Doutor Jairo
Leia » Estilo de vida

Exercício físico deve se tornar rotina no tratamento do câncer, defende médico

O exercício deixou de ser visto apenas como uma estratégia complementar para melhorar o bem-estar - iStock
O exercício deixou de ser visto apenas como uma estratégia complementar para melhorar o bem-estar - iStock

Redação Publicado em 30/06/2026, às 10h00

Durante muitos anos, a prática de exercícios físicos foi recomendada aos pacientes com câncer, principalmente para amenizar efeitos colaterais do tratamento, preservar a capacidade funcional e melhorar a qualidade de vida. Hoje, porém, a ciência começa a demonstrar que a atividade física pode exercer um papel muito mais amplo.

“Já sabemos que o exercício não apenas ajuda o paciente a enfrentar melhor a doença, mas também pode influenciar mecanismos biológicos relacionados à progressão tumoral, à recorrência do câncer e até à sobrevida", explica o médico e professor Ramon Andrade de Mello, oncologista clínico do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia.

Ele comenta que houve uma mudança de paradigma: "O exercício deixou de ser visto apenas como uma estratégia complementar para melhorar o bem-estar do paciente e passou a ser estudado como uma intervenção capaz de modificar aspectos biológicos importantes relacionados ao câncer."

Patrulha do sistema imunológico

“Entre os mecanismos que ajudam a explicar esse fenômeno está a influência da atividade física sobre o sistema imunológico. Pesquisas sugerem que o exercício pode aumentar a atividade de células responsáveis pela vigilância imunológica, como as células Natural Killer (NK) e os linfócitos T, estruturas fundamentais para identificar e eliminar células anormais antes que elas se multipliquem”, acrescenta o médico, que é pesquisador e autor do "Medical Oncology Compendium", livro de referência internacional e publicado pela Elsevier.

As células NK fazem parte da imunidade inata e atuam como uma espécie de patrulha de resposta rápida. “Elas conseguem reconhecer células que apresentam alterações características de infecções virais ou transformação tumoral e induzir sua destruição por meio da liberação de substâncias citotóxicas”, diz o oncologista.

“Já os linfócitos T pertencem à imunidade adaptativa e funcionam como uma força mais especializada, capaz de reconhecer alvos específicos e promover um ataque direcionado contra células anormais. Nos estágios iniciais do desenvolvimento do câncer, essas células exercem um papel fundamental na chamada vigilância imunológica, identificando e eliminando células que sofreram mutações antes que elas consigam se multiplicar e formar um tumor", acrescenta.

Tumores reagem ao ataque

O problema é que os tumores não permanecem passivos diante desse ataque. “Ao longo de sua evolução, muitas células cancerígenas desenvolvem mecanismos sofisticados para escapar da detecção imunológica. Elas podem reduzir a expressão de moléculas que funcionam como sinais de reconhecimento para os linfócitos, produzir substâncias imunossupressoras e recrutar células que enfraquecem a resposta antitumoral. Como resultado, cria-se um microambiente tumoral capaz de dificultar a ação das defesas naturais do organismo”, analisa o médico.

“E é justamente nesse ponto que o exercício físico parece exercer parte de seus benefícios. Estudos sugerem que a atividade física regular aumenta a mobilização e a circulação de células NK e linfócitos T pelo organismo, ampliando a capacidade de vigilância imunológica. Além disso, pesquisas experimentais indicam que o exercício pode favorecer a infiltração dessas células no microambiente tumoral, aumentando as chances de que elas alcancem e reconheçam células cancerígenas”, destaca Mello.

Outros mecanismos de proteção

“Outro aspecto importante é que a contração muscular durante o exercício promove a liberação de moléculas bioativas conhecidas como miocinas. Algumas delas parecem contribuir para uma comunicação mais eficiente entre músculos e sistema imunológico, favorecendo respostas antitumorais e ajudando a modular processos biológicos envolvidos na progressão da doença. A hipótese atual não é que o exercício destrua diretamente as células tumorais, mas que ele torne o organismo biologicamente mais preparado para reconhecê-las e combatê-las. Em outras palavras, a atividade física pode ajudar a fortalecer mecanismos naturais de defesa que já existem no corpo e que desempenham papel importante no controle do câncer", afirma.

Além disso, estudos indicam que a prática regular de exercícios pode tornar o chamado microambiente tumoral menos favorável ao crescimento das células cancerígenas. “Em outras palavras, o organismo passa a apresentar condições biológicas menos propícias para a progressão do tumor e mais favoráveis à atuação das defesas naturais do corpo”, diz o professor.

Exercícios, metabolismo e inflamação

Outro aspecto importante envolve a regulação de processos metabólicos e hormonais. “A atividade física contribui para melhorar a sensibilidade à insulina, reduzir níveis elevados do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1) e controlar o excesso de tecido adiposo. Essas alterações são especialmente relevantes porque diversos tipos de câncer apresentam associação com desequilíbrios metabólicos, obesidade e alterações hormonais”, diz o médico.

Por fim, ainda existe outro ponto sendo investigado que é a relação entre exercício e inflamação. “Embora a resposta inflamatória seja essencial para a defesa do organismo, sua ativação persistente pode favorecer o surgimento e a progressão de diversas doenças crônicas, incluindo alguns tipos de câncer. A atividade física regular parece contribuir para a modulação desses processos biológicos, ajudando a reduzir sinais associados a estados inflamatórios persistentes”, completa.

Para qual câncer? E qual exercício fazer?

De acordo com o médico, as pesquisas têm se concentrado em cânceres localizados de cólon, mama e próstata. “Para esses tipos de câncer, os pacientes fisicamente ativos costumam apresentar melhores desfechos clínicos quando comparados aos sedentários", ressalta.

No entanto, ele acredita que todo paciente deve ser estimulado a se exercitar, sempre que puder. "Cada paciente possui características específicas relacionadas ao tipo de câncer, estágio da doença, tratamento em andamento e condição física. Por isso, a recomendação deve ser individualizada e acompanhada por profissionais capacitados. Mas a mensagem principal é clara: sempre que houver condições clínicas adequadas, manter-se fisicamente ativo pode trazer benefícios importantes", orienta.

“E sobre o tipo de exercício, algumas sociedades médicas já recomendam que pacientes realizem regularmente exercícios aeróbicos e treinamento de força durante e após o tratamento, sempre com avaliação individualizada”, comenta o médico.

"Estamos caminhando para uma realidade em que a prescrição de exercícios seja tão natural quanto a indicação de outras medidas de suporte ao tratamento. O paciente não deve enxergar a atividade física apenas como uma forma de melhorar o condicionamento ou a disposição. Hoje sabemos que ela pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de enfrentamento da doença", conclui o oncologista.