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Casos de homofobia levantam discussão sobre impacto na saúde mental dos jovens

Jairo Bouer

23/09/2020 22:21




Dois casos de homofobia marcaram as últimas semanas e levantam uma discussão sobre o impacto do preconceito na saúde mental dos jovens.

Na primeira, o passageiro de uma companhia aérea fez diversas ofensas a um comissário de bordo; na outra, um casal foi ‘advertido’ por vizinhos após andarem de mãos dadas no condomínio.

O vôo de São Paulo (SP) para Fortaleza (PE) rendeu uma atitude da Latam, que decidiu expulsar o homem que fez os comentários infelizes após o piloto ser informado do ocorrido.

A Polícia Federal foi acionada e a companhia afirmou que segue os controles rígidos de segurança e que repudia qualquer tipo de ofensa e opinião que contrariem os valores da empresa.

No caso do casal de Joinville (SC), o ocorrido foi explanado no grupo do condomínio. Em entrevista ao UOL, o síndico, Charles Scheel, reforçou que o espaço não compactua com nenhum preconceito. Felipe Alves e o companheiro não aceitaram e abriram um Boletim de Ocorrência para registrar o ocorrido.

Mas, afinal, como evitar que situações semelhantes sigam acontecendo?

Saúde mental dos jovens

Conviver com o preconceito é difícil em qualquer idade, mas é ainda mais complicado para crianças e adolescentes, que ainda não têm recursos internos para lidar com adversidades. Para piorar tudo, essa discriminação é manifestada, muitas vezes, por quem deveria proteger esses jovens dela: policiais e outras autoridades, quando não os próprios professores ou colegas de classe.

A família, que é o porto seguro nessa fase da vida, muitas vezes, fragilizada por esse racismo estrutural, não consegue oferecer o suporte necessário para os mais novos. Esses pais, mães, tios e irmãos mais velhos podem sofrido agressões, abusos, exclusões e preconceitos ao longo das suas próprias histórias pessoais. Ou seja: há motivos de sobra para temer a violência e a falta de oportunidades dos filhos mais novos.

Com o passar do tempo, crianças e jovens podem começar, sem se dar conta, a “introjetar” percepções de “inferioridade” ou “incapacidade”, geradas pelos preconceitos e pelo racismo estrutural, ao seu psiquismo. É como se, de forma inconsciente, a pessoa começasse a acreditar que ela não é capaz de conseguir alcançar seus objetivos ou assumir um papel de liderança. Esse mecanismo é reforçado diariamente por ela viver em uma sociedade que insiste em não permitir que esse espaço seja ocupado por pessoas iguais a ela.

Na live comigo e com o Dr. Dráuzio Varella, na semana passada, a psicóloga Ana Claudia da Silva, deu uma dimensão do problema: “Noventa por cento dos meus pacientes são negros e nesses 90%, eu encontro uma crença de incapacidade muito forte”, contou.

As consequências de todo esse processo a gente vê nas estatísticas sobre transtornos mentais e suicídio. Segundo cartilha publicada no ano passado pelo Ministério da Saúde, a cada 10 adolescentes que tiram a própria vida, seis são negros. Em 2016, adolescentes negros de 10 a 19 anos apresentaram um risco 67% maior de suicídio em relação a brancos da mesma faixa etária.

A tendência de autoagressão e suicídio é de crescimento, especialmente para os garotos e até entre as crianças, algo que algumas pesquisas norte-americanas também vêm apontando. Segundo dados publicados no periódico Pediatrics, as taxas de suicídio vem aumentando entre meninos negros de 5 a 12 anos – o risco, nessa faixa etária, é o dobro daquele observado em brancos. Como conclui outra pesquisa, da Universidade de Houston, a dor provocada pela discriminação é tão forte que supera o desejo de viver.

Com jovens de minorias sexuais, os mecanismos que afetam a saúde mental são muito semelhantes. Um dos maiores estudos já feitos sobre o tema, o The Trevor Project 2020, trouxe dados assustadores: 2 em cada 5 adolescentes LGBTQ+ pensaram seriamente em suicídio nos últimos 12 meses. Quase 70%, dos 40 mil entrevistados, reportaram sintomas de ansiedade generalizada, e quase metade se automutilou recentemente. Quando se considera apenas garotos e garotas transgênero, as proporções são ainda mais altas.

Também não posso deixar de citar os índices alarmantes de suicídios na população indígena. De acordo com o Ministério da Saúde, as taxas, entre adolescentes de 10 a 19 anos, são oito vezes maiores que a observada entre brancos e negros. Quem vive em reservas, comunidades, favelas, ou mesmo em cidades pequenas ou áreas rurais, tende a sofrer mais ainda: em casos de bullying ou abuso, não há como procurar outra turma ou mudar de escola.

Por isso, é urgente que o país adote políticas públicas efetivas de prevenção ao preconceito e discriminação nas populações de crianças e adolescentes socialmente excluídas, o que passa por uma discussão importante do papel das escolas na formação desses jovens. Além disso, projetos de capacitação de professores, autoridades e policiais para lidarem com a questão do racismo e homofobia são centrais. E, talvez mais importante do que tudo isso, é cada um de nós perceber e rever o papel que tem na manutenção do racismo estrutural e de outras formas de preconceito, e como tudo isso pode mudar esse cenário dramático da saúde mental de todos os nossos jovens. Faça sua parte!

*Texto extraído da Coluna do Dr. Jairo Bouer no UOL

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