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Camisinhas e carimbos

Jairo Bouer

14/10/2019 19:15




Na última semana, o Shopping Iguatemi, de Brasília, proibiu a loja Imaginarium de exibir, em sua vitrine do dia dos namorados, um cenário de papelão que sugeria um casal namorando, de costas, em um sofá, com o homem segurando uma embalagem de camisinha em sua mão.

O layout da vitrine havia sido enviado ao departamento de marketing do shopping, que vetou a proposta, de acordo com matéria publicada no jornal Correio Braziliense. Durante o mês de junho, a loja fez parceria com uma marca de preservativos e, vai distribuir camisinhas como brindes para os clientes.

A importância de reforçar o uso do preservativo na prevenção das múltiplas doenças transmitidas pelo sexo e na proteção contra uma gravidez indesejada é indiscutível, ainda mais em um momento em que a camisinha tem uma perda de apelo importante junto aos mais jovens.

Aproximar essa discussão do universo emocional deles é fundamental. Assim, uma vitrine que dialoga com o dia dos namorados e, reforça a importância do cuidado e da prevenção é uma ação de merchandising social estratégica, que não merecia um julgamento conservador. Aliás, o layout, para quem quiser dar uma checada na internet, é absolutamente discreto e inofensivo!

Pior: aposto que se a cena sugerisse apenas o casal no sofá sem a menção do preservativo, não teria enfrentado maiores problemas. É como se no imaginário de quem avalia as vitrines a camisinha remetesse imediatamente à questão da sexualidade e, isso, por si só não caberia dentro do espaço de um shopping. Ou seja, campanha agressiva de dia dos namorados pode, falar de sexo nem pensar. Opa, namoro sem sexo? Em que mundo estamos vivendo mesmo?

O shopping teria visto conteúdo erótico na vitrine. Bom, se dois braços e três pernas de dois bonecos de papelão, vistos do ponto de vista do encosto de um sofá são pornográficos, a discussão fica difícil mesmo! E quem é que se choca hoje com a imagem de uma embalagem de camisinha?

Por falar em shopping centers, templos atuais de consumo e de lazer de boa parte da população brasileira, outro episódio que passou batido aqui na coluna, mas que merece um comentário, foi o carimbo de “avisado” nos ingressos para as sessões do filme Praia do Futuro na rede Cinépolis, do shopping Manaíra, em João Pessoa (PB).

A bilheteria do cinema estaria alertando o público do conteúdo com temática homossexual do filme e carimbando o ingresso de quem foi avisado. O procedimento teria sido adotado porque, em algumas sessões, várias pessoas deixaram o cinema durante a exibição.

No filme, Wagner Moura vive um salva-vidas que começa um romance com um motociclista alemão, que acaba de perder um amigo afogado na Praia do Futuro, em Fortaleza (CE). O personagem de Moura acaba migrando para Berlim e deixando para trás, sem aviso, um irmão pequeno (que o via como herói) e que, anos depois, vai tentar reencontrá-lo.

A situação me lembrou uma experiência que vivi em janeiro quando, voltando de uma viagem, passei dois dias em Dubai e, fui ao cinema tentar assistir O Lobo de Wall Street, com Leonardo DiCaprio. Na bilheteria, avisavam os clientes que o filme era muito longo e, por isso, havia sido cortado em mais de 40 minutos. Na verdade, os cortes eram as cenas que sugeriam sexo, ou, que faziam menção ao palavrão “Fuck” (“Foda-se”), que é falado nada menos do que 500 vezes, nos 180 minutos.

Dubai é uma cidade de um país de cultura muçulmana, em que leis rígidas regulam a vida das pessoas em relação ao sexo e ao comportamento. O Brasil, não! Cada indivíduo aqui tem que decidir o que ver e fazer.

Tentar regular filmes, livros ou materiais educativos que abordem a questão da orientação sexual ou proibir vitrines e campanhas que trabalhem proteção e prevenção não deveriam ser atribuições de ninguém, em um país que pretende, de fato, ter os dois pés no século 21. No momento em que assuntos como esse não gerarem tratamentos diferenciados ou posturas anacrônicas, estaremos dando passos à frente.

via Estadão

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