
É cada vez mais comum encontrar pessoas tatuadas. Pequenas ou grandes, discretas ou cobrindo boa parte do corpo, as tatuagens deixaram de ser uma marca associada a determinados grupos e passaram a fazer parte da paisagem cotidiana — especialmente entre adultos jovens.
Nos Estados Unidos, uma pesquisa do Pew Research Center mais de 8.400 adultos mostrou que 32% têm pelo menos uma tatuagem. Entre os menores de 30 anos, são 41%, e entre aqueles de 30 a 49 anos, 46%. Entre mulheres de 18 a 29 anos, a proporção chega a 56%. (Pew Research Center)
Não temos, no Brasil, uma pesquisa nacional recente com metodologia comparável que permita dizer quantos brasileiros são tatuados. Mas basta observar as ruas, as academias, as praias e as redes sociais para perceber como a tatuagem se tornou popular.
Com essa popularização, surge uma pergunta importante: até que ponto tatuar a pele é apenas uma escolha estética e até que ponto pode trazer consequências para a saúde? Uma reportagem recente do New York Times chamou atenção para os cuidados necessários antes e depois de uma tatuagem e as dúvidas que ainda existem sobre os efeitos de longo prazo dos pigmentos introduzidos na pele.
Isso não significa que tatuagem seja perigosa ou que quem tem uma deva se preocupar. Mas também não é correto pensar que se trata de um procedimento puramente estético, sem nenhum risco biológico. A pele é rompida, substâncias são introduzidas no organismo e podem ocorrer complicações.
Uma tatuagem envolve milhares de pequenas perfurações na pele. Por isso, existe risco de infecção quando não há cuidados adequados com higiene, esterilização dos equipamentos e manipulação das tintas. O problema não está apenas na agulha ou no equipamento. A própria tinta pode estar contaminada.
A FDA, agência reguladora americana, já identificou tintas de tatuagem contaminadas com bactérias capazes de provocar infecções. Em alguns casos, a contaminação pode ocorrer mesmo em frascos lacrados. A utilização de água não estéril para diluir pigmentos também é apontada como uma possível fonte de contaminação.
Uma infecção pode provocar vermelhidão, dor, inchaço, secreção e dificuldade de cicatrização. Nos casos mais graves, pode haver febre, calafrios e necessidade de tratamento com antibióticos, hospitalização ou até cirurgia.
Por isso, escolher um profissional qualificado e um estabelecimento que siga normas de higiene e esterilização não é um detalhe. É parte fundamental da segurança.
Outro problema possível são as reações alérgicas ou inflamatórias aos pigmentos.
A pele pode apresentar coceira, vermelhidão, descamação, pequenas elevações ou nódulos. E existe um detalhe que muitas pessoas desconhecem: algumas reações podem surgir não apenas nos primeiros dias, mas meses ou até anos depois da tatuagem.
Nem sempre é simples identificar o que está acontecendo. Uma reação alérgica pode se parecer inicialmente com uma infecção, por exemplo. Algumas cores aparecem com maior frequência nos relatos de reações, mas isso não significa que uma determinada cor seja necessariamente segura ou perigosa. Qualquer pigmento pode provocar uma resposta do organismo.
Por isso, uma tatuagem que permanece muito vermelha, coçando, inchada ou com lesões que não desaparecem merece avaliação médica.
Existe ainda uma questão importante para quem tem muitas tatuagens: elas podem tornar mais difícil perceber algumas alterações que surgem na pele.
Uma pinta, um nódulo ou uma lesão que apareça dentro de uma área tatuada pode ficar parcialmente escondida pelos pigmentos. Isso não significa que tatuagens provoquem câncer de pele, mas reforça a importância de observar a pele e procurar um dermatologista quando alguma alteração surgir ou mudar de aspecto.
Além disso, o trauma provocado pela tatuagem pode, em algumas pessoas, estar associado ao aparecimento ou agravamento de determinadas doenças inflamatórias da pele.
Ou seja: não basta cuidar da tatuagem enquanto ela cicatriza. É importante continuar prestando atenção àquela região ao longo do tempo.
Talvez essa seja a questão que mais desperta preocupação e, também, aquela em que precisamos ter mais cuidado para não transformar hipótese em certeza.
Alguns estudos levantaram a possibilidade de uma associação entre tatuagens e determinados tipos de câncer, especialmente tumores do sistema linfático. Uma das explicações investigadas é que partículas dos pigmentos podem migrar da pele para os linfonodos, onde podem permanecer por muito tempo. Mas encontrar pigmento nos linfonodos não significa, por si só, que ele esteja causando doença.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em junho de 2026 reuniu sete estudos observacionais, com 140.841 participantes. Na análise principal, os pesquisadores não encontraram associação estatisticamente significativa entre ter tatuagem e câncer de pele nem entre tatuagem e câncer hematológico. Portanto, hoje não é possível afirmar que tatuagens causem câncer.
Ao mesmo tempo, ainda existem perguntas sem resposta sobre os efeitos de longo prazo de determinados pigmentos e de outras substâncias presentes nas tintas (metais pesados, por exemplo). A própria FDA ressalta que ainda há muito a ser esclarecido sobre o comportamento desses componentes no organismo ao longo dos anos.
Para quem decidiu fazer uma tatuagem, algumas medidas simples ajudam a diminuir bastante os problemas.
Antes do procedimento, vale escolher um profissional experiente e um estabelecimento que siga boas práticas de higiene e esterilização. Agulhas devem ser descartáveis e abertas na frente do cliente. Equipamentos reutilizáveis precisam ser adequadamente esterilizados, e as tintas devem ter procedência conhecida.
Também não é uma boa ideia tatuar sobre uma área da pele que esteja machucada, inflamada ou infectada.
Depois, é importante seguir as orientações de cuidado fornecidas pelo profissional, manter a região limpa e protegê-la adequadamente do sol.
E atenção aos sinais de alerta: dor ou vermelhidão que pioram em vez de melhorar, secreção, lesões persistentes, febre ou calafrios justificam uma avaliação médica.
Tatuagem pode ser uma forma de expressão, memória, identidade ou simplesmente uma escolha estética. A questão não é demonizar uma prática que se tornou extremamente comum. Mas, justamente porque ela se popularizou tanto, vale lembrar que tatuar não é apenas desenhar sobre a pele: é um procedimento que rompe a barreira da pele e introduz pigmentos no organismo.
Conhecer os riscos, escolher onde e com quem fazer e ficar atento a alterações ao longo do tempo são maneiras simples de aproveitar a tatuagem com mais segurança.
Jairo Bouer escreve semanalmente neste site.
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr