
O que faz um homem querer aumentar o pênis? A resposta parece óbvia: querer um pênis maior. Mas, de perto, a história é bem mais complexa. Duas notícias recentes ajudam a entender esse fenômeno. De um lado, Michael Phillips, um americano de 38 anos, que afirma ter um dos menores pênis do mundo, acaba de passar por um procedimento para aumentar o tamanho do órgão. De outro, uma matéria recente da BBC mostra que tem crescido a procura de homens por preenchimento peniano, mesmo entre aqueles que não têm necessariamente um problema médico.
No caso de Phillips estamos diante de uma situação diferente. Ele relata ter um pênis de cerca de 1 cm em ereção e recebeu o diagnóstico de micropênis em 2024. Segundo ele, o tamanho do órgão trazia dificuldades não apenas para a vida sexual, mas também para urinar e até para as atividades cotidianas. O procedimento, portanto, tinha uma dimensão funcional e não apenas estética.
Aí que assunto começa a ficar interessante. Porque o preenchimento peniano não está sendo procurado apenas por homens com uma condição médica. A reportagem da BBC mostra homens que querem aumentar a circunferência, melhorar a simetria ou simplesmente se sentir mais confiantes com o próprio corpo.
Talvez porque, para muitos homens, o pênis nunca tenha sido apenas uma parte do corpo. Desde muito cedo, garotos aprendem, de maneira explícita ou silenciosa, que o tamanho do pênis estaria relacionado à masculinidade, potência, virilidade e capacidade sexual. Comparações no banheiro, piadas entre amigos, comentários sobre o corpo e, mais recentemente, pornografia e redes sociais ajudam a construir essa régua imaginária.
A pornografia apresenta corpos selecionados justamente por serem fora da curva. As redes sociais fazem algo parecido com outros atributos físicos: músculos, abdômen, cabelo, pele, altura. O corpo masculino também entrou definitivamente na lógica da performance e da comparação.
Talvez essa seja uma das grandes mudanças das últimas décadas. Durante muito tempo, falamos sobre a pressão estética sofrida pelas mulheres. Mas os homens também passaram a viver sob uma cobrança cada vez maior para ter o corpo “certo”. Só que, no caso deles, existe uma diferença importante: muitos ainda têm enorme dificuldade de falar sobre insegurança corporal.
Um homem pode admitir que está incomodado com a barriga, com a calvície ou com os músculos. Mas dizer que não gosta do próprio pênis costuma ser muito mais difícil. É nesse terreno de insegurança que aparece uma indústria de procedimentos íntimos masculinos.
O ácido hialurônico, por exemplo, é usado para aumentar temporariamente a circunferência do pênis. Segundo a reportagem da BBC, alguns profissionais falam em ganhos de 10% a 20% na circunferência por um período de seis a nove meses. Mas existe uma questão fundamental: o fato de um procedimento ser possível não significa que ele seja necessariamente seguro, necessário, ou indicado para todo mundo. Os riscos incluem dor, hematomas, irregularidades, infecção e, em situações mais graves, lesões de vasos sanguíneos e necrose. A Associação Britânica de Cirurgiões Urológicos analisou 36 estudos envolvendo 3.750 homens e concluiu que ainda existem muitas incertezas sobre a segurança desses procedimentos, especialmente no longo prazo.
Um ponto essencial é que muitas vezes a questão está menos no pênis e mais na cabeça. E aí entramos no território da percepção corporal. Não é raro encontrar homens que, mesmo tendo um pênis absolutamente normal, acreditam que ele é pequeno. Nessas situações, aumentar o pênis pode não resolver a insegurança. O homem pode passar a monitorar ainda mais o próprio corpo, medir, comparar, procurar defeitos e acreditar que sempre falta alguma coisa.
Mas será que tamanho importa? Para a maioria dos homens, o prazer sexual, a qualidade da ereção, a intimidade, a comunicação com a parceira e o conhecimento do próprio corpo têm um peso muito maior na experiência sexual do que alguns centímetros a mais ou a menos.
Talvez o desafio da saúde sexual não seja simplesmente dizer aos homens “não aumente o pênis”. É ajudá-los a entender por que querem aumentá-lo. Se existe um desejo estético, é importante conhecer os limites, as evidências e os riscos.
E se existe sofrimento porque o homem acredita que seu pênis determina seu valor, sua masculinidade ou sua capacidade de dar ou sentir prazer, talvez a primeira intervenção não deva ser uma seringa e, sim, uma boa conversa.
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr