dados de 27 pesquisas diferentes focadas nos efeitos de intervenções baseadas em gratidão nos sintomas apresentados por pacientes ansiosos ou deprimidos. Os trabalhos envolveram, ao todo, 3.675 participantes.

Uma das intervenções mais recomendadas é um exercício chamado “Três coisas boas”: a pessoa deve eleger, toda noite, três fatos positivos que ocorreram naquele dia e refletir ou escrever sobre eles. Outra atividade sugerida é escrever uma carta de agradecimento para alguém e ler o texto em voz alta para essa pessoa. Em muitos experimentos, as práticas foram comparadas a atividades neutras, como, por exemplo, pedir a estudantes de faculdade para descrever o que foi feito em sala de aula.

De acordo com os resultados, publicados no Journal of Happiness Studies, as intervenções de gratidão não apresentaram efeito muito superior às atividades neutras. Como a diferença foi pequena, os pesquisadores concluíram que a prática não deve ser substituída por tratamentos com eficácia bem estabelecida, como a terapia cognitivo-comportamental.

Os autores do estudo não querem, com isso, diminuir o valor da gratidão. Alguns trabalhos inclusive mostraram que as práticas são úteis para melhorar relacionamentos. Além disso, há evidências de que indivíduos que possuem uma tendência natural à gratidão tendem a ter menor propensão a problemas de saúde mental.

O que os pesquisadores são contra é a ideia de que a prática pode curar um transtorno já instalado – vale lembrar que doenças mentais têm causa multifatorial. Dizer a alguém que está com ansiedade ou depressão que essa pessoa deveria agradecer por tudo de bom que ela tem não ajuda muito. Eu acrescentaria que, em alguns casos, esse discurso pode até gerar culpa e tristeza. Se você quer ajudar um amigo ou parente nessa situação, o melhor é ouvir sem julgamentos, mostrar-se presente e oferecer ajuda prática, como levar ao médico ou psicólogo.

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