Estudo mostra que interagir com IA pode aumentar a sensação de isolamento
Redação Publicado em 05/05/2026, às 10h00
Sentir-se sozinho e abrir um aplicativo de IA para conversar virou um hábito comum. No entanto, um novo estudo acompanhou adultos por 12 meses e acendeu um alerta: embora a solidão nos leve a buscar companhia nos chatbots, esse hábito pode, com o tempo, nos fazer sentir ainda mais isolados. A pesquisa foi publicada na prestigiada revista Psychological Science.
Desde que o ChatGPT surgiu no final de 2022, vivemos uma revolução. Em 2026, com mais de 1 bilhão de pessoas usando ferramentas de IA generativa, a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de trabalho para se tornar "companhia".
Um chatbot está sempre disponível, não te julga e responde na hora. Mas especialistas alertam: essa conexão é uma ilusão. A IA não sente emoções e não cria laços reais; ela apenas simula empatia e carinho.
Para um relacionamento humano ser recompensador, precisamos do que os especialistas chamam de autorrevelação recíproca — aquele "troca-troca" pelo qual duas pessoas se abrem e se tornam vulneráveis. Como a IA não tem uma vida interior ou sentimentos reais, essa troca não acontece de verdade.
Os pesquisadores Dunigan Folk e Elizabeth Dunn explicam que, embora a IA pareça envolvente no momento, essas interações são "fáceis, porém rasas". O perigo é que esse contato superficial acabe substituindo as conversas reais com humanos, que dão mais trabalho, mas são as que realmente nos preenchem.
Para entender essa dinâmica, os cientistas realizaram um acompanhamento detalhado com 2.149 pessoas do Reino Unido, EUA, Canadá e Austrália. O grupo tinha uma média de 40 anos e foi entrevistado em quatro etapas ao longo de um ano.
Eles mediram dois pontos principais: 1) com que frequência a pessoa pedia conselhos de vida ou apenas conversava com o chatbot para passar o tempo. 2) o quanto a pessoa se sentia desconectada com as outras pessoas (isolamento emocional).
Os dados revelaram um padrão claro: quem se sentia mais isolado emocionalmente tendia a usar mais os chatbots nos meses seguintes. O problema é que, após aumentarem esse uso, essas mesmas pessoas relatavam um isolamento ainda maior na medição seguinte.
Ou seja, buscar a IA para aliviar a solidão acabou criando um efeito bumerangue, piorando o sentimento original.
Curiosamente, o estudo também observou que eventos marcantes da vida (como términos de namoro ou mudanças de cidade) não necessariamente levam as pessoas aos chatbots, mas términos de relacionamento foram ligados a uma menor conexão social geral meses depois.
Os autores concluem que, embora a solidão nos empurre para os braços da IA, essa "amizade digital" pode ser um paliativo que exacerba o problema a longo prazo.
"Esses achados são uma evidência inicial de que estar sozinho nos faz buscar chatbots, mas esse uso pode piorar a solidão com o passar do tempo", alertam os pesquisadores.
Vale lembrar que o estudo é observacional e baseado em relatos dos participantes. Isso significa que, embora a correlação seja forte, ainda não se pode dizer com 100% de certeza que a IA causa a solidão, mas sim que ambas caminham juntas de forma preocupante.
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