
Redação Publicado em 10/02/2026, às 10h00
Um novo estudo internacional mostrou que homens jovens estão sendo incentivados, principalmente por conteúdos no Instagram e no TikTok, a fazer exames de testosterona e iniciar terapias hormonais com base em promessas de saúde não comprovadas, enquanto os riscos médicos são minimizados.
A pesquisa foi realizada na Faculdade de Medicina e Saúde da Universidade de Sydney, na Austrália, e liderada por Emma Grundtvig Gram, doutoranda visitante da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.
O estudo concluiu que o marketing feito por influenciadores nas redes sociais está normalizando exames e tratamentos desnecessários com testosterona entre homens jovens e saudáveis, apesar de essas terapias estarem associadas a riscos graves, como problemas cardíacos, infertilidade, alterações renais, coágulos sanguíneos, redução do desejo sexual e disfunção erétil.
Publicado na revista Social Science & Medicine, o estudo analisou 46 postagens de grande alcance no Instagram e no TikTok que promoviam testes e tratamentos com testosterona. As contas responsáveis por esses conteúdos somavam, juntas, 6,8 milhões de seguidores e geraram mais de 650 mil curtidas.
Os pesquisadores identificaram que esse tipo de conteúdo está fortemente ligado à chamada “machosfera”, um conjunto de comunidades online que promovem visões estreitas e exageradas de masculinidade, associando saúde, identidade e sucesso masculino à dominação, força física e desempenho sexual.
Dentro desses espaços, a desinformação sobre saúde e fitness é comum, e a promoção da testosterona tem se tornado cada vez mais frequente.
Veja o que diz a médica Brooke Nickel, autora sênior do estudo, pesquisadora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Sydney.
O marketing de influenciadores está reinterpretando experiências comuns, como cansaço, estresse, diminuição da libido ou o próprio envelhecimento, como sinais de uma ‘deficiência’ de testosterona que exigiria intervenção médica.”
Em uma das mensagens analisadas no estudo, um “coach sexual” no TikTok, com 102 mil seguidores, alertava:
“Fique atento a este sinal ASSUSTADOR de níveis baixos de testosterona… você deveria acordar de manhã com uma ereção; se você não acorda de manhã com uma ereção, há uma grande possibilidade de que esteja com testosterona baixa. Faça o exame!”
Em outra postagem, um influenciador declarou:
“Eu estava a uns 3 números de ser chamado de mulher”, associando diretamente o resultado de um exame de testosterona à masculinidade e à identidade de gênero.
Nenhuma das postagens analisadas apresentou evidências científicas para sustentar as afirmações feitas. Além disso:
“O que estamos vendo não é educação em saúde, é marketing e alarmismo disfarçados de aconselhamento médico”, disse Nickel. “Homens jovens e saudáveis estão sendo levados a acreditar que experiências comuns, como cansaço, estresse ou mudanças na libido, são sinais de que algo está errado do ponto de vista médico e que a testosterona é a solução.”
Os pesquisadores identificaram quatro narrativas principais que moldam a forma como a testosterona é divulgada para homens nas redes sociais:
O estudo mostra que essas narrativas refletem de perto os discursos da machosfera, em que os níveis hormonais são tratados como uma medida de “ser homem” e a testosterona é apresentada como uma forma de recuperar poder, status e controle.
As postagens frequentemente usam uma linguagem de crise relacionada a desempenho sexual, energia e autoconfiança, incentivam os homens a “defenderem a si mesmos” e buscarem exames. Elas também colocam clínicas privadas e produtos vendidos diretamente ao consumidor como opções mais rápidas e eficazes do que o sistema de saúde tradicional.
“Essas mensagens estão transformando a testosterona em um produto de estilo de vida que passa a definir masculinidade”, afirmou Nickel. “O problema não é o homem se preocupar com a própria saúde, e sim as redes sociais transformarem experiências normais em diagnósticos médicos e venderem aos jovens uma condição perigosa e, muitas vezes, falsa.”
Tradicionalmente, a testosterona baixa é vista como uma condição associada ao envelhecimento e que afeta principalmente homens mais velhos. No entanto, as postagens analisadas no estudo constantemente reformulam o problema como algo que atinge homens jovens, especialmente aqueles envolvidos com treino, estética corporal e performance física.
Imagens sexualizadas de academia, corpos extremamente musculosos, fotos de antes e depois e relatos de transformação reforçam a ideia de que a testosterona seria um atalho para força, dominação e sucesso sexual. Ao mesmo tempo, são recomendados exames frequentes e monitoramento hormonal contínuo.
O estudo destaca o processo de medicalização da masculinidade, em que variações normais do corpo e da experiência masculina são reduzidas a uma suposta deficiência hormonal com uma solução simples.
Os pesquisadores ressaltam que o rastreamento em massa para testosterona baixa não é clinicamente recomendado, já que homens saudáveis podem apresentar níveis mais baixos sem sintomas, além de existirem riscos significativos associados à terapia com testosterona.
Ray Moynihan, coautor do estudo e pesquisador sênior da Escola de Saúde Pública, afirmou que a pesquisa mostra como a desinformação online está influenciando a identidade e as escolhas de saúde dos homens jovens.
“Como muitos homens, fico chocado com a machosfera e essas versões equivocadas e enganosas de masculinidade, que só enfraquecem a capacidade de homens e meninos de construírem relações humanas maduras e significativas”, disse ele.
“Promover exames e tratamentos para homens sem indicações médicas claras levanta preocupações sobre excesso de diagnósticos e tratamentos desnecessários”, acrescentou Nickel. “Quando a testosterona é vendida como um atalho para confiança e sucesso, ela acaba causando mais danos do que benefícios.”
Narrativas de saúde impulsionadas pela machosfera podem ampliar medo, vergonha e desconfiança em relação à medicina tradicional. Elas moldam a forma como os homens entendem seus corpos, o envelhecimento e a própria identidade, e muitas vezes levam a uma autoimagem negativa e a impactos na saúde mental.”