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Posso usar camisinha interna ou vaginal no ânus?

O preservativo interno foi desenvolvido para uso exclusivo na vagina - iStock
O preservativo interno foi desenvolvido para uso exclusivo na vagina - iStock

Vinícius Lacerda Ribeiro* Publicado em 25/09/2021, às 14h00

Ultimamente muitos perfis de influenciadores têm ensinado a utilizar o preservativo interno no ânus pelo passivo, substituindo o uso do preservativo externo ou peniano por quem penetra. O preservativo interno ou vaginal (evitamos falar camisinha feminina ou masculina pois é excludente em relação às pessoas trans ou não binárias) foi elaborado para o uso exclusivo na vagina.

A vagina é um órgão tubular e com um fundo oco, que termina no colo do útero. O preservativo interno possui dois anéis, que devem ficar um alocado na parte interna e outro na parte externa, revestindo a mucosa vaginal e prevenindo infecções sexualmente transmissíveis e gestações indesejadas. Ele possui um desenho específico para ficar bem aderido na mucosa vaginal e revestir também a entrada dos pequenos lábios.

Já o sexo anal ocorre no reto, que é a porção final do intestino, e no canal anal. O reto não possui um fundo oco que nem a vagina e continua seu trajeto pelo intestino grosso ou cólon. O uso do preservativo interno no ânus poderia fazer com que os movimentos do coito introduzissem totalmente a camisinha e, em muitos casos, ele pode não sair nas fezes pois fica aderido na mucosa do intestino. O preservativo peniano também pode sair e ficar perdido na mucosa, mas isso é bem mais raro de acontecer.

O anel externo também não ficaria bem aderido na entrada do ânus, ficando um pouco solto, o que permitiria uma penetração peniana inadvertida entre o preservativo e a porção do ânus que ficou desencapada, além do risco de contaminação pelo esperma que pode vazar do preservativo interno após a ejaculação.

Confira:

Onde mora o perigo? 

Muitos podem argumentar que “alguma proteção é melhor do que nenhuma”, mas aí é que mora o perigo: a sensação de estar protegido e, eventualmente, se expor a infecções sexualmente transmissíveis. Sabemos que o preservativo peniano também não protege 100% de todas as ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), pois o mesmo pode sair, se romper e algumas partes, como base do pênis, região pubiana e saco escrotal, também ficam em contato durante a relação. Porém, é um método muito mais seguro e já validado por processos de qualidade e segurança.

Já o preservativo interno só foi validado e é seguro para o uso na vagina. E o uso de dois preservativos (interno e externo) simultaneamente também deve ser evitado, devido a maior risco de rompimento por atrito.

Portanto: ainda não temos embasamento científico ou validação por órgãos reguladores, como o FDA, nos EUA, ou o Inmetro, para o uso do preservativo interno como uma forma de prevenção segura na relação anal.

Sobre o autor:

*Vinícius Lacerda Ribeiro

Médico Cirurgião do Aparelho Digestivo

Referências:

Mantell JE, Kelvin EA, Exner TM, Hoffman S, Needham S, Stein ZA. Anal use of the female condom: does uncertainty justify provider inaction?. AIDS care. 1 dez 2009; 21(9):1185-94.

Esta coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Site Doutor Jairo