Doutor Jairo
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Bicicletas elétricas: segurança e a nova disputa pelo espaço urbano

As regras para uso das bikes elétricas começam agora com uma etapa educativa - iStock
As regras para uso das bikes elétricas começam agora com uma etapa educativa - iStock

Copenhague, capital da Dinamarca, uma das cidades mais associadas ao uso da bicicleta no mundo, estuda criar uma espécie de “carteira de motorista” para turistas que alugam bicicletas elétricas compartilhadas.

A ideia, claro, não é fazer uma prova prática para aprender a pedalar. A proposta discutida pelas autoridades locais prevê que os visitantes recebam informações sobre as regras de circulação antes de poder desbloquear uma bicicleta, possivelmente por meio de um vídeo ou de um pequeno teste sobre as normas de trânsito.

A discussão surgiu depois de um verão marcado por reclamações sobre turistas que circulavam de maneira insegura pelas ciclovias da cidade. Atualmente existem cerca de 13 mil bicicletas elétricas compartilhadas em Copenhague, contra 8 mil em 2024.

Durante muito tempo a bicicleta foi vista quase exclusivamente como símbolo de mobilidade saudável, sustentável e ambientalmente mais amigável. Continua sendo tudo isso. Mas, à medida que as bicicletas, especialmente as elétricas, se tornam mais rápidas, pesadas e populares, elas também passam a exigir uma discussão sobre convivência, velocidade e segurança.

E essa discussão não diz respeito apenas à proteção de quem está sobre duas rodas, mas sobretudo dos pedestres. As bicicletas elétricas facilitam deslocamentos mais longos, ajudam pessoas que teriam dificuldade para percorrer grandes distâncias e podem representar uma alternativa ao automóvel em cidades congestionadas.

Mas o motor também muda a dinâmica da circulação. Uma bicicleta elétrica pode permitir que seu usuário atinja velocidades que seriam difíceis de manter apenas com a força das pernas. Dependendo do modelo, há ainda a questão do peso. Em caso de colisão, velocidade e massa fazem diferença.

Isso se torna especialmente relevante em cidades onde ciclistas e pedestres circulam muito próximos uns dos outros: ciclovias junto a calçadas, orlas, parques, áreas comerciais e regiões turísticas.

Em São Paulo, essa preocupação acaba de entrar oficialmente na agenda da mobilidade urbana. A prefeitura estabeleceu o limite de 20 km/h para bicicletas elétricas e equipamentos de mobilidade individual autopropelidos em ciclovias e ciclofaixas na pista. Nos espaços em que a circulação é compartilhada com pedestres, o limite previsto é de 6 km/h.

As regras começam agora com uma etapa educativa. A fiscalização, inicialmente prevista para começar imediatamente, foi adiada para permitir campanhas de orientação e adaptação dos usuários às novas normas

Os riscos dessa convivência são bastante reais. Em Santa Catarina, por exemplo, um caso ocorrido na orla de Itapema terminou de forma trágica. Um pedestre morreu depois de ser atingido enquanto atravessava uma faixa de segurança. O condutor, que trafegava com uma scooter elétrica de alta potência em velocidade considerada incompatível com a intensa circulação de pessoas, foi condenado pela Justiça.

Uma velocidade que pode parecer aceitável em uma ciclovia completamente segregada talvez seja excessiva em uma área movimentada, próxima a uma faixa de pedestres, à entrada de um comércio, de um prédio ou de uma área de lazer.

Nesse sentido, saber pedalar não significa, necessariamente, saber circular em segurança em uma área complexa e movimentada. Assim como um motorista precisa aprender regras, interpretar a sinalização e entender os riscos que seu veículo representa para os demais, os usuários das novas formas de mobilidade também precisam compreender que estão inseridos em um espaço coletivo.

A educação não funciona apenas como uma etapa anterior à punição. Ela pode ser uma ferramenta central de prevenção. A decisão de São Paulo de começar pelas campanhas educativas vai nessa direção. E a discussão em Copenhague também.

Quanto mais alternativas de mobilidade as cidades oferecerem, menos dependentes poderemos ser do automóvel. Mas mobilidade sustentável também precisa ser segura. À medida que nossas cidades incorporam bicicletas elétricas, patinetes e outros novos veículos, precisamos reaprender a compartilhar o espaço urbano.

*Jairo Bouer escreve semanalmente neste site.

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr