
Há uma pergunta que talvez nunca tenha sido tão difícil para pais, professores e escolas: como educar crianças e adolescentes em um mundo em que as principais ferramentas de distração, informação e entretenimento também estão dentro da sala de aula?
Nos últimos anos, o celular entrou definitivamente na rotina dos jovens. Depois vieram as redes sociais, com seus vídeos curtos, notificações e algoritmos capazes de disputar a atenção durante praticamente todo o dia. Agora, temos a inteligência artificial, que pode explicar uma matéria em segundos, escrever um texto, resolver uma equação e produzir respostas para praticamente qualquer pergunta.
A tecnologia prometia facilitar o aprendizado. Mas estamos começando a descobrir que, dependendo de como é utilizada, ela também pode dificultá-lo.
Um estudo recente publicado na Nature Human Behaviour acompanhou mais de 5 mil estudantes do norte da Itália e encontrou uma associação interessante: aqueles que entraram mais cedo nas redes sociais apresentaram, anos depois, desempenho pior em matemática e no idioma materno. Quanto mais cedo começava a utilização, maior tendia a ser a diferença.
Os pesquisadores não dizem que simplesmente abrir uma conta em uma rede social provoca queda nas notas. O estudo não mediu, por exemplo, exatamente quanto tempo cada jovem passava conectado nem quais conteúdos consumia. Mas encontrou uma associação consistente e levantou possíveis mecanismos: interrupções constantes da atenção, sobrecarga cognitiva e prejuízo do sono.
Talvez não seja apenas quanto tempo uma criança passa diante da tela. Talvez importe também quando ela começa, o que faz nesse ambiente e o quanto esse uso invade outras áreas da vida.
No Brasil, temos uma experiência recente que oferece outro dado interessante. Desde 2025, o país passou a restringir o uso de celulares nas escolas. A medida não significa simplesmente banir a tecnologia da educação: a proposta é impedir o uso excessivo e descontextualizado e preservar a possibilidade de utilização pedagógica dos dispositivos.
Uma pesquisa realizada após a implantação das restrições mostrou que 83% dos estudantes disseram prestar mais atenção às aulas e 60% perceberam redução das distrações e interrupções. Professores e gestores também relataram melhora no ambiente escolar.
Uma aula compete hoje não apenas com a conversa do colega ao lado. Compete com uma mensagem que acabou de chegar, um vídeo de 30 segundos, uma partida de jogo, uma postagem, uma notificação ou a expectativa de que alguma coisa interessante possa acontecer na tela a qualquer momento. Aprender exige atenção. E atenção exige algum grau de proteção contra a distração. Talvez uma das grandes descobertas dessa experiência seja justamente essa: em determinados momentos, para conseguir usar melhor a tecnologia, precisamos aprender a ficar sem ela.
Se o celular e as redes sociais já haviam criado um desafio enorme para a escola, a inteligência artificial acrescenta uma nova camada à discussão. Um estudo com cerca de 25 mil estudantes chineses, divulgado recentemente, encontrou desempenho pior nas provas entre aqueles que utilizavam ferramentas de IA, com uma diferença de aproximadamente 20% nas notas em comparação com estudantes que não utilizavam essas ferramentas.
O dado chama a atenção, mas é preciso evitar uma conclusão simplista: a inteligência artificial não necessariamente prejudica o aprendizado. O problema pode estar na maneira como ela é usada. Existe uma diferença enorme entre perguntar à IA “qual é a resposta?” e pedir que ela explique um conceito, faça perguntas, apresente diferentes caminhos para resolver um problema ou ajude o estudante a identificar onde está errando.
No primeiro caso, a tecnologia pode substituir o esforço intelectual. No segundo, pode funcionar como uma espécie de tutor. E existe um problema adicional: os próprios jovens ainda estão aprendendo a fazer essa distinção.
Um levantamento recente com estudantes brasileiros mostrou que 71% acreditam que a IA ajuda na compreensão dos conteúdos, mas apenas 5% receberam orientação formal de suas instituições sobre como utilizá-la. Quatro em cada dez disseram nunca ter recebido qualquer orientação.
Ou seja, estamos colocando uma ferramenta extremamente poderosa nas mãos de uma geração que ainda está aprendendo a estudar — e, muitas vezes, sem ensinar como utilizar essa ferramenta sem terceirizar o próprio pensamento.
Durante muito tempo, educar significava transmitir conhecimentos e conteúdos. Hoje, a informação está disponível em abundância. O desafio passou a ser outro: ensinar a selecionar, questionar, interpretar e transformar informação em conhecimento.
Isso exige habilidades que não podem ser terceirizadas para uma máquina. É preciso aprender a ler um texto inteiro, mesmo quando um resumo está disponível. Fazer uma conta, mesmo quando a calculadora resolve em segundos. Escrever um argumento, mesmo quando a IA pode produzir um parágrafo em poucos instantes. Conversar com outra pessoa sem olhar para uma tela. Esperar. Frustrar-se. Tentar de novo. São justamente essas experiências aparentemente pouco eficientes que ajudam a construir autonomia intelectual.
E existe uma contradição interessante nisso tudo. Nunca tivemos tantas ferramentas para facilitar o aprendizado. E, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão necessário ensinar os jovens a lidar com a dificuldade, a atenção, a concentração e o esforço que aprender exige.
Seria um erro imaginar que a solução é simplesmente retirar a tecnologia da vida dos jovens. A escola precisa ensinar tecnologia porque ela fará parte do futuro profissional, acadêmico e social dessa geração. A inteligência artificial já está aí. As redes sociais também. O celular faz parte da vida cotidiana.
A questão não é criar uma geração desconectada. É criar uma geração capaz de se conectar sem perder a capacidade de desconectar. Uma criança que nunca aprende a ficar alguns minutos sem estímulo pode ter dificuldade de desenvolver concentração. Um adolescente que sempre pede à IA para escrever pode ter dificuldade em construir o próprio raciocínio. Um estudante que consulta o celular a cada intervalo pode perder oportunidades de conversar, brincar, negociar conflitos e simplesmente estar com outras pessoas.
Talvez o grande desafio da educação contemporânea seja justamente ensinar que nem tudo que a tecnologia consegue fazer precisa ser feito por ela. Porque, no fim das contas, educar continua sendo ensinar alguém a pensar. E talvez essa seja justamente a habilidade que mais precisamos proteger em uma época em que as máquinas estão ficando cada vez melhores em pensar — ou, pelo menos, em parecer que pensam — por nós.
*Jairo Bouer escreve semanalmente nesse site.
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr