
A morte do influenciador digital e fisiculturista Gabriel Ganley na última semana, aos 22 anos, reacendeu discussões importantes sobre os riscos envolvidos na busca por performance física extrema e pelos padrões de corpo que circulam hoje nas redes sociais.
Num primeiro momento, surgiram especulações de que o jovem pudesse ter sofrido uma crise hipoglicêmica relacionada ao uso de insulina — substância que, embora seja fundamental para pessoas com diabetes, também pode ser utilizada de forma inadequada em alguns ambientes do fisiculturismo por seu potencial efeito anabolizante. A hipótese, no entanto, não foi confirmada.
Os laudos iniciais apontam que Gabriel teria sofrido uma morte súbita associada a uma cardiomiopatia hipertrófica , condição caracterizada pelo espessamento do músculo cardíaco.Em muitos casos, essa alteração pode ter origem genética e permanecer silenciosa durante anos. Mas especialistas alertam que o uso de anabolizantes pode agravar esse quadro e aumentar significativamente o risco cardiovascular.
O coração também é um músculo — e talvez essa seja uma das imagens mais simbólicas dessa discussão. Quando o organismo é submetido a estímulos hormonais extremos para hipertrofia muscular, o sistema cardiovascular não fica imune às consequências.
O uso de esteroides anabolizantes pode provocar alterações importantes no metabolismo, incluindo aumento do colesterol ruim (LDL), redução do colesterol bom (HDL), elevação da pressão arterial, maior tendência à formação de placas nas artérias e aumento do risco de arritmias, infarto e morte súbita. Além disso, essas substâncias também podem causar danos hepáticos importantes, incluindo maior risco de tumores no fígado.
Nos últimos anos, procedimentos e substâncias antes mais restritos ao esporte de alto rendimento passaram a circular de forma muito mais ampla em academias, grupos de internet e redes sociais. Hormônios, diuréticos, insulina, hormônio do crescimento e combinações de drogas aparecem frequentemente associados a promessas de transformação rápida do corpo.
Ao mesmo tempo, o ambiente digital ajuda a criar uma cultura em que resultados extremos são constantemente valorizados. Corpos cada vez mais secos, musculosos e definidos recebem curtidas, seguidores, contratos e reconhecimento. O sofrimento, a disciplina radical e até certos comportamentos de risco acabam sendo vistos, por alguns jovens, como sinais de comprometimento e sucesso.
Por trás disso, não existe apenas vaidade. Muitas vezes há pressão estética, busca de pertencimento, necessidade de validação social, competitividade e até interesses financeiros ligados à própria imagem.
É importante lembrar que atividade física, musculação e cuidado com o corpo trazem inúmeros benefícios para a saúde física e mental. O problema surge quando o corpo deixa de ser espaço de cuidado e passa a ser tratado como projeto extremo de performance, vitrine permanente ou ferramenta de aprovação social.
A morte precoce de um jovem como Gabriel Ganley amplia essa reflexão. Em tempos em que o corpo virou produto, identidade e moeda de reconhecimento, os limites entre cuidado e risco podem ficar perigosamente confusos.
* Dr. Jairo Bouer escreve semanalmente neste site
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr