
O Brasil costuma ser citado como um dos grandes casos de sucesso no combate ao tabagismo. Nas últimas décadas, campanhas públicas, restrições à propaganda, aumento de impostos, ambientes livres de fumaça e uma profunda mudança cultural ajudaram a reduzir de forma expressiva o número de fumantes no país. O cigarro deixou de ser associado a glamour, charme ou sofisticação para se tornar símbolo de doença, dependência e perda de qualidade de vida.
Mas essa vitória está longe de ser definitiva.
Às vésperas do Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, cresce a preocupação de especialistas e autoridades de saúde com uma nova geração de consumidores de nicotina — especialmente adolescentes e adultos jovens. O problema já não se limita ao cigarro tradicional. A indústria se reinventou, os formatos mudaram e os produtos ganharam embalagens, sabores e linguagens mais próximas do universo jovem.
Os cigarros eletrônicos talvez sejam o exemplo mais evidente dessa transformação. Vendidos muitas vezes como alternativas “menos nocivas”, os vapes ajudaram a recolocar a nicotina no cotidiano de adolescentes que talvez nunca tivessem se aproximado do cigarro convencional. Aromas doces, design tecnológico, forte presença nas redes sociais e associação com estilo de vida contribuíram para reduzir a percepção de risco entre os mais jovens.
Além dos cigarros eletrônicos, outras formas de consumo seguem avançando. O narguilé, frequentemente associado a encontros sociais, festas e baladas, continua sendo encarado por muitos jovens como um hábito ocasional e inofensivo — apesar de expor o organismo a substâncias tóxicas e gerar dependência. O caráter ritualístico e coletivo do uso ajuda a banalizar seus riscos.
Mais recentemente, outro produto entrou no radar das autoridades sanitárias: os sachês de nicotina, conhecidos internacionalmente como “nicotine pouches”. Em relatório divulgado neste mês, a Organização Mundial da Saúde alertou para a rápida expansão global desses produtos e para o direcionamento agressivo ao público jovem. A jornalista Cláudia Collucci, da Folha de S.Paulo, traz uma importante análise em texto da última semana.
Os sachês são pequenas bolsas colocadas entre a gengiva e a boca, liberando nicotina diretamente pela mucosa oral. Não produzem fumaça, não têm cheiro forte e são discretos, o que facilita seu uso em praticamente qualquer ambiente. Segundo a OMS, as vendas globais cresceram mais de 50% em apenas um ano e o mercado já movimenta bilhões de dólares.
O alerta não diz respeito apenas ao produto em si, mas principalmente à estratégia de mercado por trás dele. A OMS destaca o uso de sabores doces, embalagens sofisticadas, campanhas com influenciadores e uma estética claramente pensada para atrair adolescentes e jovens adultos. Em muitos casos, os produtos se parecem mais com balas, chicletes ou acessórios de lifestyle do que com substâncias potencialmente viciantes.
A nicotina continua sendo uma droga altamente aditiva, independentemente da forma de consumo. E existe uma preocupação especial quando o contato ocorre precocemente. O cérebro de adolescentes e jovens ainda está em desenvolvimento, o que aumenta a vulnerabilidade à dependência e pode impactar funções relacionadas à atenção, aprendizado e controle de impulsos.
O problema é que muitos desses novos formatos conseguem escapar da imagem negativa construída ao redor do cigarro tradicional. Há uma espécie de “rebranding” da nicotina em curso: menos fumaça, menos cheiro, mais tecnologia, mais design, mais discrição. Em vez do fumante clássico, surge uma estética contemporânea associada à performance, ansiedade, socialização e pertencimento.
Um texto da jornalista Maria Prata, recente publicado no UOL Universa nessa semana chama a atenção justamente para essa volta simbólica do cigarro ao imaginário cultural e estético dos jovens. A reportagem mostra como fumar reaparece em redes sociais, editoriais de moda e conteúdos audiovisuais quase como um elemento de atitude ou rebeldia — algo que parecia superado nas últimas décadas.
Esse movimento preocupa porque o comportamento do jovem não é guiado apenas por informação racional sobre saúde. Pertencimento social, construção de identidade, pressão do grupo, curiosidade e desejo de experimentação têm peso enorme nas escolhas dessa faixa etária. Quando a nicotina ganha aparência “cool”, “tecnológica” ou “fashion”, o risco é que a percepção de perigo diminua drasticamente.
Ao mesmo tempo, o debate regulatório continua avançando no mundo. O Reino Unido aprovou recentemente uma lei histórica que proíbe permanentemente a compra de cigarros por pessoas nascidas a partir de 2009, numa tentativa de criar a primeira geração “livre do fumo” do país. A medida chama atenção porque sinaliza uma mudança importante na lógica das políticas públicas: não basta combater o cigarro tradicional; é preciso impedir que a indústria recrute novos consumidores de nicotina em diferentes formatos.
No Brasil, porém, o cenário ainda gera preocupação. Uma decisão recente do Supremo Tribunal Federal envolvendo competências regulatórias da Anvisa reacendeu discussões sobre a comercialização de cigarros eletrônicos e sobre o risco de aumento do consumo desses produtos no país. Em análise publicada pelo jornalista Leonardo Sakamoto, especialistas alertam que flexibilizações ou ambiguidades regulatórias podem favorecer justamente a entrada de novos consumidores, especialmente jovens.
O desafio atual talvez seja exatamente este: depois de décadas de redução do tabagismo, a nicotina voltou a circular entre adolescentes e adultos jovens com uma nova cara — mais discreta, colorida, tecnológica e socialmente aceitável. Em vez da fumaça e do cheiro forte do cigarro tradicional, entram em cena dispositivos elegantes, sabores adocicados e produtos vendidos como modernos ou menos perigosos.
O risco é que a sociedade interprete essa mudança de embalagem como redução real de danos. Não é. Por mais que a indústria do tabaco argumente que essas novas formas de entrega de nicotina reduzam o consumo do cigarro fumado (que seria o mais nocivo), não há como garantir que a dependência vai ser menos grave e que, eventualmente, as pessoas migrem para o padrão de consumo tradicional.
A história do tabaco mostra que avanços em saúde pública podem ser revertidos quando a vigilância diminui. O Brasil teve êxito ao transformar o cigarro em algo menos desejável socialmente. Agora, o desafio é evitar que uma nova geração desenvolva dependência de nicotina acreditando estar consumindo algo inofensivo, contemporâneo ou apenas recreativo.
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr