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Rituais aliviam a ansiedade em tempos de incerteza

Jairo Bouer

30/06/2020 20:24




Por causa da covid-19, muita gente ficou sem festa de formatura ou teve que adiar a cerimônia de casamento. Outros abandonaram o hábito de ir à igreja todo domingo, de jantar com os amigos uma vez por mês, ou completar uma maratona por ano. Todos perderam algum tipo de celebração coletiva e isso faz mais falta do que parece.

Um estudo realizado por antropólogos da Universidade de Connecticut, nos EUA, com colaboradores da Universidade Masaryk, na República Tcheca, comprovou que rituais ajudam reduzir os níveis de ansiedade e aumentar a tolerância ao estresse. Por isso, são essenciais em épocas de crise.

Para a equipe, coordenada pelo professor Dimitris Xygalatas, embora as pessoas acreditem que todo sofrimento atual se deve a questões de sobrevivência, parte desse mal-estar pode ter a ver com a ausência desses rituais que funcionam como válvula de escape para as preocupações.

O trabalho teve início anos atrás, com diferentes experimentos. Primeiro, em laboratório, os pesquisadores descobriram que, ao induzir ansiedade em um grupo de pessoas, elas passavam a ter um comportamento mais ritualizado, ou seja, mais repetitivo e estruturado.

Depois, a equipe partiu para a análise em um ambiente real, nas Ilhas Maurício, no Oceano Índico. Um grupo de 75 pessoas foi desafiado a preparar um plano de enfrentamento a desastres naturais que seria avaliado pelo governo. Enchentes e ciclones são frequentes naquela região, por isso pensar no assunto e elaborar um plano eficiente causou estresse nos participantes.

Depois de receber a missão, metade do grupo foi para um templo, participar de um ritual religioso local. A outra parte foi orientada a apenas sentar e relaxar num local sem qualquer referência religiosa. Com ajuda de rastreadores, eles puderam medir a variabilidade de frequência cardíaca, um indicador de estresse.

Todos ficaram tensos com a situação, mas os participantes que foram para o templo apresentaram menores níveis de estresse psicológico e fisiológico, de acordo com os resultados. Provavelmente porque os rituais dão ao cérebro uma noção de regularidade, estrutura e previsibilidade.

Claro que ficar em estado de alerta é importante em momentos de tensão. Sem isso, não há como “lutar ou fugir”, o que é essencial para a sobrevivência. Mas quando a adrenalina sobe além da conta, o humor e a capacidade de concentração e raciocínio são afetados, o que não é desejável. Se o estresse for crônico, o corpo também sofre: a imunidade enfraquece e o indivíduo fica mais propenso a hipertensão e doenças cardiovasculares.

Ao publicar o estudo, os autores comentaram algumas reações à pandemia que, de certa forma, podem ser interpretados como rituais para aliviar a ansiedade, como os aplausos diários aos profissionais de saúde ou a produção de corais virtuais. Eles também citaram outro estudo recente, que aponta o aumento das buscas pelo termo “prece” no Google por causa do novo coronavírus. Cada um deve procurar o ritual que lhe traz mais conforto neste momento.

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