
A notícia recente de um morador de Teresina que será autuado após acumular uma montanha de lixo em sua casa, chegando quase à altura dos telhados vizinhos, chamou atenção pelas imagens impressionantes.
Mas ela também levanta uma pergunta importante: será que esse comportamento pode estar relacionado a uma questão psiquiátrica? Existe uma condição chamada transtorno de acumulação, caracterizada pela dificuldade persistente de descartar objetos, mesmo aqueles sem valor prático ou econômico. A pessoa acredita que esses itens poderão ser úteis no futuro ou sente um intenso desconforto diante da ideia de jogá-los fora. Em alguns casos, o sofrimento é tão grande que a pessoa simplesmente não consegue se desfazer de nada.
Vale dizer que muita gente tem o hábito de guardar objetos “para o caso de precisar um dia”. Ter uma gaveta cheia de cabos antigos, roupas que já não usa ou caixas vazias não significa, necessariamente, que alguém tenha um transtorno. O problema aparece quando o acúmulo cresce ao longo dos anos, invade os ambientes da casa, compromete a circulação, a higiene, a segurança e passa a interferir na vida da pessoa e de quem vive ao redor.
Nessas situações, os riscos vão muito além da bagunça. O excesso de materiais pode favorecer incêndios, acidentes, proliferação de insetos e roedores, além de aumentar o risco de infecções e outros problemas de saúde. Não raro, a pessoa perde a capacidade de usar cômodos da própria casa para sua finalidade original.
O transtorno de acumulação também costuma estar associado a outras condições, como depressão, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Por isso, o tratamento envolve avaliação especializada e pode incluir psicoterapia, medicamentos e acompanhamento multiprofissional.
Quando um caso como esse chega ao conhecimento das autoridades, é natural que haja preocupação com a saúde pública e com os impactos para a vizinhança. Mas a resposta não deve se limitar à aplicação de multas ou outras medidas administrativas. É igualmente importante identificar se existe um transtorno mental e oferecer acesso a tratamento e acompanhamento.
Afinal, por trás de uma montanha de objetos ou de lixo, pode existir uma pessoa com uma questão que precisa ser reconhecida, tratada e acompanhada, sem estigmas, e com o mesmo cuidado que dedicamos a qualquer outra condição de saúde mental.
Jairo Bouer escreve semanalmente neste site.
Dr. Jairo Bouer
Médico psiquiatra com formação na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), biólogo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London, além de palestrante e escritor. Instagram: @jairoboueroficialX: @JairoBouerDr