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Muitos homens sentem dor durante o sexo, mas não falam; aponta estudo

Desconfiava-se que homens também poderiam sentir desconforto, mas escondê-lo para parecerem masculinos e fortes - iStock
Desconfiava-se que homens também poderiam sentir desconforto, mas escondê-lo para parecerem masculinos e fortes - iStock

Redação Publicado em 18/03/2026, às 10h00

Uma nova pesquisa publicada no International Journal of Sexual Health fornece evidências de que a dor durante a atividade sexual é uma experiência comum entre estudantes universitários de todos os gêneros. O estudo sugere que indivíduos que acreditam fortemente em papéis de gênero tradicionais são menos propensos a conversar com parceiros sobre esse desconforto. Essas descobertas destacam a necessidade de uma melhor comunicação sexual para ajudar as pessoas a prevenir e lidar com o desconforto físico cotidiano durante momentos íntimos.  

Embora a atividade sexual seja geralmente associada ao prazer, a dor física indesejada é uma realidade para muitas pessoas. A maior parte do estudo científico sobre esse tema se baseia em amostras clínicas, analisando pessoas com diagnósticos de doenças ou disfunções sexuais graves. Essa abordagem deixa uma lacuna na compreensão da dor cotidiana, não médica, que ocorre ocasionalmente durante os encontros sexuais.  

Os autores do novo estudo queriam explorar esse desconforto leve a moderado na população em geral. Eles elaboraram o estudo para entender com que frequência estudantes universitários sentem dor física durante diferentes tipos de atividades sexuais. Os pesquisadores também buscaram descobrir por que as pessoas podem esconder seu desconforto de parceiros. 

A autora do estudo, Terri Fisher, professora da Universidade do Sul e professora emérita da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA, disse que uma de suas alunas, coautora do estudo, a procurou com o desejo de realizar uma pesquisa, e devido a uma leitura que ela havia indicado em uma aula, a estudante estava muito interessada na questão da dor durante a atividade sexual. “Nossa análise da literatura científica revelou que os níveis não clínicos de dor durante a sexualidade não haviam sido muito estudados, especialmente em homens”, admitiu Terri.  

“Posteriormente, adicionamos mais duas alunas à equipe e desenvolvemos questões qualitativas e quantitativas para nos ajudar a compreender a extensão do desconforto físico durante vários tipos de atividades sexuais, as reações a essa dor e as possíveis causas da dor e das reações”, acrescentou a professora.

Crenças sobre masculinidade

Um dos principais objetivos do projeto era verificar se as crenças sobre masculinidade e feminilidade influenciam a forma como as pessoas reagem à dor na intimidade. Observações anteriores sugerem que as mulheres frequentemente aceitam a dor como uma parte normal do sexo. Os pesquisadores suspeitavam que os homens também poderiam sentir desconforto, mas escondê-lo para parecerem masculinos e fortes.  

Para explorar essas ideias, os pesquisadores recrutaram 263 estudantes universitários de uma universidade no sudeste dos Estados Unidos. A amostra incluiu 179 mulheres cisgênero, 71 homens cisgênero e 13 indivíduos que se identificaram como não-cisgênero ou não especificaram um gênero. Os dados foram coletados por meio de uma pesquisa on-line anônima entre outubro de 2022 e março de 2023.  

Os participantes primeiro estimaram a frequência com que acreditavam que a dor sexual ocorria entre homens e mulheres. Em seguida, relataram suas experiências pessoais com dor durante três tipos distintos de atividade sexual. Essas categorias incluíam relação sexual com penetração vaginal, relação sexual anal e atos não penetrativos, como estimulação manual ou sexo oral. 

A pesquisa perguntou se os participantes já haviam sentido dor durante esses atos, com que frequência isso acontecia, se eles contaram ao(à) parceiro(a) e se interromperam a atividade. Os participantes também responderam a perguntas abertas sobre por que as pessoas podem sentir dor durante o sexo e por que podem suportá-la sem reclamar. Por fim, os estudantes responderam a um questionário que avaliava sua adesão a estereótipos extremos de papéis de gênero tradicionais.  

Dor substimada

As respostas da pesquisa revelaram que os participantes geralmente subestimaram a frequência com que os homens sentem dor durante o sexo. Os participantes estimaram que cerca de metade das mulheres e menos de um quinto dos homens sentem dor durante o sexo. No entanto, a incidência real de dor relatada foi muito maior para ambos os grupos.   

Mais de 90% das mulheres que praticaram sexo vaginal relataram ter sentido dor em algum momento. Quase 50% dos homens também relataram sentir dor durante esse tipo de atividade sexual. Para o sexo anal, 97,1% das mulheres e 44,4% dos homens relataram histórico de dor.  

