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Tênis sujo em UBS do Maranhão: é urgente discutir que médico estamos formando

A formação médica não pode ser apenas técnica, pois o médico não lida apenas com doenças - iStock
A formação médica não pode ser apenas técnica, pois o médico não lida apenas com doenças - iStock

Na última semana um estudante de medicina teria ironizado, em uma postagem, o fato de precisar “sujar” seu tênis branco de marca suíça para entrar e fazer atendimentos em uma unidade de saúde em uma cidade do interior do Maranhão.

O post provocou indignação nas redes sociais e na população local, o que levou o prefeito a expor o aluno e romper o convênio de uso da UBS pela faculdade de medicina em que ele estuda.

Mas para além da indignação, a situação escancara um debate urgente sobre a formação médica no Brasil, especialmente quando tratamos da dimensão humana da profissão.

Para começar, fui checar a nota da faculdade citada no Enamed  (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), uma prova anual que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade do ensino. Ao todo, 351 cursos foram avaliados e 30% estão na faixa considerada insatisfatória, incluindo a instituição que atendia a UBS, que recebeu conceito 2 (em uma escala que vai de 1 a 5). Em quem se pese algumas ponderações sobre a primeira edição desse exame, nota 2 não é uma boa marca!

As instituições com conceito 1 ou 2 no exame estarão sujeitas a penalidades. Cursos com conceito 2 terão redução de vagas para ingresso. Já aquelas com conceito 1 terão suspensão total do ingresso de novos estudantes. Os resultados também podem impactar o FIES (financiamento estudantil). Levantamentos indicam que 47% das matrículas financiadas pelo FIES estavam em cursos com baixo desempenho no Enamed.

Apesar do desempenho insatisfatório, a mensalidade dos cursos de medicina dessa faculdade pode chegar a mais de R$ 13 mil reais.

A universidade informou que o estudante foi afastado enquanto apura o episódio. Até o momento, o aluno não havia se manifestado publicamente. A mãe e o pai dele, em uma rede social, afirmaram que o filho se expressou de maneira equivocada, pediu desculpas a quem se sentiu ofendido e disse que a crítica seria direcionada à estrutura ao redor da unidade de saúde.

Independentemente da intenção da postagem, o episódio revela algo maior e mais profundo: a dificuldade que parte dos futuros médicos parece ter em compreender a realidade social das pessoas que irão atender.

Quem paga tanto por um curso e pode comprar um tênis suíço talvez não consiga  perceber o abismo socioeconômico que existe entre quem atende e quem busca alguma forma de suporte em uma UBS.

Não é raro que jovens oriundos de famílias de alta renda tenham pouco ou nenhum contato prévio com populações vulneráveis, periferias urbanas, cidades pequenas ou regiões marcadas pela precariedade estrutural. Quando esse encontro acontece — e ele inevitavelmente acontece durante a formação médica — surgem choques culturais importantes.

Mas é justamente aí que deveria entrar a universidade.

A formação médica não pode ser apenas técnica. Saber diagnosticar, prescrever ou interpretar exames é fundamental, claro. Mas medicina também exige escuta, respeito, capacidade de acolhimento e compreensão das desigualdades sociais que atravessam a vida dos pacientes. Um médico não lida apenas com doenças; lida com pessoas frequentemente assustadas, vulneráveis e dependentes de cuidado.

Para além da vulnerabilidade social, o próprio fato da pessoa estar fragilizada por uma questão de saúde cria uma demanda por empatia, que muitas vezes esses alunos não conseguem alcançar. Mas como se sabe, embora empatia não nasça com a gente, ela é uma habilidade socioemocional que pode ser aprendida ao longo da vida. Se não em casa, na escola, na faculdade ou no trabalho.

Isso não significa, evidentemente, que todos os estudantes dessas instituições reproduzam esse tipo de comportamento — seria injusto e simplista fazer essa generalização. Mas o caso serve como sinal de alerta.

Por isso a importância de não deixar de lado a formação humanística em medicina. O aluno não vai ao posto de saúde ou a UBS apenas para cumprir a carga horária de uma disciplina em medicina preventiva ou saúde da família. A ideia, se o curso é bom e se o aluno consegue olhar para além do seu guarda-roupa, é entender uma realidade diferente da sua, poder se sensibilizar com os determinantes sociais em saúde e aprender a ser, no mínimo, empático.

Tudo bem que ele chegue em casa, depois do atendimento e tome banho com sabonetes e xampus caros, que ele saia para beber com os colegas e gaste em uma noite o que seu paciente talvez não receba no mês, que ele use os tênis suíços que quiser, mas que ele consiga entender que o mundo vai bem além da bolha em que ele vive.

Só assim, a gente consegue um médico melhor, mais empático, mais humano. Não bastam salas sofisticadas de aprendizado virtual, procedimentos em robôs e simuladores de alta tecnologia e horas e horas de materiais gravados e disponibilizados pelos melhores médicos do mundo, se ele não conseguir entender o básico em um atendimento, que é ouvir atentamente  a queixa do paciente, fazer uma boa avaliação (anamnese), usar seu raciocínio clínico, aprender com seus mestres, e ter a humildade de buscar ajuda com colegas quando não tiver certeza do seu diagnóstico e conduta.

É preciso discutir seriamente qual médico estamos formando. Em um cenário de alta concentração de renda e de uma abismo de desigualdade social entre estudantes de medicina e seus pacientes, de uma geração de futuros médicos que perde tanto tempo postando conteúdos inúteis nas redes (o que acrescenta para a sociedade se alguém vai ou não sujar um tênis para ir trabalhar na UBS?), resta o desafio às faculdades de medicina e ao seus alunos de produzir médicos melhores. Arrisco dizer que com esse enfoque até as notas do Enamed devem melhorar. E a sociedade agradece!

Se a universidade falha em estimular uma visão humanista da profissão, se não promove reflexão ética consistente e se não cria espaços de contato respeitoso com realidades diferentes, corremos o risco de produzir profissionais altamente treinados do ponto de vista técnico, mas emocionalmente despreparados para lidar com a complexidade humana do cuidado em saúde.

A medicina é uma profissão delicada porque trabalha diretamente com sofrimento, expectativa e vida. Isso exige responsabilidade também fora do consultório e dos hospitais — inclusive nas redes sociais.

Talvez este episódio possa servir, ao menos, como oportunidade de reflexão. Para os estudantes, sobre privilégios, respeito e responsabilidade. Para as instituições, sobre o tipo de formação que oferecem. E para a sociedade, sobre a necessidade urgente de valorizar não apenas o conhecimento técnico, mas também a dimensão ética e humana da medicina.

Dr. Jairo Bouer

Dr. Jairo Bouer

Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr