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Rolar o feed após estudar pode atrapalhar sua memória

Fazer uma pausa sem tela é fundamental para assimilar novas informações - iStock
Fazer uma pausa sem tela é fundamental para assimilar novas informações - iStock

Redação Publicado em 31/03/2026, às 10h00

Nunca tivemos tanto acesso a tanta informação. Esse excesso de conteúdo que recebemos graças à internet móvel tem levantado questões sobre a capacidade da memória humana de lidar com uma enxurrada tão grande de novos estímulos.

Embora muita gente imagine que quanto mais consumimos, mais devemos reter informação, pesquisas sugerem que o cérebro precisa de pausas regulares para digerir adequadamente o que consome.

Os chamados “estados offline” — quando a pessoa não está pensando em muita coisa e sua atenção pode vagar livremente — dão ao cérebro a oportunidade de revisitar e processar experiências recentes, explica Erin Wamsley, neurocientista cognitiva da Universidade Furman, na Carolina do Sul (EUA), em entrevista à revista Time.

Grande parte desse processamento ocorre em nível inconsciente, então não percebemos que está acontecendo. Mas se não dermos ao cérebro essas pausas de vez em quando, nossa capacidade de lembrar e dar sentido ao que aprendemos pode ser prejudicada.

“As pessoas geralmente não percebem que o cérebro está fazendo algo muito importante quando não estão fazendo nada”, diz Wamsley. “Mas esse processamento offline é um aspecto crucial da memória.”

Por que fazer pausas

O tempo livre sem estímulos já foi uma característica inevitável da vida. Porém, na era dos AirPods e da reprodução automática, ficar sem consumir conteúdo novo é cada vez mais opcional.

Para Michael Craig, professor assistente e pesquisador de memória na Universidade de Northumbria, no Reino Unido, estamos nos afastando dos períodos naturais de descanso que permitem ao cérebro consolidar  novas memórias. 

Quando acadêmicos como Craig falam em “consolidação” da memória, eles não se referem apenas à memorização mecânica de fatos e números. Sempre que absorvemos novas informações — seja um trecho de notícias, uma interação com um colega de trabalho ou algo estudado para uma prova — nossa mente tenta integrar essas informações aos seus bancos de memória existentes de forma que possamos fazer conexões significativas, desenvolver uma compreensão mais profunda e gerar novos insights.

O cérebro também usa esses momentos de descanso para descartar informações que considera inúteis ou irrelevantes. Dessa forma, se preenchermos todos os momentos de inatividade com conteúdo estimulante, podemos privar o cérebro do tempo e do espaço necessários para realizar essas funções importantes de armazenamento e interpretação.

Descanso após aprendizado

Em algumas de suas pesquisas, ele e seus colegas descobriram que, quando as pessoas descansavam em silêncio por 10 minutos após uma tarefa de aprendizagem, sua memória para as novas informações — especialmente a capacidade de lembrar detalhes finos e distinguir o que aprenderam de conteúdos semelhantes — era significativamente melhor em comparação com um segundo grupo que não fez pausa e passou diretamente para outra tarefa.

Esse resultado reflete muitos estudos relacionados — com humanos e animais — que mostram que privar indivíduos de descanso após o aprendizado leva a pior retenção, erros de recordação e dificuldade em aprender com erros passados.

“Parece que nossas atividades diárias ajudam a determinar o destino das novas memórias”, diz Craig. “Se somos expostos a novas informações de forma contínua, sem esses períodos de descanso que antes faziam parte da vida, isso pode ter um efeito prejudicial na nossa capacidade de formar e fortalecer novas memórias.”

Além dessas questões, pesquisas sobre memória também revelaram um “viés de recência”, que pode ter consequências para aqueles que recorrem a um dispositivo assim que têm um momento livre.

Segundo Brad Pfeiffer, neurocientista da Faculdade de Medicina da Universidade do Texas Southwestern, alguns dos processos que nos ajudam a reter novas informações tendem a priorizar aquilo que encontramos mais recentemente.

Então, digamos que, sempre que você termina de estudar, pega o celular e rola o TikTok”, diz ele. “Se esses vídeos do TikTok são a última coisa que você costuma ver antes de fazer uma pausa, então podem ser eles que sua memória vai reproduzir e reter, em vez do seu dever de casa ou do que você estava fazendo antes de pegar o celular.”

Como fazer uma pausa mental

Embora todas essas pesquisas sugiram que um pouco de descanso cognitivo — talvez especialmente logo após aprender ou vivenciar algo importante — pode ajudar a memória e suas funções essenciais, os especialistas dizem que ainda não está claro quanto descanso é ideal, nem exatamente como ele deve ser.

Até agora, estudos indicam que 10 ou 20 minutos de descanso silencioso, com os olhos fechados, podem melhorar a memória de informações recém-adquiridas. Mas Craig afirma que “micropausas” muito mais curtas — de alguns minutos ou até segundos — também podem trazer benefícios semelhantes.

Além disso, embora os pesquisadores frequentemente estudem o efeito de ficar sentado ou deitado em silêncio, há evidências de que tarefas rotineiras ou atividades que não exigem muito esforço mental — como dobrar roupas ou caminhar — também podem oferecer ao cérebro o tipo de descanso com poucos estímulos necessário para consolidar o aprendizado.

Wamsley diz que as atividades que favorecem o processamento de informações e a consolidação da memória provavelmente variam de pessoa para pessoa e dependem muito de como a mente se comporta nesses momentos.

“Se as pessoas usam as redes sociais para ‘desligar’ e mal prestam atenção ao que estão vendo, isso pode até ser compatível com a consolidação da memória”, explica. Por outro lado, ela afirma que meditação, resolução de problemas e outras tarefas cognitivas que exigem foco deliberado e esforço provavelmente interferem nesse processo offline.

Em outras palavras, dar um descanso à mente não significa apenas fazer uma pausa de conteúdos envolventes; também significa deixar de lado as “tarefas mentais” que as pessoas assumem no tempo livre para se aprimorar ou ser mais produtivas.

Isso significa que fazer uma pausa mental não é perda de tempo, como muita gente imagina. Na verdade, os especialistas dizem que estar com a mente sempre ocupada e ativa pode ter efeito prejudicial no aprendizado e na memória. 

Fonte: Time