Os pesquisadores ficaram bastante surpresos com o número de homens que indicaram já ter sentido dor durante a atividade sexual. Eles descobriram diferenças significativas na forma como homens e mulheres lidavam com esse desconforto físico. Mulheres que sentiam dor durante a relação sexual com penetração vaginal tinham o dobro da probabilidade de relatar o ocorrido aos seus parceiros. Essas mulheres também tinham o dobro da probabilidade de interromper a atividade sexual por completo.  

No caso do sexo anal, as mulheres tinham mais de três vezes mais probabilidade de comunicar a dor aos seus parceiros. Elas também tinham quatro vezes mais probabilidade de interromper o sexo anal quando sentiam dor, em comparação aos homens. 

Atividades sem penetração

Um padrão diferente surgiu em relação aos atos sexuais sem penetração, em que mais da metade dos homens e pouco menos da metade das mulheres relataram sentir dor. Para as atividades sem penetração, os pesquisadores não encontraram diferenças significativas entre homens e mulheres em termos de relato de dor ou interrupção da relação.   

A parte qualitativa da pesquisa forneceu informações sobre por que as pessoas vivenciam e toleram relações sexuais desconfortáveis. Os pesquisadores identificaram diversos temas recorrentes nas respostas abertas. Os participantes frequentemente atribuíam a dor a problemas físicos, como falta de lubrificação natural, ângulos desconfortáveis ou movimentos bruscos. As mulheres relataram com frequência que a dor feminina poderia ser causada pela falta de excitação física ou por preliminares inadequadas. Ao discutirem a dor masculina, alguns participantes mencionaram o esforço excessivo ou o atrito dos dentes durante o sexo oral.  

Quando questionados sobre por que as pessoas continuam apesar da dor, os participantes frequentemente citaram constrangimento ou um forte senso de obrigação de agradar o(a) parceiro(a). Muitos acreditavam que falar sobre o assunto arruinaria o clima ou magoaria os sentimentos do(a) parceiro(a). Alguns participantes chegaram a mencionar que as pessoas podem ignorar o desconforto por acreditarem erroneamente que a dor sexual é normal.  

Os resultados também mostraram uma forte conexão entre estereótipos de gênero tradicionais e sofrimento silencioso. Os participantes que obtiveram pontuações mais altas no questionário sobre papéis de gênero tradicionais foram menos propensos a relatar dor aos seus(suas) parceiros(as) durante a relação sexual vaginal ou anal. Esses indivíduos também foram menos propensos a interromper a atividade dolorosa.  

Atitude tradicional

Os pesquisadores observaram que essas crenças tradicionais afetam todos os gêneros. Mulheres com visões tradicionais podem sentir que seu papel principal é satisfazer o(a) parceiro(a) masculino(a) a qualquer custo. Homens com atitudes tradicionais tendem a se preocupar que admitir a dor os faça parecer fracos ou pouco masculinos.  

“Este estudo deixa claro que a dor indesejada às vezes faz parte da atividade sexual, pelo menos para os estudantes universitários em nossa amostra”, explicou Terri Fisher ao PsyPost. “Homens que se envolviam em relações sexuais desconfortáveis eram muito menos propensos a contar às suas parceiras sobre a dor e a interromper a atividade dolorosa do que as mulheres. Para nossos participantes, essa relutância em comunicar a dor às suas parceiras estava relacionada ao grau de suas crenças em papéis de gênero tradicionais”, completou a pesquisadora. 

Embora o estudo forneça evidências sobre a dinâmica social da dor sexual, há algumas limitações a serem consideradas. A amostra consistiu principalmente de jovens adultos de uma única universidade, e eles não relataram sua orientação sexual ou estado civil. Uma amostra mais ampla, contendo adultos mais velhos de diferentes origens, poderia apresentar padrões diferentes.  

Os cientistas também apontam uma possível interpretação equivocada em relação à ligação entre papéis de gênero e comunicação. A pesquisa encontrou uma correlação entre crenças de gênero tradicionais e a relutância em falar sobre a dor. No entanto, essa relação estatística não prova que as crenças tradicionais façam com que uma pessoa permaneça em silêncio

Pesquisa expandida

No futuro, a equipe de pesquisa planeja criar um novo questionário padronizado com base nos temas coletados a partir das respostas abertas. Essa ferramenta permitirá que os cientistas mensurem os motivos exatos pelos quais as pessoas sentem e escondem dor sexual em uma escala muito maior. Ao expandir essa pesquisa, os cientistas esperam aprimorar a educação sexual e incentivar uma comunicação mais saudável entre os parceiros.  

Os pesquisadores disseram ter ficado agradavelmente surpresos com as respostas detalhadas às perguntas abertas que receberam de muitos participantes. “A contribuição mais inovadora foi nossa análise da dor durante três tipos diferentes de atividade sexual: relação sexual com penetração, relação sexual anal e atividade sexual sem penetração. Outro diferencial do nosso estudo é que perguntamos sobre a experiência de dor, enquanto estudos anteriores utilizaram um período mais limitado para os relatos retrospectivos”, finaliza a professora. 

Fonte: PsyPost