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Estudo alerta para a Síndrome de Munchausen por Procuração em pets

Os sinais observados por veterinários são alarmantemente semelhantes aos observados em casos humanos - iStock
Os sinais observados por veterinários são alarmantemente semelhantes aos observados em casos humanos - iStock

Redação Publicado em 15/04/2026, às 10h00

Em uma revelação surpreendente do mundo veterinário, um fenômeno psicológico raro e profundamente perturbador, tradicionalmente associado a relacionamentos humanos, está sendo identificado no cuidado com animais de estimação. Conhecida como síndrome de Munchausen por procuração ou transtorno factício imposto a outro (TFIA). Essa condição complexa envolve indivíduos que simulam ou provocam doenças em outros para obter simpatia e atenção.  

Embora historicamente ligado aos pais, particularmente mães, que prejudicam seus filhos, como notoriamente visto no caso de Gypsy Rose Blanchard, uma americana que conspirou com seu então namorado por mais de um ano para matar sua mãe, Clauddine "Dee Dee" Blanchard; Dee Dee convenceu médicos, vizinhos e instituições de que a filha sofria de dezenas de enfermidades, durante duas décadas. A série Objetos Cortantes (2018), com as atrizes Amy Adams, como uma das filhas, e Patricia Clarkson, como a mãe, mostrava um pouco deste transtorno.   

Agora, um estudo inovador sugere que os animais de estimação estão emergindo como um grupo de vítimas anteriormente negligenciado. Pesquisadores na Holanda descobriram que mais da metade dos veterinários acreditam ter 'provavelmente' encontrado casos de Síndrome de Munchausen por procuração em suas clínicas, sendo cães e gatos os animais mais frequentemente afetados.

O estudo, publicado na revista PLOS One, entrevistou quase 90 veterinários e constatou que 51,2% relataram suspeitas dessa forma de abuso animal, também chamada de abuso animal por falsificação. Isso indica um problema significativo, porém subnotificado, entre os donos de animais de estimação.  

Sinais e sintomas em animais de estimação 

Os sinais observados por veterinários são alarmantemente semelhantes aos observados em casos humanos. Os animais podem apresentar fraturas incomuns, lesões inexplicáveis, sinais de desnutrição, claudicação (mancar) ou envenenamento — todos potencialmente causados por seus tutores. Além disso, os animais de estimação são frequentemente levados às clínicas com queixas vagas ou clinicamente inconclusivas que desaparecem misteriosamente após o exame. Outros sinais de alerta incluem inconsistências entre o histórico médico fornecido pelo tutor e os achados clínicos, bem como visitas frequentes dos tutores às clínicas com um ou mais animais sob seus cuidados.   

Ineke van Herwijnen, coautora do estudo e professora adjunta da Universidade de Utrecht, observou: "O abuso de animais por meio de falsificação é reconhecido por parte da classe veterinária holandesa, e os sinais de alerta desse fenômeno são conhecidos até certo ponto. No entanto, atualmente existem poucas diretrizes para o reconhecimento precoce desses casos específicos de abuso animal". Essa falta de padrões claros contribui para a dificuldade de diagnosticar e lidar eficazmente com esse tipo de abuso.   

Baixas taxas de denúncia e barreiras à ação 

Apesar do alto nível de suspeita entre os veterinários, apenas 4% relataram ter feito alguma denúncia contra um dono de animal de estimação por maus-tratos. A equipe de pesquisa atribui essa baixa taxa de denúncia a diversos fatores: a falta de critérios diagnósticos claros para identificar a Síndrome de Munchausen por procuração em animais, o conhecimento limitado dos veterinários sobre os recursos disponíveis para intervenção e a preocupação com a quebra do sigilo profissional. Essas barreiras dificultam a proteção de animais vulneráveis e permitem que comportamentos abusivos persistam sem controle.   

Fundamentos psicológicos da Síndrome de Munchausen 

A Síndrome de Munchausen, que recebeu o nome do Barão Munchausen, um aristocrata alemão conhecido por exagerar histórias sobre seus feitos, continua sendo um transtorno psicológico pouco compreendido. Indivíduos com essa condição frequentemente recusam tratamento psiquiátrico e podem apresentar comportamentos manipuladores, como viajar entre hospitais para simular doenças em si mesmos ou em outros.

Em casos graves, podem ser submetidos a procedimentos desnecessários, dolorosos ou que coloquem suas vidas em risco. Quando aplicado a animais de estimação, a síndrome se manifesta de forma semelhante, com os tutores potencialmente envenenando, ferindo ou deixando os animais passar fome para criar a necessidade de atendimento veterinário, satisfazendo assim sua própria necessidade de compaixão e cuidado. 

Implicações e conexões mais amplas com abuso infantil 

As descobertas do estudo vão além do bem-estar animal, sugerindo que uma melhor identificação do abuso animal por falsificação poderia auxiliar na detecção de casos paralelos de abuso infantil. Casos históricos mostraram sobreposições, como um caso de 2001 em que uma criança foi envenenada por um dos pais e um cachorro de estimação sofreu o mesmo destino.

"Devido à existência de variantes do fenômeno, assim como em casos de abuso infantil, diagnosticar o abuso animal por falsificação será um desafio. Portanto, é lógico que nossos participantes indiquem a necessidade de mais conhecimento sobre o abuso animal por falsificação e de apoio ao lidar com casos suspeitos", enfatizaram os pesquisadores. 

Com o aumento da conscientização, torna-se urgente a necessidade de mais treinamento e recursos para que os veterinários reconheçam e denunciem esses abusos. Ao abordar essa forma oculta de crueldade, a comunidade veterinária pode desempenhar um papel crucial na proteção tanto dos animais quanto dos humanos vítimas, destacando a natureza interligada dos abusos entre as espécies. 

Fonte: BritBrief