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Ansiedade na pandemia: meninas e jovens brasileiras foram as mais afetadas

Jairo Bouer

25/09/2020 16:21




Nove a cada dez garotas, ou seja, 88% delas, vêm sentindo níveis altos ou médios de ansiedade como consequência da pandemia. É o que mostra a pesquisa “Vidas Interrompidas: O Impacto da COVID-19 na vida de Meninas e Jovens Mulheres, lançada em um evento paralelo da Assembleia Geral das Nações Unidas, esta semana.

O levantamento, que é o mais extenso deste tipo com foco no impacto da pandemia sobre as meninas, ouviu 7 mil jovens em 14 países, incluindo o Brasil, e foi realizado pela Plan International, organização humanitária de direitos de crianças e adolescentes. As meninas eram de: Austrália, Brasil, Egito, Equador, Espanha, Estados Unidos, Etiópia, França, Gana, Índia, Moçambique, Nicarágua, Vietnã e Zâmbia.

Vale lembrar que este não é o primeiro estudo a enfatizar as consequências da pandemia na vida e na saúde mental dos mais jovens. É possível até dizer que eles foram a população mais afetada, já que nessa faixa etária as interações são essenciais para a saúde mental e o aprendizado.

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Ansiedade entre brasileiras

As entrevistadas tinham idades entre 15 e 19 anos. Elas destacaram como principais medos a própria saúde (33%) e bem-estar de suas famílias (40%). Quase um terço delas (26%) estava preocupada com a perda de renda familiar devido à pandemia. E muitas jovens de classes menos favorecidas ainda não têm acesso a computadores ou internet. Estudar pelo celular é praticamente impossível.

O Brasil foi um dos países onde as meninas afirmaram sofrer com mais ansiedade. O que não é de se estranhar: há alguns anos, uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que o Brasil é o país com maior número de indivíduos com ansiedade.

Outros dados preocupantes da pesquisa:

– 62% das meninas entrevistadas disseram que estavam tendo dificuldades por não poderem ir à escola ou à universidade;

– mais da metade (58%) das meninas está sentindo os efeitos negativos de não poder sair de casa normalmente;

– outros 58% destacaram o fato de não poderem encontrar as amigas como uma consequência negativa da pandemia.

“Sinto falta do abraço”

A Plan Internacional destacou alguns depoimentos das garotas que dão uma ideia das dificuldades enfrentadas nesta pandemia:

“Alguns dos meus amigos e amigas sugeriram sites para me ajudar nos estudos, mas não tive nenhum resultado e nem sempre tenho um acesso bom à internet. A verdade é que também estou muito desanimada. Eu não acho que seja a única que se sente assim” (Deborah, de 18 anos, do Piauí, e que está pensando em abandonar a escola por causa da pandemia)

“Não é fácil lidar com a saúde mental durante a pandemia. Não estamos acostumadas a ficar isoladas. Gosto muito de me comunicar e de sair de casa. Tenho usado técnicas de respiração – o que é ótimo para quem está sofrendo de ansiedade – e também passei a cozinhar mais. Isso me ajuda a controlar a ansiedade, o medo, a preocupação. Agora estou fazendo sessões de terapia on-line, mas sinto falta do abraço e de olhar para o rosto das pessoas pessoalmente” (Daniele, de 20 anos, de São Paulo)

A organização está levantando 100 milhões de euros para proteger algumas das crianças mais vulneráveis do mundo dos impactos da pandemia, e tem convocado autoridades globais e locais para garantir que as garotas sejam levadas em conta.

Além disso, a Plan Internacional destaca a importância de não se desprezar a saúde sexual e reprodutiva dessas garotas e mulheres, e acesso a meios de proteção contra a violência de gênero. De acordo com os especialistas da ONG, a educação sexual – ou educação integral em sexualidade – é uma ferramenta muito importante na prevenção de casos de violência sexual – crianças que conhecem seu corpo e sabem reconhecer quando sua privacidade é violada têm mais chances de relatar situações de abuso a um adulto de confiança. Infelizmente, ainda existem muitos obstáculos que dificultam a abordagem do tema por educadores e pais.

Mulheres são as mais afetadas

Já no final de março, a ONU publicou o relatório “Mulheres no centro da luta contra a crise Covid-19”, em que destacava o fato de a pandemia afetar mais o sexo feminino. As razões apontadas são inúmeras: elas são maioria nas profissões ligadas à saúde e cuidado de pacientes; o confinamento aumentou os casos de violência doméstica e feminicídio; e elas têm de se dividir entre o trabalho, as tarefas domésticas e o cuidado dos filhos e dos parentes mais idosos.

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