
Você é jovem e está angustiado às duas da manhã. Não quer acordar seus pais, não tem coragem de ligar para um amigo e talvez nem saiba exatamente o que está sentindo. Em vez disso, abre o celular e começa a conversar com um chatbot de inteligência artificial. A cena pode parecer futurista, mas já faz parte da realidade de milhões de jovens mundo afora.
Um levantamento recente do Instituto Rand, publicado na revista médica JAMA Pediatrics, mostrou que cerca de 19% dos jovens entre 12 e 21 anos nos EUA já recorreram a chatbots para obter orientação quando estavam tristes, ansiosos, nervosos ou estressados, um aumento importante em relação ao ano anterior. A maioria relatou ter considerado a ajuda útil, e quase dois terços não contaram a ninguém sobre esse uso.
O tema é importante porque toca em uma transformação silenciosa: os jovens não estão apenas usando IA para fazer trabalhos escolares ou buscar informação. Muitos estão usando essas ferramentas como confidentes, conselheiros emocionais e, em alguns casos, substitutos de terapia.
Um número crescente de adolescentes e jovens adultos está recorrendo a ferramentas de inteligência artificial para buscar apoio emocional, conselhos sobre relacionamentos, orientação diante de conflitos pessoais e até ajuda para lidar com sintomas de ansiedade ou tristeza. Em alguns casos, a IA funciona como uma espécie de diário interativo. Em outros, assume um papel mais próximo ao de um conselheiro ou terapeuta informal.
Não é difícil entender por quê. A inteligência artificial está disponível 24 horas por dia, responde imediatamente, não faz cara feia, não interrompe, não julga e não cobra por uma sessão. Para uma geração acostumada a resolver praticamente tudo pelo celular, conversar com um chatbot pode parecer mais natural do que procurar um profissional ou iniciar uma conversa difícil com alguém próximo.
Além disso, muitos jovens relatam sentir vergonha ou receio de expor seus problemas a outras pessoas. A sensação de anonimato oferecida pela tecnologia pode reduzir barreiras importantes. Em um momento histórico marcado por altos índices de sofrimento psíquico entre adolescentes e jovens adultos, qualquer ferramenta que amplie as possibilidades de acolhimento acaba despertando interesse.
Mas é justamente aí que começam as preocupações.
Uma inteligência artificial pode simular empatia. Pode produzir respostas acolhedoras. Pode até ajudar alguém a organizar pensamentos e emoções. O que ela não faz é compreender de fato o sofrimento humano.
Um terapeuta não oferece apenas respostas. Ele percebe nuances, observa mudanças de comportamento, identifica sinais de risco, considera o contexto familiar, cultural e social da pessoa e toma decisões baseadas em conhecimento clínico. A inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, trabalha essencialmente prevendo quais palavras têm maior probabilidade de vir em seguida.
Especialistas têm alertado para o risco de que alguns sistemas reforcem crenças equivocadas, validem determinados pensamentos ou deixem de reconhecer situações graves, como ideação suicida, episódios psicóticos ou transtornos mentais mais complexos. Há também a preocupação de que alguns usuários desenvolvam uma espécie de vínculo emocional intenso com essas ferramentas, especialmente em fases da vida marcadas pela busca de pertencimento e conexão.
Ao mesmo tempo, seria um erro tratar o fenômeno apenas como uma ameaça.
Talvez o dado mais relevante não seja o número de jovens que conversam com a inteligência artificial, mas o motivo pelo qual eles fazem isso.
Quando um adolescente prefere contar seus medos a um algoritmo em vez de procurar uma pessoa, a pergunta que precisamos fazer não é apenas o que a tecnologia está oferecendo. É o que está faltando nas relações humanas.
No Brasil, onde o acesso a serviços de saúde mental ainda é desigual e muitas famílias enfrentam dificuldades para encontrar atendimento especializado, a inteligência artificial acaba ocupando espaços vazios. Ela responde a uma demanda que já existia.
Por isso, talvez a discussão mais produtiva não seja escolher entre tecnologia e cuidado humano. O desafio é entender como essas ferramentas podem ser usadas de forma complementar, sem substituir aquilo que continua sendo insubstituível.
Uma conversa com um chatbot pode ajudar alguém a refletir, organizar ideias ou encontrar informações. Mas nenhuma tecnologia é capaz de reproduzir integralmente a experiência de ser ouvido, compreendido e acolhido por outro ser humano.
No fim das contas, a popularização da inteligência artificial na saúde mental talvez esteja nos dizendo menos sobre as máquinas e mais sobre nós mesmos. Sobre nossa necessidade de conexão, escuta e pertencimento — necessidades que continuam sendo profundamente humanas, e que parecem não estar encontrando suficiente espaço, disponibilidade e atenção.
* Dr. Jairo Bouer escreve semanalmente neste site
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr