Doutor Jairo
Leia » Atividade física

Nova pesquisa revela: intensidade do treino influencia a longevidade

Pesquisa sugere que intensidade do exercício está ligada a menor risco de demência, diabetes e doenças cardíacas. - Freepik
Pesquisa sugere que intensidade do exercício está ligada a menor risco de demência, diabetes e doenças cardíacas. - Freepik
Fausto Fagioli Fonseca

por Fausto Fagioli Fonseca

faustoffonseca@gmail.com

Publicado em 27/04/2026, às 09h00

Durante anos, a conversa sobre atividade física girou em torno de uma pergunta simples: quanto tempo você se exercita por semana? Mas uma nova pesquisa publicada no European Heart Journal sugere que talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Não é apenas o volume total de atividade que importa — a intensidade pode ter um papel ainda mais decisivo na prevenção de doenças crônicas e na redução do risco de morte.

O estudo analisou dados de quase meio milhão de adultos. O foco dos pesquisadores foi entender como a proporção de atividade física vigorosa — aquela que eleva bastante a frequência cardíaca e deixa a respiração ofegante — se relaciona com o risco de desenvolver oito grandes doenças crônicas e com a mortalidade por todas as causas.

Pequenas doses, grandes impactos

Entre os participantes que não realizavam nenhuma atividade vigorosa, o risco de eventos cardiovasculares, diabetes tipo 2, doenças respiratórias crônicas, demência e doença renal era significativamente maior quando comparado àqueles que incluíam pelo menos uma pequena fração de exercícios intensos na rotina.

O dado mais interessante: indivíduos cuja atividade vigorosa representava mais de 4% do total de movimento semanal apresentaram reduções expressivas no risco de adoecimento e morte. Em alguns casos, como demência e diabetes tipo 2, as reduções ultrapassaram 50%.

Traduzindo para a prática: se uma pessoa se movimenta cerca de duas horas por dia — somando caminhada, tarefas domésticas e deslocamentos — 4% disso equivalem a aproximadamente cinco minutos diários de esforço mais intenso. Um tempo curto, mas que pode produzir efeitos relevantes.

Intensidade importa — e não apenas para o coração

O estudo revelou um padrão interessante. Para algumas condições, como doenças inflamatórias mediadas pelo sistema imunológico, a intensidade parece ser o fator predominante. Já em doenças metabólicas, como diabetes tipo 2 e esteatose hepática associada à disfunção metabólica, tanto o volume total quanto a intensidade contribuíram de forma equilibrada para a redução de risco.

Nos gráficos de análise conjunta, observou-se que, mesmo entre pessoas que já eram ativas, aquelas que incluíam maior proporção de esforço vigoroso apresentavam menor incidência de eventos cardiovasculares e menor mortalidade. Isso reforça a ideia de que intensidade e volume não são equivalentes. Uma hora de caminhada leve não produz exatamente os mesmos efeitos fisiológicos que alguns minutos de corrida, subidas ou tiros curtos.

O que acontece no corpo?

Exercícios mais intensos exigem maior adaptação do sistema cardiovascular, melhoram a eficiência do coração e dos pulmões e estimulam mudanças metabólicas mais robustas. Há também evidências de que atividades vigorosas desencadeiam respostas hormonais e anti-inflamatórias mais pronunciadas, influenciando vias relacionadas à imunidade e ao metabolismo.

Além disso, a melhora da aptidão cardiorrespiratória, frequentemente associada a esforços mais intensos, já foi vinculada a menor risco de mortalidade e melhor desempenho físico ao longo do envelhecimento.

Nem tudo é intensidade máxima

Isso não significa que todo treino precise ser exaustivo. Pelo contrário. Os próprios autores destacam que os benefícios foram observados com pequenas proporções de atividade vigorosa — não com rotinas extremas. 

O padrão identificado sugere que há um ponto em que o ganho se estabiliza. Para várias doenças, o benefício aumentou até cerca de 4% a 5% de atividade vigorosa e depois entrou em platô. Ou seja, mais intensidade não necessariamente significa proteção ilimitada.

Como aplicar no dia a dia

Incluir intensidade não precisa significar treinos longos ou complexos. Algumas estratégias possíveis:

  • Inserir pequenos trechos mais rápidos durante uma caminhada
  • Subir escadas com ritmo acelerado
  • Acrescentar subidas no percurso
  • Fazer breves acelerações de 20 a 30 segundos ao final de um exercício leve

O ponto central não é transformar toda atividade em alta performance, mas quebrar a monotonia do ritmo confortável com estímulos mais desafiadores, de forma gradual e segura.

Um recado equilibrado

As diretrizes internacionais continuam recomendando 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa — ou uma combinação das duas. O novo estudo acrescenta uma nuance importante: dentro do tempo disponível para se movimentar, vale considerar não apenas “quanto”, mas “quão intenso”.

Para quem tem pouco tempo, a intensidade pode ser uma aliada estratégica. Para quem já é ativo, pode representar um ajuste fino na rotina. E para quem está começando, a progressão deve ser gradual, respeitando limitações individuais e condições clínicas. 

Fausto Fagioli Fonseca

Fausto Fagioli Fonseca

Formado em jornalismo e pós-graduado em jornalismo esportivo, atua na área de esportes e saúde desde 2008. @faustoffonseca