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Transtorno borderline e trauma na infância: relação é mais forte que se pensava

Jairo Bouer

25 de novembro


Sofrer um trauma emocional na infância aumenta muito o risco de uma pessoa desenvolver o transtorno de personalidade borderline, uma condição grave que tem sido associada a episódios de automutilação e suicídio. E essa associação pode ser mais forte do que os especialistas imaginavam até hoje. A conclusão é de uma análise estatísica de estudos sobre o tema (meta-análise) conduzida por pesquisadores das universidades de Manchester e de Lancaster, no Reino Unido.

De acordo com estatísticas internacionais, a condição acomete cerca de 1,5% a 2% da população. É caracterizada por instabilidade emocional, impulsividade, dificuldade de controlar a raiva, de manter relacionamentos, problemas de autoimagem, tendências autodestrutivas e, nos casos mais graves, delírios ou ideias de perseguição. As manifestações costumam surgir no fim da adolescência, têm um pico por volta dos 20 ou 30 anos de idade, e tendem a melhorar bastante com o envelhecimento.

O termo “borderline” significa “limítrofe” ou “fronteiriço” em inglês. Ele foi adotado para nomear o transtorno no início do século 20, por psicanalistas. É que os pacientes com aquele conjunto de sintomas pareciam estar na fronteira entre o neuroticismo e a psicose. Ou seja: há sintomas depressivos e ansiosos, mas, por outro lado, visões distorcidas da realidade.

Risco de suicídio

O tratamento, que envolve psicoterapia e medicamentos, é imprescindível para a qualidade de vida dos pacientes, ainda que não haja cura para o transtorno. Também é fundamental para a prevenção do suicídio – estudos mostram que 10% dos pacientes borderline tentam acabar com a própria vida, segundo a Associação Brasileria de Psiquiatria.

Estudiosos acreditam que, como a maioria dos transtornos de saúde mental, o borderline seja causado por uma combinação entre predisposição genética e fatores ambientais, como as experiências vividas desde o nascimento. Diversas pesquisas já apontaram uma associação entre traumas sofridos na primeira infância e o risco de ter o transtorno. As vivências mais citadas são abuso, abandono, pobreza extrema, violência e conflitos familiares.

Mas os autores do estudo atual acreditam que o link entre traumas e o transtorno pode ser mais forte do que se imaginava. Eles avaliaram quase 100 trabalhos científicos, que envolveram, ao todo, 11.366 pessoas com transtorno borderline, 13. 128 pessoas com outros quadros psiquiátricos e 3.732 indivíduos sem problemas de saúde mental.

Quase 14 vezes mais propensos

Do total de estudos, 42 continham informações estatísticas relevantes, que a equipe utilizou como referência. Os pesquisadores concluíram que pacientes diagnosticados com o transtorno têm quase 14 vezes mais propensão a relatar trauma na infância do que pessoas sem o diagnóstico.

Em comparação com outras condições psiquiátricas (incluindo transtornos do humor, psicose e outros transtornos de personalidade), indivíduos borderline apresentaram 3,15 vezes mais chances de relatar experiências traumáticas na infância.

Quase metade das pessoas diagnosticadas com o transtorno (49%) havia sofrido negligência física na infância; 42,5% relataram abuso emocional; 36,4%, abuso físico; 32%, abuso sexual; e 25,3%, negligência emocional. Mais de 71% dos pacientes borderline disseram ter vivido pelo menos um evento traumático durante a infância. Os dados foram publicados no periódico Acta Psychiatrica Scandinavia, e divulgados no site Medical News Today.

É preciso proteger as crianças

A infância e a adolescência são fases em que o cérebro ainda está em desenvolvimento. É quando as pessoas aprendem estratégias para lidar com os desafios da vida e os sentimentos negativos que os acompanham. Uma criança ainda não tem como se defender de certas adversidades, por isso uma situação grave pode gerar um estado de estresse crônico que acaba desregulando suas respostas emocionais.

No final das contas, crianças submetidas a adversidades crescem com uma sensibilidade muito maior ao estresse “normal”, do dia a dia, que o resto da população. E podem recorrer a comportamentos perigosos para obter alívio para o sofrimento, como se drogar ou se machucar. Quanto mais cedo esses jovens receberem cuidados, menores serão os riscos. E maiores serão suas chances de uma vida plena e satisfatória.

 

Se você quer saber mais sobre depressão e suicídio entre jovens, confira o especial #ComoAndaSuaCabeça