
Nos últimos dias, a morte do cão comunitário Orelha, em Santa Catarina, mobilizou moradores, protetores e redes sociais. O caso envolve maus-tratos e um animal encontrado ferido, vítima de tortura e espancamento que precisou ser sacrificado. Os suspeitos do crime são adolescentes de classe alta de Florianópolis. A morte não chocou apenas pela perda de uma vida, mas pela brutalidade envolvida.
Infelizmente, a violência contra animais não é um fenômeno raro. Para o terapeuta João Ribeiro, o que torna alguns casos mais visíveis do que outros é a repercussão midiática, não a exceção do ato. “Em diferentes partes do mundo, situações semelhantes ocorrem diariamente sem ganhar atenção. Isso levanta uma pergunta necessária: por que a indignação aparece em alguns momentos e se cala em tantos outros?”
“Ao mesmo tempo, é inevitável questionar por que, mesmo diante de tamanha indignação, ainda estamos tão distantes de uma realidade na qual existam mecanismos mais claros não apenas de punição, mas sobretudo de proteção aos animais”, comenta a psicoterapeuta e pesquisadora Renata Roma.
A psicóloga Juliana Sato afirma que a comoção é esperada, e que não se trata de algo superficial. Isso porque quando a violência atravessa um vínculo tão cotidiano, ela não atinge apenas um corpo. “Ela desorganiza um território afetivo inteiro. Quando um animal faz parte da rotina de um lugar, ele deixa de ser um detalhe e vira presença. É visto, reconhecido, lembrado, cuidado de pequenas formas por pessoas diferentes ao longo do dia. O vínculo, nesse caso, não nasce da posse, nasce da convivência. Aos poucos, aquele animal se torna parte da paisagem emocional do bairro, uma referência silenciosa de familiaridade e pertencimento”, explica.
Para Ribeiro, do ponto de vista espiritual, os animais não são objetos nem seres descartáveis. São consciências em processo de aprendizado, assim como os seres humanos: “A relação que muitos desenvolvem com eles revela uma conexão profunda, que vai além da posse ou do afeto superficial. Negar essa dimensão é reduzir a própria noção de vida”.
Vários pesquisadores ao longo das últimas décadas têm feito a mesma pergunta e alguns fatores parecem ter um impacto importante na forma como reagimos a tais atos de violência. Renata explica que empatia por seres vulneráveis ativa reações emocionais fortes. Os animais, principalmente os domésticos, de acordo com uma pesquisa publicada em 2023 na Frontiers in Psychology, tendem a ativar reações empáticas intensas.
Isso se deve, parcialmente, à percepção de que são seres vulneráveis com os quais compartilhamos várias características. “Muitas pessoas reconhecem a capacidade de sentir e pensar dos animais, aumentando a sensação de conexão emocional e empatia. Esse reconhecimento intensifica reações empáticas e o desejo de protegê-los”, completa.
Juliana enfatiza que casos assim pedem leitura cuidadosa, rede de proteção e responsabilidade coletiva, não apenas indignação momentânea. Ela lembra que a sensação de que aquele espaço era, de algum modo, protegido, e de repente já não é: “Violência contra animais, nesse sentido, também é uma pauta de saúde mental pública, porque fala de empatia, limites, convivência e do tipo de comunidade que estamos construindo”.
Por isso, quando essa vida é interrompida por violência, a perda não fica restrita a uma casa. Ela se espalha pela vizinhança, pelas conversas, pelo corpo das pessoas. O que aparece não é apenas tristeza, mas também raiva, impotência e uma sensação difícil de nomear. “Na psicologia clínica, a gente reconhece isso como luto coletivo. Pessoas que não eram tutoras formais também sofrem, porque havia relação, e vínculo não precisa de documento para existir”, argumenta Juliana.
Renata cita outro fator que pode estar ligado ao crescente número de pesquisas que apontam uma ligação forte entre violência contra animais e violência interpessoal, violência doméstica e outras formas de violência. Um artigo publicado em 2020 no International Journal of Environmental Research and Public Health, por exemplo, destaca uma ocorrência concomitante de abuso contra animais e violência doméstica. “O reconhecimento desse link pode ter impacto nas nossas reações emocionais, já que tais eventos podem ser percebidos como uma ameaça mais ampla”, diz a psicoterapeuta.
“Para um número crescente de pessoas, longe de serem simples animais, estamos falando de membros da família”, enfatiza Renata. Um levantamento recente com tutores nos Estados Unidos revelou que para 97% deles os pets são membros da família, números semelhantes aos observados em outras partes do mundo. “Nesse cenário, atos de crueldade contra um animal doméstico podem ativar a percepção de que algo precioso e familiar foi brutalmente ferido ou destruído”, acrescenta.
Renata frisa que há um ponto fundamental que não pode ser ignorado: os animais merecem proteção por si mesmos, independentemente de qualquer impacto indireto sobre os humanos.
Segundo Juliana, a crueldade contra animais raramente acontece no vazio. Do ponto de vista psicológico, ela funciona como um sinal de risco psicossocial. “A literatura descreve que maus-tratos frequentemente coexistem com outros contextos de violência familiar e social, aparecendo como indicador de falhas de regulação emocional, dessensibilização e padrões mais amplos de agressividade. Não é um evento solto. É um sintoma de que algo no entorno já está fragilizado”.
Ela, porém, enfatiza que isso não significa determinismo nem autoriza conclusões simplistas sobre o futuro de alguém. “Significa apenas que certos comportamentos funcionam como alerta. Eles pedem leitura cuidadosa, rede de proteção e responsabilidade coletiva, não apenas indignação momentânea. Quando a gente reduz tudo a um fato policial, perde a chance de compreender o que aquele episódio revela sobre o contexto em que ele surgiu”.
O terapeuta admite que, diante de episódios como esse, surgem pedidos de punição exemplar e até de vingança: “Embora a justiça humana tenha seu papel — e deva agir dentro da lei —, ela não resolve o núcleo do problema. A violência não se corrige com mais violência. O ódio, quando alimentado, apenas reproduz o mesmo padrão que se condena.
Ribeiro afirma que toda ação gera consequências. Escolhas moldam destinos, e atitudes marcadas pela crueldade produzem desdobramentos profundos, não apenas para as vítimas, mas também para quem as pratica. Para ele, a consciência, cedo ou tarde, se torna o tribunal mais severo. É nela que surgem o arrependimento, a culpa ou a necessidade de reparação.
“Casos como o do cão Orelha deveriam servir menos como combustível para a fúria coletiva e mais como convite à reflexão. O verdadeiro desafio não está apenas em punir, mas em compreender que humanidade e espiritualidade se revelam nas escolhas cotidianas. A pergunta que permanece é simples e incômoda: que tipo de consciência estamos alimentando com nossas atitudes?”, encerra.
“Espero que a morte brutal de Orelha seja mais do que uma indignação momentânea e se transforme em um alerta capaz de impulsionar mudanças concretas na legislação de proteção aos animais, na atuação integrada de profissionais da saúde humana e animal e na forma como os animais são percebidos em nossa sociedade”, conclui Renata.
Para Juliana, no fim, não se trata apenas de um cão: “Trata se do que essa violência revela sobre como estamos cuidando, ou falhando em cuidar, das nossas relações. E do quanto uma comunidade inteira sente quando um lugar afetivo lhe é arrancado”.
Fontes
Cármen Guaresemin
Filha da PUC de SP. Há anos faz matérias sobre saúde, beleza, bem-estar e alimentação. Adora música, cinema e a natureza. Tem o blog Se Meu Pet Falasse, no qual escreve sobre animais, outra grande paixão. @Carmen_Gua