Doutor Jairo
Testeira
Colunas / José Roberto Miney » Comportamento

“Budsex”: eles fazem sexo com outros homens, mas se consideram héteros

O filme “Brokeback Mountain” tratou do tema
O filme “Brokeback Mountain” tratou do tema - Reprodução / Divulgação

José Roberto Miney Publicado em 01/06/2021, às 17h49

Há homens que fazem sexo com outros homens e não se consideram gays ou bissexuais.  Uma parte deles tem uma vida dentro dos padrões considerados heterossexuais, com esposas e famílias, com condutas ditas tipicamente masculinas.

Ultimamente, pesquisadores e sociólogos se interessaram por esse comportamento. Ele pode revelar muito sobre como as pessoas, e em particular os homens, interpretam questões relativas à identidade e ao desejo sexual, vivendo em um ambiente cheio de expectativas quanto ao papel de cada um. 

O “armário” está mais lotado do que se imagina

Recentemente, a NYU Press publicou o livro Not Gay: Sex Between Straight White Men I (Não gay: sexo entre homens héteros brancos, em tradução livre). A autora, Jane Ward, professora de gênero e sexualidade da Universidade da Califórnia, explora várias subculturas voltadas para o que poderia ser chamado de "sexo homossexual heterossexual" – militares, fraternidades universitárias, grupos de motoqueiros e moradores de bairros suburbanos conservadores, como descreve um artigo do site The Cut.

Por outro lado, há um grupo pouco abordado, segundo Tony Silva, um estudante de doutorado em sociologia na Universidade de Oregon. Conforme seu artigo publicado em Gender & Society,  trata-se de homens da área rural, brancos, que afirmam ser heterossexuais. Embora não se possa esquecer do filme “Brokeback Mountain” e sua expressiva audiência.

Para saber mais sobre esse público, Silva  pesquisou 19 dos fóruns de encontros casuais “homem-para-homem” no Craigslist e entrevistou os voluntários por cerca de uma hora e meia cada, sobre seus hábitos sexuais, suas vidas e como enxergam suas identidades. Todos eram de áreas rurais de diversos estados dos Estados Unidos, conhecidos por  serem conservadores. 

A amostra era composta, em sua maioria, por homens mais velhos, com 14 dos 19 homens na casa dos 50 anos ou mais, e a maioria deles identificada como exclusiva ou principalmente heterossexual.

Por se tratar de um estudo qualitativo e não quantitativo, é importante salientar que os homens entrevistados por Silva não eram necessariamente representativos. De fato, o objetivo de Silva era menos tirar conclusões abrangentes sobre esse subconjunto de HSH (homens que fazem sexo com homens) heterossexuais, ou a população como um todo, e mais ouvir suas histórias e compará-las com as narrativas trazidas no livro de Jane Ward, além de outros artigos de demais pesquisadores.

“Budsex”

Em seu estudo, Silva busca uma maior compreensão da interação entre a “masculinidade rural normativa” – o conjunto de costumes e normas que define o que significa ser um homem rural – e os encontros sexuais dos entrevistados. Nesse percurso, ele apresenta um novo conceito para retratar essa realidade: o “Budsex” (sexo entre amigos, em tradução livre, ou sexo entre "brothers") .

Os participantes recrutados pelo doutorando reforçavam sua heterossexualidade por meio de interpretações não convencionais de seus encontros sexuais com outros homens como "ajudando um amigo", aliviando "impulsos". Para eles, considerar-se hétero e fazer sexo com outros homens com a mesma convicção, em vez de ameaçar, reforça sua masculinidade rural. Nesse sentido, o termo “Budsex” captura essas interpretações, bem como a forma como os participantes fizeram sexo e com quem fizeram.

Homem que se considera hétero e transa com outro é gay?

♪ O homem que diz dou não dá
Porque quem dá mesmo não diz
(“Canto de Ossanha”, Vinicius de Moraes)

As estrofes da canção estão fora de contexto, mas podem ilustrar o quão polêmico e por vezes constrangedor é o assunto – afinal, ainda vivemos em uma sociedade majoritariamente machista e heteronormativa –, e talvez por isso alguns leitores têm feito perguntas com esse teor para Jairo Bouer. De acordo com o médico, para os profissionais de saúde, para os que lidam com epidemiologia ou com saúde pública, a classificação de “homens gays” ou “bissexuais” não é utilizada. Nesse caso, o termo usado é “homens que fazem sexo com homens”, representado pela sigla HSH. 

Ao adotar o termo “HSH”, abre-se um caminho para várias classificações possíveis: homens gays que transam exclusivamente com homens, bissexuais, que mantém relações sexuais com pessoas do sexo masculino e feminino, e aqueles que se consideram heterossexuais, mas que já tiveram, ou às vezes vivenciam, experiências com outro homem. 

Confira:

Alfred Kinsey: a sexualidade humana posta a nu

No entanto, já em 1948, Alfred Kinsey, um pioneiro nos estudos de sexualidade humana, publicou Sexual Behavior in the Human Male II (Comportamento sexual do homem, em tradução livre) e Sexual Behavior in the Human Female (Comportamento sexual da mulher, em tradução livre), em 1953, não sem provocar reações indignadas.

Merece destaque a Escala Kinsey, em que o pesquisador propõe uma gradação das experiências sexuais de cada um, mostrando que a sexualidade humana não cabe em apenas duas “caixinhas”:

  • 0 – Exclusivamente heterossexual
  • 1 – Exclusivamente heterossexual, apenas eventualmente homossexual
  • 2 – Predominantemente heterossexual, embora homossexual com frequência
  • 3 – Bissexual
  • 4 – Predominantemente homossexual, embora heterossexual com frequência
  • 5 – Predominantemente homossexual, apenas eventualmente heterossexual
  • 6 – Exclusivamente homossexual
  • X – Assexual

Não, não é uma coisa “moderninha”

Para se afirmar qualquer coisa do passado, é preciso haver evidências. E elas não faltam quando o tema é HSH e a arte homoerótica da Antiguidade: pinturas rupestres etruscas, cerâmicas gregas, xilogravuras japonesas, entre tantas (e talvez muitas).

O Brasil é um país relativamente jovem e não se pode falar em Antiguidade. Mas há relatos colhidos de documentos do Santo Ofício, que se instalou no país na época colonial, de escravos sodomizados por um jovem senhor de engenho.

Na literatura, merecem menção O bom crioulo (1885), de Adolfo Caminha, O Ateneu (1888), de Raul Pompeia e, um pouco mais recentemente, República dos assassinos (1976), de Aguinaldo Silva, que deu origem a um filme de mesmo nome (1979).

No terreno das controvérsias, há quem veja um sentimento homoerótico de Bentinho por Escobar, em Dom Casmurro, de Machado de Assis. Sacrilégio!, dirão os mais ortodoxos...

Mas não há como esquecer da cena em que Bentinho, após Escobar visitá-lo e jantar com ele, observa o amigo se distanciar caminhando e espera (ou anseia) que, à distância, ele se volte e acene.

Veja também: