
Redação Publicado em 21/07/2026, às 10h00
Curtir um bom filme no cinema, visitar uma exposição ou assistir a um show ao vivo pode ser mais do que uma forma de lazer. Um novo estudo publicado no Journal of Epidemiology and Community Health sugere que participar regularmente de atividades culturais está associado a uma idade fisiológica mais jovem, ou seja, ter o corpo como o de alguém com menos anos de vida.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto de Ciências de Tóquio, no Japão, e reforça um conjunto crescente de evidências de que manter-se socialmente e culturalmente ativo pode ter um papel importante no envelhecimento saudável.
Todo mundo envelhece, mas o ritmo em que o corpo envelhece varia de pessoa para pessoa. A idade fisiológica reflete o quão bem o organismo está funcionando, e pode ser diferente da idade cronológica, que é simplesmente o número de anos vividos.
Estudos anteriores já haviam relacionado atividades culturais, como ir ao cinema, a museus e a apresentações ao vivo, a melhor saúde e bem-estar entre pessoas mais velhas. No entanto, poucas pesquisas haviam investigado se essas atividades também se relacionam com o envelhecimento fisiológico em si.
Segundo os autores, este é o primeiro estudo longitudinal (que acompanha os mesmos participantes ao longo do tempo) a examinar essa relação levando em conta fatores que não podem ser medidos diretamente, mas que se mantêm estáveis ao longo dos anos, como características pessoais e de personalidade.
Os pesquisadores analisaram dados de 1.899 adultos que participam do English Longitudinal Study of Ageing (Elsa), um estudo populacional contínuo com uma amostra representativa de adultos ingleses a partir dos 50 anos.
Os participantes forneceram informações em pelo menos duas ondas de coleta de dados, realizadas em 2004/2005, 2006/2007 ou 2008/2009.
Para calcular a idade fisiológica, enfermeiros mediram dez indicadores de saúde física, entre eles:
Esses dez indicadores foram combinados em uma única pontuação de idade fisiológica.
Os participantes também informaram com que frequência costumavam ir (a) ao cinema, (b) a museus ou galerias de arte e (c) ao teatro, a concertos ou à ópera. Cada atividade recebeu uma nota de 0 (nunca) a 5 (duas vezes por mês ou mais), gerando uma pontuação total de engajamento cultural que vai de 0 a 15.
Pessoas com maior nível de engajamento cultural, ou seja, que participavam de atividades culturais pelo menos a cada poucos meses, tinham idade fisiológica média de 66,9 anos. Já quem participava menos apresentou idade fisiológica média de 69,9 anos, uma diferença de cerca de três anos.
Os participantes mais engajados culturalmente também tendiam a ser mulheres, ter renda e escolaridade mais altas, estar empregados e já desfrutar de melhor saúde geral antes mesmo de entrarem no estudo.
Depois de ajustar a análise para fatores como renda familiar, situação de emprego e doenças crônicas, os pesquisadores constataram que cada ponto a mais na pontuação de engajamento cultural estava associado a uma redução de 0,085 ano na idade fisiológica, o equivalente a cerca de 31 dias.
Os autores do estudo apontam algumas explicações possíveis para essa associação:
Como a pesquisa é observacional, ela não é capaz de provar que as atividades culturais causam diretamente a redução no ritmo de envelhecimento. Os próprios autores destacam que também é possível haver causalidade reversa, isto é, que pessoas mais saudáveis simplesmente tenham mais disposição e condições para frequentar cinemas, museus e teatros.
Mesmo assim, os pesquisadores defendem que o engajamento cultural é um comportamento que pode ser estimulado e, por isso, poderia se tornar uma estratégia eficaz de saúde pública. Segundo eles, o efeito observado pode ser comparável ao de praticar atividade física com frequência.
Os cientistas também chamam a atenção para a importância de tornar eventos culturais mais acessíveis, tanto do ponto de vista geográfico quanto financeiro, o que permitiria que mais pessoas pudessem participar.
Novas pesquisas ainda serão necessárias para determinar se estimular um maior engajamento cultural realmente resulta em melhorias duradouras na saúde e em um envelhecimento mais saudável a longo prazo.