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Como reduzir riscos emocionais em crianças vítimas de estupro

Jairo Bouer

25 de agosto


O caso da menina de 10 anos grávida após estupro, no ES, trouxe diversas reflexões para os brasileiros nos últimos dias. A cada história desse tipo que vem à tona, voltamos a nos deparar com uma realidade assustadora, que é a frequência com que crianças são abusadas sexualmente. Quantas pessoas da nossa convivência passaram por isso, sem que a gente tenha tomado conhecimento?

Outra pergunta, inevitável neste momento, é qual o impacto que uma experiência tão traumática vai ter na vida desta e outras milhares de crianças? Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, o país registra 180 estupros por dia. Quase 82% das vítimas são do sexo feminino e quase 54% das vítimas têm até 13 anos de idade. Isso significa que a cada hora, 4 meninas nessa faixa etária são estupradas.

Não é um problema exclusivo do Brasil. Nos EUA, estima-se que 12% a 40% das crianças sofram alguma forma de abuso sexual. E a maioria dos casos também envolve algum parente ou alguém próximo da família, quando não os próprios pais, o que muitas vezes inviabiliza a denúncia e amplifica o impacto do trauma.

Minorias também são mais afetadas por esse tipo de crime: o relatório brasileiro aponta que o número de crianças negras violentadas é mais alto que o de brancas. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos EUA, diz que garotos gays ou bissexuais são cinco vezes mais propensos a sofrer abuso sexual que seus pares, segundo pesquisa com 29 mil jovens de 14 a 18 anos.

Uma das consequências mais comuns do abuso na infância é o estresse pós-traumático, que envolve pensamentos intrusivos (“que invadem a nossa mente de forma recorrente e contra nossa vontade”) sobre o que aconteceu, insônia e pesadelos. Sensação de culpa, vergonha, medo e baixa autoestima também são frequentes e podem levar a abuso de substâncias, quadros de ansiedade, depressão e outros transtornos psiquiátricos. Vítimas do sexo feminino ficam ainda mais propensas a problemas sexuais e sintomas ginecológicos, como dificuldade de sentir desejo, prazer e orgasmo, dor pélvica crônica, vaginismo e dor nas relações sexuais.

Quer dizer que toda criança que sofreu abuso terá uma vida difícil? Nada disso. Cada indivíduo vive num contexto único, que envolve fatores genéticos e ambientais, e reage de forma diferente a eventos traumáticos. Quando celebridades expõem experiências desse tipo, como já fizeram Xuxa e Adnet, elas não apenas esclarecem que o problema não está restrito a determinado grupo ou classe socioeconômica, mas que é sim uma questão de todos nós. Acima de tudo, mostram que ter vivido um trauma não é impeditivo para uma vida plena e feliz.

Mas não dá para confiar só na sorte ou na resiliência de um jovem. O que acontece depois de uma situação de violência sexual pode ser tão importante para o futuro da vítima quanto fatores de proteção individuais. Ser acolhido, receber suporte social e tratamento adequado para os transtornos emocionais que eventualmente surjam é essencial para superar um trauma em qualquer idade. Isso tudo só é possível, claro, quando o abuso é denunciado, o que é mais difícil quando o crime envolve crianças.

Por isso, é importante que a gente não deixe casos como este caírem no esquecimento, e cobre as autoridades para que novas redes de apoio sejam criadas. Se uma criança não encontra o suporte que necessita em casa, é preciso que ela tenha acesso a adultos de confiança na comunidade ou na escola. Isso também envolve conversar sobre sexo e consentimento com os mais jovens, numa linguagem e ambiente adequados à cada faixa etária tanto em casa como na sala de aula.

*Texto extraído da coluna do Jairo Bouer no UOL

 

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