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De volta às trevas

Jairo Bouer

14 de outubro


Cena 1: Externa, Comunidade Morrinhos, Guarujá (litoral de São Paulo)

Um site divulga um “suposto” retrato falado de uma “suposta” sequestradora de bebês, “supostamente” praticante de magia negra. Alguém na rua acredita que reconhece a mulher, que passa a ser agredida (multidão entra em frenesi histérico), a mulher é linchada e morre.

Cena 2: Externa, matagal, Frederico Westphalen (interior do Rio Grande do Sul)

Um menino que pede atenção e carinho. Um pai médico e distante. Uma tragédia familiar anterior (casamento desfeito que teria terminado com o “suposto” suicídio da mãe do garoto). Uma madrasta como não se via em filmes de contos de fadas e bruxas há muito tempo. Uma amiga da família que se presta a um serviço sujo. Um plano macabro. O garoto é levado de carro para uma cidade vizinha, recebe uma injeção letal e é enterrado em uma cova preparada dias antes em um matagal.

Cena 3: Externa, terreno próximo à Usina de Itaipu, Foz do Iguaçu (interior do Paraná)

Duas amigas de 15 e 18 anos levam uma terceira garota de 13 anos para uma emboscada. No meio do “suposto” passeio, quando estão distantes de tudo e de todos, elas começam a apedrejar a menor. A garota morre na hora. “Suposta” motivação: vingança e ciúme. O namorado de uma das garotas teria se envolvido com a vítima.

Infelizmente, cenas reais que foram notícia no último mês. Apenas uma pequena mostra de outras tantas que aconteceram neste ano e ganharam menos destaque e repercussão na mídia. Como explicar, do ponto de vista do comportamento humano, o que tem acontecido no Brasil, de forma tão aguda, nessas últimas semanas? O que significa essa onda de violência, muitas vezes com “requintes de crueldade”, que temos assistido quase sem trégua?

Parece haver, nas sucessivas tentativas de linchamento, um desejo de fazer justiça (ou injustiça) rapidamente e com as próprias mãos. Seria uma resposta à morosidade do nosso sistema judiciário ou à sensação de impunidade que impera em boa parte dos crimes no país? As pessoas parecem estar tão incrédulas com os poderes e as autoridades, que resolveram, elas próprias, decidir na base do aqui e agora. Mas, no calor da hora, no meio de comoções populares, a chance de incorrer em erros crassos é tremenda!

Por outro lado, as relações dentro de casa, em um mundo em que novos rearranjos familiares são cada vez mais comuns, podem se transformar em uma catástrofe para pessoas inseguras, com questões profundas de autoestima ou com distorções importantes de caráter e personalidade. Enxergar na criança (ou em outro membro da família) uma ameaça ou uma extensão de um antigo relacionamento do parceiro ou da parceira pode fazer com que essas pessoas cometam atos insanos.

Já os mais jovens parecem estar mais impulsivos, intolerantes, sem habilidade para dialogar, com falta de controle sobre suas reações e emoções e sem a menor preocupação com o impacto de suas atitudes. Parece que na hora do “vamos ver” se apagam todos os “botões” que comandam a razão. O resultado pode ser uma barbárie.

Dedico este texto aos Bernardos, às Fabianes e às Taíses que, sem saber por que geravam tanto ódio, raiva, ciúmes, intolerância, acabaram vítimas de pessoas que se tornaram criminosas da noite para o dia. Também imagino que está na hora de cada um de nós fazer uma reflexão profunda do que anda sentindo, fazendo e dizendo, já que são nossas ações individuais que podem moldar a cultura e nossa sociedade nas próximas décadas.

JAIRO BOUER TEM CONVICÇÃO DE QUE A MAIORIA DE NÓS NÃO TEM NENHUM INTERESSE EM QUE AS TREVAS VOLTEM A IMPERAR!

via Revista da Cultura

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