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Prevenção de álcool e drogas nas escolas ficou no limbo

Jairo Bouer

2 de março


Estamos no “vazio” no que se refere a políticas de prevenção a drogas no Brasil. A conclusão é de uma auditoria, divulgada recentemente pelo Tribunal de Contas da União (TCU)), que aponta uma série de falhas de planejamento nos últimos anos.

Dntre os diversos problemas apontados pelo TCU, o que me chama mais atenção é a ausência de uma abordagem sobre o tema nas escolas. Havia a determinação de incluí-lo no currículo dos cursos de ensino superior e magistério, e também no currículo escolar. Mas todas essas promessas ficaram no limbo.

O decreto 7.179/2010 previa capacitar 210 mil educadores em quatro anos, mas foram ofertadas somente 176 mil vagas. Segundo o TCU, não foi demonstrado que esses profissionais concluíram o curso. Mesmo se tiverem concluído, esse total representa apenas 7% do universo de 2,5 milhões de professores em atuação no país. O documento menciona que, nesse ritmo, seriam necessários 57 anos para que todos os educadores fossem preparados para orientar seus alunos corretamente sobre o uso indevido de drogas.

A gente sabe que, em muitas comunidades, os professores têm receio de falar sobre drogas em sala de aula. Sem um suporte direto do poder público, e, claro, sem conhecimento metodológico, não há como fazer isso. Muitas vezes, os professores passam mais tempo com os jovens do que os pais. Dessa forma, costumam ser os primeiros a perceber mudanças de comportamento. Essa habilidade, somada à boa comunicação dos docentes com as famílias, pode mudar o destino de um jovem.

Segundo o TCU, ao ser abordado o Ministério da Educação alegou que a prevenção ao uso de drogas é algo que faz parte do Programa Saúde na Escola (PSE), ligado ao Ministério da Saúde. O PSE prevê visitas das equipes aos estabelecimentos para falar de diversos temas, como obesidade, drogas, saúde bucal e prevenção de ISTs, entre outros. Mas a única ação obrigatória, pelo que foi apurado, era a educação sobre o mosquito da dengue.

Ainda que houvesse algum evento paralelo nas escolas para falar sobre os riscos oferecidos pelas drogas, não faz sentido que um tema tão importante seja discutido sem o envolvimento direto dos professores, que são os profissionais que estão todos os dias com os alunos. Sem um programa consistente no currículo, também é impossível preparar os adolescentes para lidar com as tentações que, sem dúvida nenhuma, vão aparecer nas baladas e na convivência com os colegas.

Eu vou além, e digo que é preciso priorizar muito mais a questão do álcool com os estudantes. Segundo o IBGE, o percentual de jovens que usaram drogas ilícitas passou de 8,7% para 9% entre 2009 e 2015. Já a proporção de adolescentes que havia ingerido álcool, em 2015, foi de 55,5%. Essa droga lícita está na casa de todo mundo, e não é incomum que seja oferecida aos jovens pelos seus próprios familiares. Se você passou perto de algum bloco no último Carnaval, com certeza viu uma porção de gente fazer coisas que jamais pensaria em fazer em público se não estivesse sob efeito do álcool.

Uma análise recente divulgada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) revela que o número de internações e mortes de pessoas com mais de 55 anos por causa do consumo de bebida aumentou 6,9% e 6,7% no período de 2010 a 2016. Os danos da substância ao organismo, assim como a dependência, são algo que não acontece de um dia para o outro. Um programa de prevenção que não leve em conta a educação nas escolas jamais será eficaz. A consequência pode ser um buraco sem fundo nos cofres públicos, que já estão minguados.

O TCU deu o prazo até 1º abril para que o Ministério da Justiça envie o Plano Nacional de Políticas sobre Drogas. Vamos torcer para que algo de concreto seja feito para conscientizar os jovens não só sobre os danos das drogas ilícitas, mas também, e principalmente, sobre os riscos de se abusar de substâncias de mais fácil acesso, como bebida alcoólica.

*Do blog do Jairo no UOL

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